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19/05/2010 - 18h07

Análise: Crise na Tailândia tem raízes históricas

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Da BBC News em Bangcoc

Há três meses, Bangcoc era a imagem de uma bem-sucedida capital do sudoeste asiático. Hoje, as ruas da cidade são palco de confrontos entre manifestantes e tropas do governo.

É difícil imaginar como a Tailândia chegou a este ponto – e como vai fazer para se recuperar.

Uma forma de se enxergar o problema é ver uma massa pobre e enlouquecida que desceu do norte subdesenvolvido do país para demonstrar o seu amor por um ex-primeiro-ministro, Thaksin Shinawatra, e que está sendo paga para causar transtorno.

Outra, fala de luta de classes e levante popular, com o povo se insurgindo atrás de barricadas nas ruas, como em uma versão de "Os Miseráveis", o famoso musical sobre a Revolução Francesa.

A realidade está em algum ponto entre as duas visões e só pode ser compreendida depois de um rápido passeio pela história política recente da Tailândia.

Tensões no sistema

É fácil falar de 18 novas constituições em meio século, além de vários golpes de Estado. Para quem vive em países estáveis, é difícil imaginar este nível de incerteza sobre regras básicas do jogo político.

A monarquia absolutista foi trocada por um governo constitucional em 1932, mas as tensões entre o antigo sistema feudal, as forças armadas e várias forças democráticas nunca foram resolvidas e muitas vezes resultaram em mortes.

Neste vaivém, algumas datas notáveis: 1973, 1976, 1992, 2006 e agora 2010.

A imagem da Tailândia pode ser a de País dos Sorrisos, uma terra da fantasia repleta de sol, mar, sexo e cirurgias – mas ela foi cuidadosamente construída.

Apesar disso, muitos estrangeiros e tailandeses se deixaram seduzir por uma imagem de estabilidade que não passa de fachada.

Problemas estruturais

E agora a fachada está rachando. Através das rachaduras já é possível ver problemas estruturais mais graves, que não podem mais ser ignorados.

Pelo menos em um ponto os analistas concordam: os camisas vermelhas foram responsáveis por isso.

A Tailândia viveu sob variações de governos militares praticamente o tempo todo desde a constituição de 1932, passando pela Segunda Guerra Mundial e o início da década de 70.

Em 14 de outubro de 1973, mais de 70 manifestantes foram assassinados e 800 ficaram feridos quando tropas do governo abriram fogo contra uma multidão de estudantes que pedia democracia no país.

O governo militar caiu, uma nova constituição foi criada e, em seis meses, aconteceram novas eleições.
Em 26 de setembro de 1976, dois estudantes foram estrangulados e enforcados, supostamente por policiais. Milhares voltaram às ruas em protestos contra o governo militar.

Duas semanas depois, em 6 de outubro, a situação voltou a ficar tensa com a morte de pelo menos 46 pessoas em confrontos com policiais, soldados e milícias de extrema-direita. Os manifestantes afirmam que as mortes superam este número.

Ruptura

Este momento marca o fim de um periodo democrático, com a fuga de muitas pessoas para as montanhas do país, para engrossar o movimento comunista que mais tarde seria aniquilado.

Em 1980, o general Prem Tinsulanonda foi nomeado primeiro-ministro depois do mandato de três anos de outro general, após o golpe de Estado de 1977.

Hoje, o general Prem é presidente do Conselho Privado e um dos vilões para o movimento dos camisas vermelhas, por ser acusado de ter participado na organização do golpe de 2006.

Até 1992, o país foi marcado por golpes e fracas coalizões construídas por primeiros-ministros. Naquele ano, Chamlong Srimaung liderou protestos contra a escolha do general Suchinda Kraprayoon para primeiro-ministro.

Em um episódio célebre, o rei Bhumiphol Adulyadej convocou os dois rivais para uma audiência e exigiu o fim dos confrontos nas ruas em maio daquele ano. Várias pessoas morreram e ficaram feridas e mais de 2 mil desapareceram.

Em setembro de 1992, eleições levaram um governo democrático ao poder, liderado pelo primeiro-ministro Chuan Leekpai.

Thaksin entra em cena

Dois anos mais tarde, o magnata das telecomunicações Thaksin Shinawatra fez a sua estreia política, apadrinhado por Chamlong.

Em 1995, Chamlong retirou o seu partido, o Palang Dharma, da coalizão de governo, o que levou à queda de Chuan. Thaksin se tornou vice-primeiro-ministro do governo que o sucedeu.

Dois governos de coalizão mais tarde, o primeiro-ministro era o general Chavalit Yongchaiyudh, atual presidente do partido Peua Thai, de Thaksin.

A crise econômica de 1997 levou os democratas de volta ao poder sob a liderança de Chuan. No entanto, em janeiro de 2001, Thaksin obteve uma vitória retumbante nas urnas.

Com isto, Thaksin aumentou seu poder sobre diversas instituições tailandesas. O trabalho da imprensa foi duramente cerceado, e o respeito aos direitos humanos caiu drasticamente.

Por outro lado, o primeiro-ministro investiu maciçamente em áreas rurais, normalmente abandonadas pelos governos da Tailândia.

Nas eleições de 2005, ele voltou a ganhar com ampla vantagem, no pleito com maior participação na história do país.

Novo golpe

Em 2006, ele convocou novas eleições, que foram boicotadas pelo partido Democrata. Por isso, a vitória dele foi considerada inválida pelo Tribunal Constitucional em 8 de maio daquele ano.

Novas eleições foram planejadas para outubro, mas um golpe em 19 de setembro impediu a sua realização. Desde então, dois governos de aliados de Thaksin foram eleitos, mas impossibilitados de assumir por ações na Justiça, o que levou ao atual governo Democrata, eleito pelo Parlamento, não por eleições-gerais.

Para determinar se a crise atual é repentina e chocante ou se, de fato, faz parte de um longo histórico de conflitos – uma discussão que foi proibida pela censura e por rigorosas leis – vai depender de onde você escolher começar.

Qualquer que seja a versão do passado recente escolhida, violência e a aposta da própria vida na democracia serão parte integrante da política tailandesa.

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