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22/07/2010 - 10h27

A essência e o prazer do bifão.

O bifão na minha frente é sedutor mas história de Armin Mewies que ouvi de Paul Bloom naquela tarde e transcrevo quase literalmente do seu livro me separa da carne.

Em 2003, Armin, um alemão de 42 anos, especialista em computador, entrou na internet em busca de um candidato para matar e comer. A mensagem era clara.

Mais de duzentas pessoas se candidataram. Depois de várias entrevistas, ele escolheu Bernad Brandes.

Poucas noites depois os dois se encontraram numa casa de campo de Arwin. Brandes tomou várias píluas para dormir e metade de uma garrafa de Schnapps.

Armin cortou, fritou e ambos comeram o pênis de Brandes mas nenhum dos dois gostou.

Arwin foi ler um romance e Brandes, sangrando muito, deitou na banheira de água quente. Depois de algumas horas Armin foi ao banheiro, deu um beijo na boca de Brandes ao mesmo tempo em que enfiava uma faca no pescoco dele.

Cortou sua vítima em pedaços, colocou na geladeira, e aos poucos, devorou mais de 20 quilos de Brandes que, com o tempo, apreciava cada vez mais.

Assim como outro assassino e canibal, o americano Jeffrey Dahmer, Armin não estava interessado nas proteínas nem gorduras ou sabor (muito parecido com carne de porco, segundo relatos de ambos canibais). O que eles procuravam era a "essência" das pessoas. Não queriam se separar delas.

Ambos foram presos e condenados.

Essencialismo O canibalismo é o caso extremo exemplificado nesta nova ciência, o Essencialismo, que tenta desvendar os mistérios do prazer e nos explicar porque gostamos do que gostamos.

Em inglês, o título do livro sobre o assunto lançado recentemente, e que recebeu ótimas críticas aqui e na Inglaterra, é "How Pleasure Works, The New Science of Why We Like What We Like". "Há centenas de estudos sobre a felicidade, que não deve ser confundida com prazer", me diz o autor, o psicólogo e essencialista Paul Bloom da universidade Yale.

O prazer evolui e hoje temos mais prazeres do que nossos ancestrais. Mas qual o prazer que há em comprar um relógio de US$ 4 mil, pagar US$ 48 mil por uma fita métrica que pertenceu ao presidente Kennedy ou milhares de dólares por um suéter usado de George Clooney desde que não tenha sido lavado? Nos prazeres da mesa o livro vai do canibal ao vegetariano, passando pelo mesmo vinho com rótulos diferentes e por dezenas de outras experiências que distinguem o essencial do falso.

O capítulo sobre os prazeres do sexo é o mais longo do livro. Ir para cama com alguém que pouco significa para você, como uma prostituta, é como comprar um Rolex falso.

Este capítulo me deixou confuso porque na juventude dormi com várias profissionais adoráveis. Algumas vezes, raras devo admitir, o sexo não era a parte mais importante. Se ela tinha uma boa história para contar, valia a noite. Com sexo, melhor ainda.

Mas, de fato, não tinham nenhuma importância no dia seguinte. Só para a lorota com os amigos.

Um dos mestres da psicologia, Steven Pinker, escreveu que as pessoas se sentem mais felizes quando estão sadias, bem alimentadas, confortáveis, seguras, prósperas, educadas, têm companhia e são amadas, mas o professor Bloom diz que esta lista, para mim extraordinária, é incompleta.

Não fala dos prazeres do esporte, da música, arte, literatura, religião e muitos outros. O prazer não está só na flor da pele nem nas sensações da mesa, cama, mas nos objetos possuídos. Segundo ele, nós precisamos acreditar no autêntico para chegarmos ao essencial.

O bifão está na minha frente. Estou confuso.

Me lembro do colega Orlando Moreira com quem fiz centenas de reportagens e tantas vezes comemos juntos. Era vegetariano mas ainda comia peixe. Hoje é radical, só come verde vivo e está inteiraço.

Na hora de pedir ele dizia: "Bonzinho (como ele se referia a mim e a outros colegas) vai comer direito ou vai comer cadáver?" Pressionado, eu ia no peixe e, admito, raramente me arrependia. Diante do meu cadáver penso em Bloom, no Moreira e ligo o F: devorei o boi.

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