Por que alguns estrangeiros não conseguem acreditar que Obama conquistou a presidência de forma justa e honesta

Anne Applebaum

Anne Applebaum

Você provavelmente já ouviu histórias sobre repórteres estrangeiros desmaiando, cobertura internacional ininterrupta, manchetes lisonjeiras em muitas línguas -e eu posso confirmar que é tudo verdade. Ao me ver em uma banca de jornal em Londres um dia após a posse, eu posso testemunhar sobre o que muitos jornais britânicos e europeus estamparam em suas capas naquela manhã: fotos de página inteira do presidente Barack Obama, a maioria tirada visando mostrar o público de 2 milhões abaixo dele, todas com manchetes triunfantes em letras grandes no topo.

Mas a exultação não foi totalmente unânime, é claro, em parte porque a própria cobertura espumante da imprensa resultou em certa reação contrária. Um amigo britânico me disse que apesar de ter gostado de assistir a pose, "esta aclamação salvacionista por um redentor político me preocupa, já que mostra a profundidade do desespero quase universal". Comentários semelhantes foram ouvidos em outras partes.

Mas também há outra categoria mais negativa de resposta estrangeira à posse de Obama que vale a pena notar, não por causa do que nos diz a respeito de nosso presidente, mas por causa do que revela a respeito de seus autores. Alguns observadores internacionais evitaram a adulação geral e concluíram, simplesmente, que todo o evento -a eleição, a posse- foi uma farsa.

Para um exemplo típico, veja o Pravda.ru, o site russo que sucedeu o órgão do Partido Comunista soviético. Escrevendo no espírito dos tempos antigos, um de seus autores informou aos leitores na semana passada que a presidência de Obama era uma fraude. Afinal, ele "se tornou presidente porque era necessário um bode expiatório durante os tempos difíceis de crise", e ele não durará: "Se Obama não conseguir tirar o país da crise em dois ou três anos, os republicanos apresentarão seu verdadeiro candidato e a presidência de Obama terminará mais cedo do que o esperado". O presidente americano é, em outras palavras, apenas um ocupante interino do cargo -uma descrição que o torna notavelmente semelhante ao atual presidente da Rússia.

Mas o Pravda.ru não foi o único. Um acadêmico chinês escreveu que muitos de seus compatriotas estavam confiantes de que a eleição "impossível" de Obama seria perturbada por "algo dramático, semelhante ao assassinato de John F. Kennedy". Após a posse, uma importante autoridade distorceu um pouco o argumento e condenou o processo, pedindo à China que construa defesas contra as ideias "errôneas" da democracia ocidental (a televisão chinesa está bastante alerta a essas ideias errôneas a ponto de censurar o discurso de posse de Obama, apesar de ter sido transmitido ao vivo).

A Al Qaeda também está buscando desacreditar o presidente Obama, principalmente com insultos baixos (ele é um "hipócrita", um "assassino", até mesmo um "escravo dos brancos") mas também o descrevendo como um homem de frente da conspiração secreta sionista. "Este é Obama", disse Ayman al Zawahiri, o número 2 da Al Qaeda, "aquele cuja máquina americana de mentiras tenta retratar como o salvador que mudará a política da América".

Eu escolhi essas citações seletivamente, é claro: há muitos blogueiros e jornalistas russos e chineses que escreveram sobre a posse com entusiasmo ou pelo menos não a consideraram um acobertamento gigante. Como apontou o "Washington Post", a própria dureza da linguagem da Al Qaeda pode refletir a acolhida calorosa do presidente americano pelo mundo islâmico.

Mas sempre haverá aqueles que acreditarão que esta eleição foi manipulada, simplesmente porque em seus países as eleições são sempre manipuladas. A mera ideia de que um membro relativamente jovem, relativamente desconhecido, de uma minoria étnica possa se tornar presidente dos Estados Unidos simplesmente não faz sentido na China, onde os líderes nacionais são homens idosos que passaram décadas a serviço do Partido Comunista. Nem é lógico na Rússia, onde o resultado das eleições é sempre conhecido com muita antecedência e a transferência de poder sempre ocorre sob a sombra de uma conspiração secreta. Nem, é claro, poderia parecer plausível para a margem jihadista, um grupo cujos membros são definidos pelo fato de acreditarem que "mudança" é algo que se obtem apenas por meio do terror.

A eleição não faz sentido nem mesmo para alguns americanos (digite "Obama" e "hoax" -embuste- na ferramenta de busca de sua preferência para ver o que quero dizer). Ainda assim, a maioria de nós se acostumou com a ideia de que resultados eleitorais nem sempre podem ser determinados pelo establishment político com antecedência. Nós também elegemos, na memória recente, presidentes improváveis do Arkansas e da Geórgia; nós sobrevivemos a renúncias e impeachments presidenciais; nos acostumamos (e até mesmo nos gabamos) dos homens e mulheres negros comandando nossa política externa. Uma percepção desse presente é moldada pela experiência de alguém do passado, e nossa experiência é de que a democracia, pelo menos quando ela funciona, é confusa e imprevisível -precisamente o motivo para ser tão implausível para os outros.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Anne Applebaum

Jornalista escreve sobre política norte-americana e assuntos internacionais.

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