Pilotando o avião do Estado: Barack Obama é como o capitão C.B. Sullenberger do voo 1549

Anne Applebaum

Anne Applebaum

Se uma pessoa estivesse em busca uma metáfora apropriada - e, em tempos como este, as pessoas estão sempre procurando uma metáfora - seria difícil encontrar uma melhor do que o voo 1549 da US Airways, o avião que fez um pouso forçado e seguro no rio Hudson na semana passada. Esse evento extraordinário foi, digamos, um anti-onze-de-setembro: o avião deu pane no centro de Manhattan, mas seus pilotos, em vez de mirarem em um arranha-céu e matarem milhares de pessoas, dirigiram-se para o rio e assim salvaram as vidas de todos os 155 passageiros a bordo.

Não houve pânico. "As testemunhas descreveram a cena como um trabalho de equipe equilibrado", informou o "Washington Post". Em vez de gritarem, os passageiros avaliaram as portas de emergência segundos antes do pouso, para que pudessem abri-las rapidamente. Uma vez na água, estranhos ajudaram-se uns aos outros na saída do avião. Barcos turísticos e botes correram para a cena, para prestar assistência mesmo antes da chegada dos serviços de emergência. Uma criança e uma mulher em cadeira de rodas foram resgatadas e levadas para a segurança em terra. O piloto, o capitão C.B. "Sully" Sullenberger, caminhou pelo corredor para assegurar-se que os assentos estivessem vazios, antes de deixar o avião que afundava.

Ao ouvir o presidente Barack Obama falar na terça-feira (20/1), ao vê-lo desfilar pela avenida Pensilvânia e dançar nos bailes inaugurais, mantenha essa história em mente, pois descreve com precisão assustadora a tarefa diante dele. Com efeito, ele é o piloto de um avião cujo motor explodiu inesperadamente: apesar de meia dúzia de pessoas terem previsto a crise financeira do último outono, o fato é que quase ninguém na política o fez, assim como ninguém previu que um bando de gansos poderia derrubar um Airbus. Assim como o piloto, a tarefa de Obama agora é impedir que a inesperada crise financeira provoque uma enorme catástrofe. Para tanto, ele precisa demonstrar competência e profissionalismo, qualidades tão raras na vida pública que os que as possuem -como aquele piloto- em geral são chamados de "heróis".

Contudo, para estender ainda mais a metáfora, o sucesso dessa tarefa dependerá não apenas do piloto, mas também dos passageiros e dos outros, que mantenham a calma. Em outras palavras, se um grande número de pessoas usar essa crise para expandir suas fortunas ou para promover seus interesses, elas podem acabar afundando todo o avião.

Eu poderia ilustrar esse ponto talvez excessivamente poético de muitas formas, mas um aspecto dos vários planos de "resgate" do novo governo me preocupa em particular: a premissa, que parece estar por trás deles, que as pessoas fazem decisões melhores quando estão lidando com dinheiro público do que quando estão lidando com seu próprio dinheiro. Amplas evidências de muitas sociedades durante muitos anos provam o oposto: de fato, as pessoas a quem o dinheiro público é confiado são comumente inclinadas a desperdiçá-lo, roubá-lo ou simplesmente usá-lo mal.

Após o fracasso inicial do governo federal durante o furacão Katrina, por exemplo, o dinheiro do governo jorrou em Nova Orleans nas semanas e meses posteriores. O resultado: fraude de ampla escala, insatisfação geral e trailers tão mal construídos que não puderam ser usados.

Ainda assim, muitas coisas boas aconteceram em Nova Orleans após o furacão Katrina: Voluntários de todos os tipos reuniram-se na cidade e organizações de auto-ajuda brotaram. Isso não é para dizer que não havia um papel para o governo, mas que o governo funciona melhor apoiando as iniciativas dos cidadãos e não as substituindo.

Meu maior temor, no dia da posse, não era, portanto, que haveria uma pane no motor do avião e que a economia afundaria: isso já aconteceu. Meu maior temor é que, ao tentar consertar a economia, o novo governo desperdice tempo e dinheiro na crença enganada que projetos de infraestrutura centralmente planejados e patrocinados pelo governo, de alguma forma, usarão o dinheiro mais eficazmente do que seus equivalentes inspirados localmente ou privados. Meu segundo maior temor é que o "resgate" de várias companhias por fim produzirá menos empregos e mais desperdício de recursos do que a regeneração que poderia acontecer após uma série de falências inteligentemente administradas.

Eu entendo que "a maré mudou", que à direita deu lugar para a esquerda, que Obama foi eleito para mudar o tom em Washington. Mas ele fracassará se abandonar as muitas lições aprendidas sobre o relacionamento entre o governo e os governados das últimas várias décadas -um relacionamento que não é diferente daquele entre pilotos, mesmo heróicos, e os passageiros que estão tentando salvar.

Tradução: Deborah Weinberg

Anne Applebaum

Jornalista escreve sobre política norte-americana e assuntos internacionais.

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