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19/07/2011 - 15h53

Entenda o escândalo dos grampos envolvendo o 'News of the World'

O tablóide dominical britânico News of the World, o mais vendido do país, foi fechado no dia 10 de julho por seu controlador, o grupo News International, devido ao envolvimento do jornal em um escândalo de escutas telefônicas ilegais.

Publicado pela primeira vez há 168 anos, o jornal, cuja tiragem chegava a 2,8 milhões de exemplares a cada domingo, gerou um debate nacional sobre ética jornalística.

A BBC preparou uma série de perguntas e respostas sobre o caso e os acontecimentos que levaram ao fechamento do tabloide.

Como o escândalo começou?
As acusações de que funcionários do News of the World estariam envolvidos em interceptação ilegal de telefones começaram a surgir em 2006.

Em 2007, a Justiça condenou à prisão o correspondente do jornal para assuntos da realeza Clive Goodman e o investigador Glenn Mulcaire devido ao grampo ilegal de telefones de membros da família real.

A Polícia Metropolitana de Londres (Scotland Yard) iniciou uma nova investigação em janeiro de 2011, após alegações de que milhares de pessoas, entre elas atores, políticos, jogadores de futebol, apresentadores de TV e outras celebridades, tiveram seus telefones interceptados ilegalmente.

Em abril deste ano, o tabloide admitiu publicamente pela primeira vez ter interceptado mensagens deixadas na caixa postal de celulares de pessoas envolvidas em casos acompanhados pelo jornal.

O caso ganhou contornos de escândalo no início de julho, com a denúncia de que um detetive que trabalhava para o jornal teria grampeado o telefone celular - inclusive apagando mensagens - de Milly Dowler, uma menina de 13 anos que desapareceu em 2002.

A manipulação das mensagens, ainda em 2002, fez a polícia e a família da jovem acreditar que ela ainda estaria viva, já que a sua caixa postal continuava sendo "limpa". O corpo foi encontrado depois.

Quais são as consequências do escândalo até o momento?
O escândalo por si só afugentou anunciantes do grupo e derrubou as ações do conglomerado nas bolsas americanas e da Austrália.

Dois altos funcionários da News Corporation pediram demissão devido ao caso: o diretor-executivo da empresa de mídia Dow Jones, e responsável editorial pelo jornal Wall Street Journal, Les Hinton, e a diretora-executiva do grupo News International, Rebekah Brooks.

Brooks foi editora-chefe do News of the World em 2002 - à época das supostas escutas no telefone da menina Milly Dowler.

Depois de sua demissão, Brooks foi detida pela Scotland Yard em 17 de julho e mantida sob custódia por 12 horas, quando foi interrogada. A ex-executiva da News International foi solta mediante pagamento de fiança.

A Scotland Yard também deteve o jornalista Andy Coulson, ex-editor-chefe do News of the World e ex-chefe de comunicações do primeiro-ministro David Cameron, em 8 de julho.

O ex-editor executivo do News of the World Neil Wallis também foi detido em conexão com o escândalo e levado para interrogatório em Londres, sob suspeita de conspirar para interceptar comunicações.

Já a ligação de Wallis com a Scotland Yard, que o contratou como consultor de comunicação, acabou causando as demissões do chefe da Polícia Metropolitana de Londres, Sir Paul Stephenson, e de seu vice, Jonh Yeats, por suspeita de envolvimento nas escutas ilegais.

Além disso, diante da intensa pressão de políticos, da imprensa e da opinião pública, o dono da News International, o magnata Rupert Murdoch, desistiu de seguir com seus planos de adquirir a totalidade das ações da operadora de TV por assinatura BSkyB, da qual seu grupo já possui 39%.

Como transcorreu o depoimento de envolvidos no Parlmento britânico?
Rupert Murdoch e seu filho compareceram voluntariamente diante de uma comissão parlamentar na terça-feira, 19 de julho, para dar explicações sobre os grampos.

O magnata disse que "sente muito" pelas vítimas dos grampos e disse: "este é o dia da minha vida em que me senti mais humilde."
Murdoch afirmou que não era responsável pelo escândalo das escutas telefônicas feitas pelo News of the World. Ele alegou ter sido enganado por "algumas pessoas em quem confiava".

Questionado sobre detalhes específicos de más práticas de funcionários de sua empresa, Murdoch deu respostas hesitantes e monossilábicas. "Traímos a confiança de nossos leitores", disse.

Convocada para comparecer diante da mesma comissão, Rebekah Brooks afirmou que só tomou conhecimento dos grampos ilegais apenas em 2010, quando o jornal foi processado pela atriz Sienna Miller.

A ex-editora disse ainda que ficou "chocada" quando descobriu que seus repórteres haviam grampeado o celular da garota Milly Dowler.

Quem teria sido grampeado?
Logo após a divulgação do caso de Milly Dowler, jornais britânicos afirmaram, que, em busca de histórias exclusivas, o News of the World fez escuta nos celulares de familiares de soldados britânicos mortos no Afeganistão e de vítimas de casos policiais explorados pelo tabloide.

Parentes de vítimas dos atentados de julho de 2005 em Londres também teriam sido alvo dos grampos.

Segundo o jornal The Guardian, 3 mil pessoas foram vítimas de escutas ilegais do News of the World. Entre elas, estariam celebridades como o ator Hugh Grant e as atrizes Sienna Miller e Gwyneth Paltrow, além de esportistas e políticos.

O caso do brasileiro Jean Charles de Menezes, morto por engano pela polícia britânica em 2005, também tem relação com o escândalo?
Sim. Alex Pereira, primo de Jean Charles, teria sido uma das milhares de pessoas que tiveram seus telefones grampeados. Alex teria sido informado pela polícia que seu telefone constaria a relação de números que teriam sido interceptados pelo tabloide.

De acordo com Guardian, a família do brasileiro escreveu uma carta ao primeiro-ministro britânico pedindo para estender o inquérito a respeito dos grampos telefônicos.

Os parentes do brasileiro querem descobrir se policiais envolvidos na investigação da morte de Jean Charles estavam vazando informações para a imprensa, fosse para obter benefícios financeiros, fosse para melhorar a imagem da Scotland Yard.

Como o News of the World realizava os grampos?
Telefones celulares vendidos na Grã-Bretanha vinham com uma senha de quatro dígitos (que geralmente era um número padrão, como 1234, 0000 ou 3333). Ao comprar os aparelhos, os consumidores deveriam trocar esta senha, mas poucos se davam ao trabalho de fazê-lo.

Segundo as acusações, os repórteres de tabloides e detetives particulares simplesmente ligavam para o número da pessoa investigada. Se ninguém respondesse, a ligação caía na caixa de mensagens. Assim, bastava entrar com a senha padrão para acessar as mensagens.

Outra tática comum seria trocar a senha do telefone para impedir que outros jornalistas acessassem a caixa de mensagens.

O que diz o jornal?
O News of the World inicialmente negou qualquer infração, mas, em abril, acabou pedindo desculpas, depois de forte pressão de outros veículos de mídia e das vítimas das interceptações.

O tabloide, no entanto, não admite ter realizado grampos no celular da garota Milly Dowler, nem nos telefones de parentes de militares mortos no Afeganistão.

O que dizem as vítimas?
Famílias de militares mortos no Afeganistão se disseram indignadas com as alegações. Muitas já entraram na Justiça.

Para Adrian Weale, representante do associação de militares Federação das Forças Armadas Britânicas, "esta é uma situação lamentável, se de fato ocorreu".

Celebridades também já processaram o jornal. Uma delas foi a atriz Sienna Miller, que recebeu uma indenização de 100 mil libras (R$ 248 mil).

O jornal também foi condenado pelo coronel Richard Kemp, ex-comandante das forças britânicas no Afeganistão, que disse que as acusações o deixaram "absolutamente sem palavras e com raiva".

O caso já está sendo investigado?
A Scotland Yard reabriu as investigações sobre as escutas do News of The World em janeiro passado, após o vazamento de alguns casos.

Quatro e-mails que supostamente davam indícios do esquema foram encontrados pelos investigadores. Imediatamente, o News of the World afastou um de seus editores-assistentes, Ian Edmondson.

As mesmas suspeitas já haviam sido investigadas entre 2006 e 2009, sem que a polícia chegasse a maiores conclusões, o que foi objeto de críticas de jornais como o Guardian. Na época, apenas Clive Goodman e Glenn Mulcaire foram presos.

Na segunda-feira, 18 de julho, a ministra do Interior da Grã-Bretanha, Theresa May, anunciou um inquérito para investigar as acusações de corrupção policial que surgiram com o escândalo dos grampos.

May disse ao Parlamento britânico que ela vai pedir aos inspetores que analisem principalmente a relação entre policiais e jornalistas.

O escândalo atingiu algum outro jornal do grupo News International?
Documentos e gravações que vieram à tona na segunda-feira, 11 de julho, indicam que o Sunday Times e o The Sun poderiam ter tido acesso a dados financeiros privados do ex-premiê britânico Gordon Brown e ao histórico médico de seu filho, que sofre de fibrose cística.

Os dois jornais do grupo News Internacional rejeitaram as acusações de que teriam obtido de forma ilegal informações privadas sobre Brown e defenderam seus métodos jornalísticos.

Qual foi a reação do governo?
Em 7 de julho, o primeiro-ministro David Cameron fez severas críticas relacionadas ao caso.

Cameron prometeu uma investigação independente, assim que a Scotland Yard concluir seu inquérito.

O fato de Andy Coulson ter sido porta-voz de Cameron também é motivo de polêmica. Coulson renunciou ao cargo no início deste ano, antes de ser detido.

A demissão do chefe da Scotland Yard também aumentou a pressão política sobre o primeiro-ministro.

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