O magnífico legado retórico dos "Pais Fundadores" dos EUA

Anne Applebaum

Anne Applebaum

Na manhã de Natal, meu marido encontrou um CD de "The Greatest Speeches of All Time" (Os Maiores Discursos de Todos os Tempos) em sua meia de Natal. Foi, se posso dizer, um presente inspirado. Mas o título provou ser um tanto enganador: o discurso "Eu não sou um criminoso" de Richard Nixon não era pertinente, e eu não teria escolhido o discurso por rádio de 1940 de Winston Churchill como o único exemplo de sua retórica no tempo da guerra ("Eu tenho uma confiança inabalável no exército francês e seus líderes"). Também há um problema fundamental com qualquer coleção de áudio desse tipo, que é por definição limitada ao século 20 e não pode incluir Abraham Lincoln, muito menos Cícero. Qualquer coisa chamada de "os maiores discursos de todos os tempos", portanto, precisa ser encarada com certo ceticismo.

Ainda assim, após uma eleição presidencial americana marcada por um padrão incomumente alto de retórica política, foi estranhamente revelador escutar o líder dos direitos civis, Martin Luther King Jr., os presidentes Ronald Reagan, John F. Kennedy e seu irmão, o senador Robert F. Kennedy, Franklin Roosevelt, Harry Truman, e até mesmo Nixon, um após o outro, fora de ordem cronológica. Uma coisa que foi ressaltada foi que seus temas eram surpreendentemente consistentes ao longo dos anos, independente de partidos, em eventos diferentes e até mesmo ocasiões. Até certo ponto, isso deve ser esperado: está claro, quando se ouve todos juntos, que os autores do discurso do Muro de Berlim de Ronald Reagan, em 1987 ("Nós viemos a Berlim, nós presidentes americanos, porque é nosso dever falar, neste lugar, sobre liberdade"), releram cuidadosamente o discurso "Ich Bin Ein Berliner" de JFK ("ergam seus olhos além dos riscos de hoje, para as esperanças do amanhã, além da liberdade apenas desta cidade de Berlim - para o avanço da liberdade em toda parte").

Mas alguns dos outros ecos são menos óbvios. Quem se recorda agora de que o discurso de Ronald Reagan em 1983, para sempre famoso porque ele costumava chamar a União Soviética de "um império do mal", também continha a seguinte declaração: "Nossa nação também tem um legado do mal com o qual deve lidar. A glória desta terra tem sido sua capacidade de transcender os males morais de nosso passado. Por exemplo, a longa luta dos cidadãos minoritários por direitos iguais, antes uma fonte de desunião e guerra civil, agora é um ponto de orgulho para todos os americanos. Nós nunca devemos voltar atrás".

Neste único parágrafo, há ecos de JFK ("a liberdade tem muitas dificuldades e a democracia não é perfeita"), assim como, é claro, de King, que brilhantemente se apropriou da linguagem dos documentos fundadores americanos e os transformou em um argumento irrefutável para os direitos civis: "Eu tenho um sonho de que algum dia esta nação se erguerá e viverá o verdadeiro significado de seus princípios: 'Consideramos estas verdades evidentes, a de que todos os homens são criados iguais'".

Assim que ele disse isso, de fato não havia como voltar. Dali em diante, a democracia americana foi estabelecida como um fenômeno em evolução, não um conjunto de idéias congeladas em pedra. A noção de uma América "com capacidade de transcender os males morais", uma América que pode e irá evoluir, se tornou uma base retórica, aparecendo em muitos dos "maiores discursos de todos os tempos" subsequentes, incluindo os de nosso presidente eleito.

Eles não são nem remotamente pensamentos originais, eu percebo. Mas me chamam a atenção como dignos de repetição nesta semana, não apenas por causa da posse na próxima semana. No domingo, uma emissora de TV russa anunciou os resultados de uma pesquisa de opinião realizada para determinar qual foi o "maior russo de todos os tempos". O primeiro lugar ficou para Alexander Nevsky, um príncipe medieval que derrotou os invasores alemães e suecos e portanto simboliza o desafio russo diante do Ocidente. O segundo lugar ficou para Piotr Stolypin, um ministro czarista e reformista econômico de mão-de-ferro, famoso não apenas pela reforma agrícola, mas também por reprimir as rebeliões camponesas. O terceiro lugar, eu temo, ficou com Josef Stalin.

Há outras tradições políticas na Rússia, o país cujos dissidentes quase sem ajuda inventaram o movimento moderno de direitos humanos nos anos 60 e 70. Mas nesta disputa de popularidade em particular, as tradições repressivas, anti-Ocidentais e ditatoriais prevaleceram, apesar de que não por acaso. A emissora de TV que conduziu a pesquisa, afinal, é de propriedade do Kremlin e há queixas de manipulação.

Ainda assim, me fez pensar: nós americanos temos sorte pelos Pais Fundadores terem sido tão eloquentes, tão citáveis, por sua linguagem pertencer à tradição iluminista do século 18, que valorizava a clareza, e não à tradição hegeliana, que não valorizava. Mais especificamente, temos sorte pela retórica política dos Pais Fundadores Thomas Jefferson e James Madison, da forma como foi modificada por Lincoln e King, ter persistido até o presente; pela linguagem da Declaração da Independência e da Constituição - e não, digamos, a linguagem de Jefferson Davis, o presidente dos Estados Confederados da América, ou da Ku Klux Klan- ter permanecido popular; por ela ainda estabelecer o padrão pelo qual os discursos políticos modernos são julgados.

Nós temos sorte. Feliz 2009.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Anne Applebaum

Jornalista escreve sobre política norte-americana e assuntos internacionais.

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