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29/05/2010 - 20h57

Uribe deixa Colômbia mais segura e com maior dívida social, dizem analistas

Considerado um dos presidentes mais populares da história recente da Colômbia, o presidente Álvaro Uribe entregará um país relativamente mais seguro ao seu sucessor, porém com uma dívida social que cresceu junto com a militarização do país nos oito anos de governo, de acordo com analistas entrevistados pela BBC Brasil.

"Uribe nos liberou. Agora podemos viajar sem temer ser sequestrado ou ter que pagar pedágio para guerrilha", afirmou à BBC Brasil o engenheiro civil Carlos Andres Cartone.

"Por outro lado, temos uma crise social aguda, a educação está sendo privatizada, (o sistema de) saúde é precário e o desemprego assusta", afirmou Cartone, que diz ser uribista, mas que no próximo domingo não votará pelo candidato governista, Juan Manuel Santos.

"Vou esperar Uribe, ele volta daqui a quatro anos".

Eleito em 2002 e reeleito em 2006, com a promessa de enfrentar as guerrilhas, Uribe implementou uma ofensiva militar sem precedentes, principalmente através de sua política "Segurança Democrática" e da ampliação do "Plano Colômbia" - um acordo de cooperação militar com os Estados Unidos.

Ele "derrotou quase que por completo o Exército de Libertação Nacional (ELN) e debilitou de maneira muito significativa as FARC, que ainda não estão totalmente derrotadas, mas sofreram golpes importantes", afirmou à BBC Brasil o analista político Juan Gabriel Tokatlian, da Universidade San Andrés, de Buenos Aires, especialista em política colombiana.

Estima-se que o exército das Farc , que chegou a contar com 15 mil combatentes, seja composto atualmente por 8,2 mil guerrilheiros. O Exército de Libertação Nacional (ELN), segunda maior guerrilha do país, conta com 2,2 homens.

Direitos humanos Tokatlián destaca ainda como avanços na política de segurança de Uribe a redução do número de sequestros, a diminuição da plantação de cultivos ilícitos no país, o fortalecimento da estrutura e a ampliação da presença das Forças Armadas no país.

"Estes êxitos, porém, foram acompanhados da violação de direitos humanos de uma forma alarmante", ponderou.

Em consequência do conflito armado interno, 3,5 milhões de colombianos foram vítimas de deslocamento interno forçado, a segunda maior comunidade no mundo depois do Sudão.

Outra sequela da aplicação da política de segurança democrática foi o escândalo de execuções extrajudiciais de jovens de baixa renda do campo e da cidade, que foram assassinados e em seguida vestidos como guerrilheiros com o objetivo de inflar as estatísticas do Exército no combate aos grupos armados.

A Justiça colombiana investiga pelo menos 2 mil assassinatos suspeitos de serem catalogados como falsos-positivos.

Quando assumiu o governo, em 2002, a pobreza afetava a 53,7% dos colombianos, segundo Departamento Administrativo Nacional de Estatísticas (DANE). No ano passado, este índice era de 45,5%, indicador que aponta uma redução de 5,2% no número de pobres durante a gestão Uribe.

Dívida social O número de indigentes sofreu uma ligeira queda, de 19,2% em 2002, para 16,4% registrados no ano passado. Em números absolutos, atualmente, cerca de 20 milhões de colombianos vivem na pobreza e outros 7,6 milhões em estado de indigência.

Para o analista político Juan Gabriel Tokatlian, a redução da pobreza foi importante, porém, em termos comparativos, "a Colômbia foi o país que menos reduziu a pobreza na região durante este período", afirmou Tokatlián.

O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) calculado pelas Nações Unidas mostra que a Colômbia caiu do posto 68 no ranking, em 2002, para 77, de acordo com o relatório divulgado em 2009. Neste mesmo período, a vizinha Venezuela saltou do posto 69 para a colocação 58. O Brasil ocupa o posto 75.

Na avaliação do analista político Pedro Medellín, "Uribe deixa uma dívida social e principalmente uma profunda dívida institucional", afirmou.

Para Medellín, Uribe governou de maneira "clientelista", "atacou a independência" dos poderes e "concentrou" poder.

"As instituições foram carregadas de clientelismo e muitas vezes utilizadas por agentes ilegais para fins não adequados, como o caso (de espionagem do) DAS (sigla do Departamento Administrativo de Segurança, a agência de inteligência colombiana)", afirmou.

Agentes do DAS grampearam ligações de membros da Corte Suprema, que investigavam casos de envolvimento de políticos com paramilitares- e de membros da oposição ao governo.

Popular O escandâlo de espionagem foi conhecido como "chuzadas".

A Colômbia foi um dos países na região que mais recebeu investimentos estrangeiros, US$ 50, 6 milhões, de acordo com cifras do Banco Central.

Por outro lado, Uribe deixará a Presidência com um déficit fiscal estimado em mais de 4% do Produto Interno Bruto e uma taxa de desemprego de 12%, uma das mais altas da América Latina.

Uribe terminará seu mandato em agosto com um índices de popularidade ao redor de 68%, um dos mais altos da história. "Uribe se comunica com o povo, briga com os ministros pela televisão, parece aquele tipo de pai bravo, que quer corrigir os filhos, pôr a casa em ordem", disse à BBC Brasil o taxista Luis Bejarano, acrescentando: "O problema é que nem sempre isso dá certo".

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