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20/07/2010 - 11h16

Karzai quer tropas afegãs controlando o país até 2014

O presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, abriu uma conferência internacional em Cabul nesta terça-feira dizendo que as forças afegãs deverão ser as únicas responsáveis pelo controle da segurança do país, até 2014.

Karzai admitiu que o Afeganistão ainda não chegou a um estágio de boa governança, acrescentando que seus aliados enfrentam "um inimigo comum cruel".

Ele falava a representantes de 70 países na maior reunião sobre ajuda ao Afeganistão em três décadas.

Os Estados Unidos e seus aliados querem garantias de Karzai de que ele vai combater a corrupção e promover a boa governança.

Segundo a agência de notícias Reuters, o comunicado final do encontro deve estabelecer que as forças afegãs deverão assumir a responsabilidade em algumas áreas do país até o fim deste ano.

"As Forças Nacionais de Segurança Afegãs (ANSF, na sigla em inglês) deverão liderar e conduzir as operações militares em todas as províncias até o fim de 2014", afirma o comunicado, segundo a Reuters.

Segundo analistas, como os insurgentes ainda controlam várias áreas do Afeganistão, os objetivos de segurança de Karzai são muito ambiciosos.

Controle Karzai pediu à comunidade internacional que aumente em 50% a proporção da ajuda estrangeira em dinheiro que chega ao governo afegão.

Descrevendo a conferência como um "marco na parceria internacional que se aprofunda", Karzai afirmou em seu discurso de abertura: "Enfrentamos um inimigo comum cruel que viola todas as normas islâmicas e internacionais para tentar romper nossa união de esforços".

"Eles gostariam de criar incertezas e levar nosso povo a duvidar sobretudo de nossa determinação e do poder de nosso Estado." Karzai ainda pediu que o país passe a ter maior controle sobre a ajuda multi-bilionária que é enviada ao Afeganistão. Atualmente, apenas cerca de 20% desta ajuda é distribuída pelo governo afegão.

Em troca, forças afegãs tentariam assumir a liderança das operações de segurança do país até 2014, disse ele. Um painel iria avaliar quais das 34 províncias estão prontas para que as forças afegãs assumam o controle da segurança a partir do ano que vem.

Falando depois do presidente afegão, a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, afirmou que os Estados Unidos vão acelerar o processo de devolver o controle da segurança aos policiais e militares afegãos a partir de julho de 2011.

"A data de julho de 2011 captura tanto nosso senso de urgência como a força de nossa resolução", afirmou. "O processo de transição é muito importante para ser adiado indefinidamente... Mas esta data é o início de uma nova fase, não o fim de nosso envolvimento." Segundo Hillary, ao compromisso militar americano no Afeganistão corresponderá o que ela chamou de um movimento civil sem precedentes para o desenvolvimento econômico.

Na segunda-feira, Clinton disse que Washington estava "pressionando o governo afegão em todos os níveis para que assumisse mais responsabilidades e fosse mais efetivo no combate à corrupção".

Ela ainda advertiu Cabul contra tentativas de firmar um acordo de paz com o Talebã, a al-Qaeda e outros grupos militantes que os Estados Unidos consideram irreconciliáveis.

O Talebã insiste que vai continuar lutando até que todas as forças estrangeiras deixem o país.

Pressão americana pela responsabilidade Para permitir a retirada de cerca de 150 mil soldados das Forças da Otan do Afeganistão, Karzai propôs aumentar o Exército afegão para 170 mil soldados, e o contingente policial para 134 mil homens até outubro do ano que vem. Até 36 mil ex-militantes seriam integrados às forças de segurança.

Alguns analistas, no entanto, sugerem que ainda assim as forças afegãs seriam pequenas e pouco qualificadas para garantir a segurança.

A Otan tem um sistema claro de marcação para avaliar a capacidade das unidades militares que vai de um a quatro, sendo que quatro corresponde à habilidade de operar independentemente de apoio internacional.

Thomas Johnson, um conselheiro do governo americano no Afeganistão, disse à BBC que praticamente nenhuma unidade do Exército afegão recebeu nota quatro.

Críticos também questionam a proposta de aumentar a proporção de ajuda que vai diretamente para o governo afegão, principalmente depois das recentes revelações de que a construção de grandes mansões em Dubai foi financiada por dinheiro desviado da ajuda recebida pelo Afeganistão.

O secretário-geral da ONU Ban Ki-moon, que está presidindo a conferência junto a Karzai, disse que os programas de ajuda precisam ser "bem coordenados e transparentes".

Mais cedo, Ban pediu ao presidente afegão que produza "um plano de ação concreto" e "faça mais pela boa governança, em particular lutando contra práticas corruptas".

Antes da conferência, a segurança foi reforçada na capital afegã, com várias barreiras policiais sendo erguidas durante a noite.

Na noite de segunda-feira, foram ouvidas várias explosões perto da região onde ficam departamentos do governo e embaixadas, provavelmente causadas por foguetes.

Nos últimos meses, Cabul foi alvo de vários atentados suicidas.

No mês passado, uma reunião nacional de paz foi atacada com foguetes durante a abertura do presidente Hamid Karzai. O ministro do interior e o chefe do serviço de inteligência renunciaram pouco depois.

'Plano concreto de ação' O Afeganistão recebeu US$ 36 bilhões em ajuda estrangeira - cerca de US$ 1.200 por habitante - desde 2001, mas apenas uma pequena parte deste dinheiro teve algum impacto, afirma o especialista em desenvolvimento internacional da BBC David Loyn.

Segundo o Banco Mundial, grande parte desta ajuda foi gasta em segurança, com pagamentos de "um serviço civil alternativo", com a contratação de consultores estrangeiros altamente bem remunerados que operam fora do Afeganistão, e muito pouco foi usado na reconstrução da capacidade do Afeganistão de governar a si próprio.

Apesar de esta não ser uma conferência de doadores, novas promessas de ajuda foram feitas nos dias que antecederam a reunião, com o ministro do Exterior britânico, William Hague, afirmando que seu país planeja aumentar sua contribuição para o Afeganistão em 40%.

Hague disse que o dinheiro extra, com o objetivo de ajudar projetos de educação e criação de empregos, iria contribuir também para os esforços militares.

Analistas acreditam que o significado real da conferência está na tentativa de manter a comunidade internacional envolvida no Afeganistão depois da decisão do presidente americano Barack Obama de começar a reduzir o número de tropas americanas no país a partir de julho do ano que vem.

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