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27/05/2010 - 05h22

Lucas Mendes: Cuspe na agulha

Na bolsa da violência em Nova York o crime continua em baixa, mas os insultos estão em alta.

Redução de crime em recessões é controvérsia acadêmica, mas não é novidade. Durante a Grande Depressão, apesar de Al Capone e outras gangues, houve muito menos crime do que na prosperidade delirante da década de 20.

Nova York é a cidade grande mais segura do país, mas as cuspidas dispararam.

Você não deve, mas pode xingar a mãe do motorista ou mandá-lo para onde você quiser. Não dá prisão. Mas cuspir no motorista do ônibus entra na categoria de agressão, pode dar cadeia e custa milhões de dólares por ano aos contribuintes novaiorquinos.

A motorista Oneshia Shade recebeu uma descarga dupla de um passageiro enfurecido pela demora do ônibus. A primeira "bala" acertou na bochecha, a segunda no olho. Oneshia ficou cinco meses de licença com salário integral.

A história de Oneisha é uma das 88 cuspidas em 2009 e ela é a recordista em tempo de licença entre os motoristas, mas 49 deles ficaram, em média, três meses sem trabalhar, autorizados por certificados médicos. Cuspida na cara é de amargar, mas três meses de férias? O calibre do sindicato é grosso.

Precisa ter peito para cuspir na Oneisha. Apesar da cara de fera e braço de lutador de box peso pesado já tinha sido atacada antes. Em 2001, grávida, foi esfaqueada por duas adolescentes e teve um parto prematuro.

Passou anos de licença, processou, voltou ao trabalho e, depois da cusparada, e dos seis meses de recuperacao acabou conseguindo um emprego no sindicato do transporte.

Os números do MTA, a Metropolitan Transit Authority, são "gregos" - novo sinônimo de promiscuidade com o dinheiro público - dizem os críticos que examinaram a contabilidade do departamento de transporte. Aumentos muito acima da inflação, mordomias, dívidas exorbitantes que crescem de ano para ano - só o pagamento dos juros vai chegar a US$ 2 bilhões em 2013 - e os serviços vão piorar muito a partir da semana que vem porque várias linhas expressas serão cortadas para reduzir gastos. Há passageiros salivando.

Prisões? Improvável. Embora seja um crime que pode dar prisão, precisa haver flagrante.

O problema não é só novaiorquino. Em Londres e outras cidades, o cuspe é levado para exame de DNA. Em Nova York, Oneshia e outras vítimas, vão para hospitais e fazem exames para identificar doenças infecciosas. E para justificar as licenças.

Uma pesquisa superficial como a minha sobre cuspe e cuspidas mostra um farto vocabulário ligado a sexo, mas uma das mais intrigantes que encontrei foi no hóquei: cuspir chicletes.

Duncan Keith, dos Hawks de Chicago, semana passada cuspiu sete: três dentes de cima e quatro debaixo. Ficou exatamente sete minutos fora do jogo - um minuto para cada dente - enquanto os dentistas fiziam uma limpeza e aplicavam anestesia. Voltou patinando à toda e levou o time à vitória na semifinal pela primeira vez de 25 anos. Para a torcida não houve nada extraordinário. Afinal eram só chicletes.

Na adolescência participei de campeonantos de cuspe e mijada à distância, masturbação coletiva para ver quem chegava primeiro - "não vale, é cuspe" - mas nunca cuspi em ninguém. Fiz pior. Tinha uns 10 ou 11 anos e com três ou quatro amigos estava na molecagem imitando um coroinha só que dentro da lata amarrada no barbante havia nossa urina em vez de incenso. Quando o ônibus passou joguei a lata, que deveria ter passado por cima mas entrou pela porta e bateu no motorista.

Ele nos perseguiu até dentro da cozinha da minha casa. Meu pai ouviu a comoção e botou o homem para fora. Depois, pela primeira e única vez na vida, me aplicou um castigo físico. Pelo cabelo, me levantou do chão. Fiquei mais surpreso do que dolorido. Merecia muito mais.

Pior foi o castigo de um ano sem sair de casa a noite. Na epoca nao havia televisao. Tarzan, Arsene Lupin, Sherlock Holmes, Fantasma , Super-Homem e os livros da escola foram meus companheiros.

Enquanto nos pontos de ônibus o cuspe é a arma do crime, nos últimos três anos as estações de Nova York foram cenários de gestos heroicos. Com os trens se aproximando, três pessoas pularam para salver pessoas que tinham caído nos trihos. Um foi convidado para ir à Casa Branca, o segundo só foi identificado graças aos amigos e festejado pela prefeitura. O terceiro, semana passada, tirou a mulher do trilho na hora H. Continua incógnito.

Porque os novaiorquinnos cospem nos motoristas de ônibus, mas arriscam suas vidas para salvar estranhos nos trilhos, como o Zorro? Mais um mistério de Gotham City.

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