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01/04/2010 - 02h20

Israel desafia a paciência dos EUA

Noam Chomsky
  • O vice-presidente dos EUA, Joe Biden, se encontra com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, durante visita oficial do representante americano ao país, no último dia 09/03

    O vice-presidente dos EUA, Joe Biden, se encontra com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, durante visita oficial do representante americano ao país, no último dia 09/03

Novamente o pavio está em Jerusalém Oriental, tomada por Israel na guerra de 1967 –desta vez, um complexo proposto de 1.600 apartamentos no bairro de Ramat Shlomo. E, de novo, levou à morte de palestinos por fogo israelense. 

Em 9 de março, o Ministério do Interior israelense anunciou o novo projeto durante a visita do vice-presidente dos Estados Unidos, Joseph R. Biden, a Israel. O presidente Obama pediu pela suspensão da expansão dos assentamentos no território ocupado. 

A reação foi imediata e intensa. O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, pediu publicamente desculpas pelo momento “lamentável” do anúncio, mas insistiu que Israel pode construir livremente em Jerusalém Oriental e em qualquer lugar nos territórios que pretende anexar. 

Biden teve uma conversa privada, furiosa, com Netanyahu, citando a preocupação dos militares americanos com o fracasso na solução do conflito entre israelenses e palestinos, segundo a imprensa israelense. 

“O que vocês estão fazendo aqui mina a segurança de nossas tropas que estão lutando no Iraque, Afeganistão e Paquistão”, Biden teria dito a Netanyahu. “Isso nos coloca em risco e coloca em risco a paz regional.” 

Em 16 de março, o general David H. Petraeus, o chefe do Comando Central dos Estados Unidos, expressou essas preocupações ao Comitê de Serviços Armados do Senado. “O conflito fomenta o sentimento antiamericano devido à percepção do favoritismo americano em relação a Israel.” 

Uma semana depois, Netanyahu e Obama se encontraram na Casa Branca para conversações caracterizadas posteriormente como “contenciosas”. 

Natanyahu mantém uma linha dura em relação aos assentamentos. E não demonstra interesse em reconhecer a viabilidade de um Estado palestino. Esta intransigência reflete muito mal na credibilidade americana. 

Um desacordo semelhante, ligado aos assentamentos, ocorreu há 20 anos, levando o presidente George H.W. Bush a impor sanções limitadas a Israel em reação ao comportamento insolente, desrespeitoso, do primeiro-ministro Yitzhak Shamir, que foi rapidamente substituído. A dúvida é se o governo Obama está disposto a adotar até mesmo as medidas brandas empregadas por Bush pai. 

A situação agora é mais séria. Dentro de Israel, os setores ultranacionalista e religioso cresceram com um visão mais estreita, paroquial. E as forças americanas estão envolvidas em guerras impopulares na região. 

Em maio passado, em Washington, Obama se encontrou com Netanyahu e Mahmoud Abbas, o presidente da Autoridade Palestina. Os encontros, e o discurso de Obama no Cairo, em junho, foram interpretados como uma mudança na política americana para o Oriente Médio. 

Mas um olhar mais atento sugere reservas.

 As interações entre os Estados Unidos e Israel –com Abbas deixado de lado– dependem de duas frases: “Estado palestino” e “crescimento natural dos assentamentos”. Vamos considerar cada uma. 

Obama de fato pronunciou as palavras “Estado palestino”, assim como o presidente George W. Bush. Por sua vez, a plataforma (não revisada) de 1999 do partido do governo de Israel, o Likud de Netanyahu, “rejeita categoricamente o estabelecimento de um Estado árabe palestino a oeste do Rio Jordão”. 

Também é importante lembrar que o governo de Netanyahu, em 1996, foi o primeiro em Israel a usar a frase “Estado palestino”. O governo concordou que os palestinos podem chamar quaisquer fragmentos da Palestina deixados para eles de “Estado” se quiserem –assim como podem chamá-los de “frango frito”. 

Em maio do ano passado, a posição de Washington foi apresentada de forma mais enérgica na declaração muito citada da secretária de Estado americana, Hillary Clinton, rejeitando as “exceções de crescimento natural” à política oficial americana que se opõe a novos assentamentos. 

Netanyahu e virtualmente todo o espectro político israelense insiste em permitir esse “crescimento natural”, queixando-se de que os Estados Unidos estão recuando da autorização de Bush para essa expansão dentro de sua “visão” de um Estado palestino. 

A formulação Obama-Clinton não é nova. Ela repete os termos do roteiro para um Estado palestino de Bush, que estipula que na 1ª Fase, Israel “suspenda toda a atividade de assentamento consistente com o relatório (do ex-senador americano George J.) Mitchell, incluindo o crescimento natural dos assentamentos”. 

No Cairo, Obama manteve seu estilo familiar “tabula rasa” –com pouca substância, apresentado de modo pessoal para permitir que os ouvintes preencham na lacuna aquilo que desejam ouvir. 

Obama repetiu a “visão” de Bush de um Estado palestino, sem detalhar o que queria dizer. 

O presidente americano disse: “Os Estados Unidos não aceitam a legitimidade da continuidade dos assentamentos israelenses”. As palavras chaves foram “legitimidade” e “continuidade”. 

Por omissão, Obama indicou que aceita a “visão” de Bush: que os vastos assentamentos e projetos de infraestrutura israelenses existentes na Cisjordânia são implicitamente “legítimos”, garantindo que a frase “Estado palestino”, em referência ao território restante fragmentado, signifique “frango frito”. 

Em novembro passado, Netanyahu declarou uma suspensão de 10 meses a novas construções, com muitas exceções, e excluindo inteiramente a Grande Jerusalém, onde a expropriação das áreas árabes e a construção por colonos judeus, como no projeto em Rabat Shlomo, continua em ritmo acelerado. 

Esses projetos são, sem dúvida, ilegais: como todos os assentamentos, eles violam a lei internacional –e, em Jerusalém, especificamente resoluções do Conselho de Segurança.

Em Jerusalém na época, Hillary Clinton elogiou as concessões “sem precedente” de Netanyahu às construções (ilegais), provocando revolta e ridículo em grande parte do mundo. 

O governo Obama defende uma “reconceitualização” do conflito no Oriente Médio, articulada mais claramente em março passado pelo presidente do Comitê de Relações Exteriores do Senado, John Kerry. 

Israel deve ser integrado aos Estados árabes “moderados” que são aliados americanos, confrontando o Irã e propiciando o domínio americano de regiões vitais produtoras de energia. Dentro dessa estrutura de trabalho, algum acordo não especificado entre Israel e os palestinos encontrará seu lugar. 

Enquanto isso, os laços se aprofundam entre os Estados Unidos e Israel. A cooperação mais estreita de inteligência já dura mais de meio século. 

Parcerias de alta tecnologia americanas-israelenses estão florescendo. A Intel, por exemplo, está adicionando uma instalação gigantesca ao seu complexo Kiryat Gat para promover uma redução revolucionária no tamanho dos chips. 

Os laços entre a indústria militar americana e israelense permanecem particularmente estreitos, tanto que Israel tem transferido instalações de desenvolvimento e manufatura para os Estados Unidos, onde o acesso à ajuda militar americana e aos mercados é mais fácil. Israel também está considerando transferir a produção de veículos blindados para os Estados Unidos, apesar das objeções de milhares de trabalhadores israelenses, que perderão seus empregos. 

As relações também beneficiam os produtores militares americanos –duplamente, na verdade, porque a oferta de armas financiadas pelo governo americano para Israel, que é por si só muito lucrativa, também funciona como um “teaser” que induz as ditaduras ricas árabes (“moderadas”) a comprarem grandes quantidades de equipamento militar menos sofisticado. 

Israel também continua fornecendo aos Estados Unidos uma base militar estrategicamente localizada para pré-posicionamento de armas e outras funções –mais recentemente em janeiro, quando o exército americano buscou “dobrar o valor dos equipamentos militares de emergência que estoca em solo israelense”, aumentando o nível para US$ 800 milhões. 

“Mísseis, veículos blindados, munição aérea e de artilharia já estão estocados no país”, informa o “Defense News”. 

Estes estão entre os serviços sem paralelo que Israel tem fornecido ao militarismo e domínio global americano, assim como para a economia de alta tecnologia americana. 

Eles asseguram a Israel uma certa liberdade de desafiar as ordens de Washington –apesar de Israel estar assumindo um grande risco caso tente forçar sua sorte, como a história repetidamente mostra. A arrogância de Ramat Shlomo claramente atingiu um nervo. 

Israel só pode ir até certo ponto com a permissão americana. Os Estados Unidos há muito são participantes diretos até mesmo nos crimes israelenses que formalmente condenam –mas com uma piscadela. Nós ainda veremos se esta farsa continuará.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Noam Chomsky

Noam Chomsky

Noam Chomsky é um dos mais importantes linguistas do século 20 e escreve sobre questões internacionais.

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