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20/06/2010 - 22h16

Era Uribe continua com vitória de Santos na Colômbia, dizem analistas

O controvertido legado do presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, no poder há oito anos, não termina com a vitória neste domingo do candidato governista Juan Manuel Santos, que promete dar continuidade às políticas de seu antecessor.

A vitória de Santos com 69% de apoio, mais de 8,9 milhões de votos, é uma espécie de "terceiro mandato" para a era Uribe, na opinião de analistas políticos ouvidos pela BBC Brasil.

"O uribismo continua vigente. A maioria hoje votou por um terceiro mandato de Uribe, não necessariamente por Juan Manuel Santos", afirmou a analista política Laura Gil, para quem a incógnita é se Santos conseguirá sair da sombra de Uribe e "impor uma marca pessoal a seu governo".

Para Rafael Nieto, analista político e ex-vice-ministro da Justiça, Santos tentará construir o "santismo" em substituição ao uribismo, mas não nos primeiros anos de governo.

"Santos reconhece que grande parte de seu êxito se deve aos oito anos do governo de Uribe e à sua popularidade", afirmou.

"Santos sabe que iria contra seus próprios interesses se começar marcar grandes distâncias com o presidente logo no começo".

Transição Outro aspecto destacado pelos especialistas é o estilo de governar, onde Santos tende a marcar diferença em relação a seu antecessor.

Para Laura Gil, com a eleição de Santos, a Colômbia passará por uma transição. "Haverá a transição de um governo de uma elite agrária com suspeita de manter vínculos com paramilitares a uma elite tecnocrata, urbana, com pretensões dinásticas e modernizantes ao mesmo tempo", afirmou.

Outro aspecto pessoal que difere Uribe de Santos é a popularidade. O presidente colombiano entregará seu segundo mandato em 7 de agosto com cerca de 68% de popularidade, um dos mais altos índices da história.

"Santos não tem o carisma do presidente Uribe, não tem a mesma facilidade de dialogar com as pessoas, é mais frio, mais distante, mais aristocrático", afirmou o analista Rafael Nieto.

Por outro lado, Santos tende a ser mais conciliador que o atual mandatário. "Uribe gosta de confrontação", afirmou Nieto.

"Santos busca acordos, negocia permanentemente e isso pode permitir melhorar, principalmente, a relação com o poder Judiciário", afirmou.

A administração Uribe foi marcada, entre outros aspectos, por um intenso confronto com o Judiciário, que nos últimos anos julgou e condenou políticos envolvidos no escândalo de suposta compra de votos para sua reeleição.

A Justiça colombiana também investiga mais de 80 políticos, que pertencem a atual base governista, acusados de vínculos com paramilitares.

Em fevereiro, o ex-senador colombiano Mário Uribe, primo e aliado político do presidente da Colômbia, foi preso por suposto envolvimento com a "parapolítica", como ficou conhecida a articulação entre políticos e chefes paramilitares.

Parapolítica Santos chega à Presidência com um confortável apoio de 80% dos parlamentares no Congresso. Para analistas, isso não seria um problema se parte desses congressistas não fosse acusada de envolvimento com paramilitares.

"Santos não romperá com esses grupos", afirmou o historiador Medófilo Medina, professor da Universidade Nacional da Colômbia.

Para ele, os "escândalos" envolvendo políticos e paramilitares - que marcaram os dois últimos anos da administração Uribe - tendem a ser mais "discretos" com Santos. "Porém, a presença do narcotráfico continuará existindo", afirmou.

Em entrevista coletiva, durante a campanha, Santos disse que não se aliaria aos parapolíticos.

Conservadorismo No campo econômico, o historiador Medófilo Medina afirma que não haverá mudanças. "Continuará o modelo neoliberal", afirmou.

Santos tem prometido dar continuidade à política econômica de ajuste e benefícios fiscais para atrair novos investimentos e gerar novos postos de trabalho. O índice oficial de desemprego na Colômbia é de 12%, uma das mais altas taxas da América Latina.

Outra marca do uribismo que deverá permanecer "intacta" é a política de combate aos grupos guerrilheiros pela via armada, não negociada, apoiada pelo Plano Colômbia, aliança militar financiada pelos Estados Unidos.

Quando foi eleito em 2002 e reeleito em 2006, Uribe prometeu e implementou uma ofensiva militar sem precedentes contra as guerrilhas, que teria sido responsável pelo enfraquecimento dos grupos armados e por importantes golpes à estrutura militar das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia).

Brasil As críticas do governo do Brasil contra a assinatura do acordo militar entre Colômbia e Estados Unidos - que permite o uso bases militares colombianas por tropas americanas - é visto por analistas colombianos como o "estopim" que terminou por distanciar ainda mais as relações entre Brasília e Bogotá.

Para a analista política Laura Gil, Santos buscará uma reaproximação com o Brasil. "As relações diplomáticas foram muito afetadas, mas acredito que o governo e Santos entenderam que Brasil é um aliado muito importante, do qual não se pode afastar", afirmou.

Para Gil, Santos continuará sendo o principal aliado dos Estados Unidos na região, mas ao mesmo tempo buscará uma zona de distensão com os vizinhos, de olho em promover um isolamento do presidente venezuelano Hugo Chávez.

"A relação privilegiada com Estados Unidos continuará, mas haverá uma tentativa de aproximação com a América Latina. Santos tentará fortalecer esses laços para isolar Chávez", afirmou Gil.

Para a cientista política Consuelo Ahumada, professora da Universidade Javeriana, o resultado das urnas neste domingo mostra o caráter conservador da sociedade colombiana.

"Vemos uma sociedade conservadora, à direita, que está disposta a aceitar muitas coisas em troca do combate às guerrilhas", afirmou.

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