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15/07/2010 - 06h37

Lucas Mendes: George, o alquimista

George Steinbrenner era o 'Chefe', o 'Rei George', o 'Imperador do Mal'. Tinha vários apelidos, mas prefiro o 'Alquimista'.

Comprou um time de beisebol em decadência por US$ 10 milhões e hoje vale US$ 1,6 bilhões. O valor total do Manchester United ainda é um pouco maior, mas a marca Yankee vale mais. Steinbrenner não transformava só pernetas em ouro. Como dono do time mais querido da cidade, ele mudava o humor de Nova York. Mesmo não sendo fã de beisebol, eu sempre torcia pelos Yankees porque depois de uma vitória era muito mais fácil dividir o espaço desta cidade nas ruas ou nos metros.

Durante seu reinado o time conquistou foi 11 vezes às finais e conquistou sete campeonatos nacionais.

Mesmo para quem não gosta de beisebol, um jogo num fim de tarde de outono no estádio dos Yankees, com uma cerveja e um cachorro quente, é um dos prazeres ainda desconhecido pela maioria dos turistas.

Poucas pessoas apareceram tantas vezes nas capas dos jornais da cidade e na terça-feira, além das primeiras páginas, o obituário dele ocupou dezenas de páginas, editoriais saudosos e transbordou nos telejornais. Aos 80 anos, estava com a saúde frágil, mas a morte do coração foi súbita. Quando comprou o time, ele era um desconhecido na cidade. Vinha de Cleveland, onde fabricava navios, e prometeu que não ia interferir no dia-a-dia do clube. Poucos meses depois, inspecionava até os banheiros antes dos jogos e o culpado pela sujeira levava suas "tacadas". Nada escapava à "microadministração" do alquimista, da limpeza à atuação e aparência dos jogadores. Barbudos e cabeludos não eram Yankees.

Steinbrenner era um líder que se impunha mais pelo medo do que pelo respeito. Ele admitia que tinha herdado do pai a rigidez da disciplina. Na escola primária, ele era o único que usava paletó e gravata.

Para agradar o velho, ele competia em vários esportes e se destacou nas corridas de obstáculos. Num dia disputou quatro e ganhou três. Quando chegou em casa foi obrigado a sentar na cadeira e refletir porque tinha perdido uma. Perder não era aceitável.

Veio daí o pavor da derrota e a obsessão de vencer que trouxe para os Yankees, pagando os melhores salários da praça. E as maiores cobranças.

Foi suspenso duas vezes pela liga de beisebol. Na primeira, por contribuições ilegais para a campanha de Richard Nixon à Presidência. A outra, por dois anos, porque contratou um mau caráter por US$ 40 mil para levantar podres sobre um jogador fino que conquistava os fãs, mas não o patrão.

Ficou dois anos de castigo, afastado do clube. Suas brigas com os técnicos também fizeram história. Um deles, com o temperamento parecido com o dele, foi demitido e recontratado cinco vezes.

Suas brigas com juízes vinham da juventude. Quando era técnico de um time de basquete amador entrou em campo e tirou o apito da boca de um juiz. Durante a carreira, seus insultos aos árbitros custaram US$ 645 mil em multas. Quando o telefone tocava de madrugada ou era morte na família ou o patrão Steinbrenner com críticas ou instruções, conta um ex-diretor de relações públicas dos Yankees. Depois de um certo tempo, ele torcia para que a chamada fosse para anunciar morte em família. Tinha um lado generoso oculto. Doava milhões. Quando a mulher de um ex-jogador escreveu sobre dias miseráveis, mandou contratá-la no mesmo dia, pagou as contas e subiu dentro do time. Durante uma final de campeonato - melhor de sete - assistiu a vários jogos com os Clintons da Casa Branca.

Um dia, quando caminhava com o presidente pelo gramado e a banda começou a tocar o tradicional Hail to the Chief , o presidente disse a ele: "George, não se iluda. Esta musica não é para você".

Seinfeld, um dos shows mais populares da TV americana, deu fama e dimensão nacional às extravagâncias Steibrenner. O ator que fazia o papel dele nunca aparecia de frente. Dava suas instruções sobre tudo, de sanduíches a uniformes e mudanças no time ao assistente e xará George Constanza, que um dia foi chamado à sala do chefe: "George, andam dizendo aqui no clube que você é comunista".

"Antes de mais nada, eu sou um Yankee", respondeu o empregado.

Para o patrão, a melhor coisa que podia acontecer com o time era um comunista capaz de trazer para os Yankees jogadores cubanos: "Vá lá, traga aquele tal de Rodrigues e algumas caixas de charuto ".

Este ano ele foi à inauguração do novo estádio, que custou US$ 1,5 bilhão, e chorou quando foi ovacionado pela torcida e pelo seus jogadores. Residentes do Bronx também são gratos. Além da alegria das vitórias deu empregos, praças de esportes e parques ao bairro mais pobre de Nova York.

Vai ter um enterro mais concorrido do que a maioria dos prefeitos de Nova York.

E morreu no ano certo. A partir de 2011 voltará a vigorar o imposto de 55% sobre heranças suspenso pelo presidente Bush. O filho, que hoje dirige o time, e outros herdeiros,vão receber US$ 600 milhões que iriam para o tio Sam. Tacada certa até na morte.

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