Apenas palavras

Anne Applebaum

Anne Applebaum

Quem se importa com o que Hillary Clinton diz aos líderes da China sobre direitos humanos?



"Nós basicamente sabemos o que eles vão dizer" - Hillary Clinton, sobre a reação chinesa às discussões sobre direitos humanos, liberdade religiosa e Tibete.

A Anistia Internacional está "extremamente decepcionada", e com direito. A diretora para Ásia da Human Rights Watch teme que as discussões de direitos humanos pelos Estados Unidos na China se tornarão "um diálogo sem saída para surdos" e com razão. Quanto aos fundadores dissidentes do novo movimento chinês Carta '08 - o maior grupo de protesto político em anos - nós não sabemos o que acham, pois estavam todos sob prisão domiciliar durante a visita de Hillary Clinton a Pequim. Eu tenho certeza que eles também se decepcionaram com o fracasso de nossa nova secretária de Estado em discutir direitos humanos com seus anfitriões durante sua estadia na China.

Apesar de me solidarizar com estes críticos, eu descobri que cada vez mais não me importo com o que Clinton diz a respeito de direitos humanos para os líderes da China. E nem eles. Ela está certa: estas discussões se tornaram ritualizadas. Eu também não me importo com o que ela possa dizer a respeito de direitos humanos aos líderes do Irã, Zimbábue ou Coréia do Norte se estas palavras não terão significado na prática. Discursos grandiloquentes de direitos humanos que não resultam em nada são uma marca da política externa americana desde pelo menos 1956, quando não saímos em ajuda à rebelião húngara que ajudamos a incitar. Cinquenta anos de promessas quebradas são suficientes, e se abandonarmos o hábito agora, já vai tarde.

Mas eu me importo bastante com o que o novo governo fará a respeito dos direitos humanos na prática e, até o momento, tanto Clinton quanto Obama têm se mantido em completo silêncio sobre o assunto. Os políticos frequentemente falam sobre "moralidade" na política externa como se fosse uma escolha entre tudo ou nada. Na verdade, há um vasto campo entre proferir slogans vazios em negociações de alto nível - sem contar ameaçar uma invasão- e não fazer nada. Muitos países derrubam ditaduras e muitos se tornam mais democráticos, ou pelo menos mais abertos, como resultado. No passado, nós às vezes ajudamos neste processo. O governo Obama, se começar agora, pode fazê-lo novamente - apesar de não precisar começar com um sermão ao ministro das Relações Exteriores da China.

Certamente, nós podemos ajudar usando pequenas, até mesmo minúsculas, quantias de dinheiro destinadas às pessoas que promovem o debate, não a rebelião armada, dentro dos países repressores. É possível argumentar que os centavos que gastamos fundando a Radio Free Europe (Rádio Livre da Europa) ou revistas anticomunistas, como a extinta "Encounter", durante a Guerra Fria, foram muito mais eficientes do que os bilhões gastos em equipamento militar. Mas apesar do equivalente moderno, a Radio Free Afghanistan (Rádio Livre do Afeganistão), atingir mais ouvintes no Afeganistão do que qualquer outra emissora, nós não estamos aumentando sua verba - pelo contrário, nós estamos reduzindo seu orçamento em termos reais. Nós ainda não encontramos uma forma criativa de promover uma discussão real do Islã radical no mundo muçulmano moderado, da forma como a "Encounter" antes promovia uma discussão do comunismo entre social-democratas.

Nós também podemos usar ferramentas tradicionais de diplomacia pública de uma melhor forma. Em vez de nomear amigos e arrecadadores de fundos para embaixadas, Obama poderia, nos próximos meses, nomear pessoas com talento para atuarem como verdadeiros porta-vozes da política americana - na televisão local, falando a língua local, escrevendo na imprensa local. Para tanto, o próprio Obama poderia se dirigir diretamente aos chineses ou norte-coreanos, se não pela televisão local, então pela CNN e BBC.

Realmente pode ser sem sentido negociar direitos humanos com o governo chinês, mas as declarações públicas sobre democracia e direitos humanos - do tipo que a própria Clinton fez na Indonésia na semana passada - serão ouvidas, se não por todos, então por alguns. Na China, um país onde os fiéis religiosos são molestados, todos os visitantes americanos proeminentes deveriam dar o exemplo indo à igreja - como Clinton fez. Na Rússia, um país com um sentimento ambivalente em relação ao seu passado repressor, todos os visitantes americanos proeminentes deveriam dar o exemplo visitando um memorial às vítimas de Stalin. Sem usar a frase "direitos humanos", muitas pessoas entenderiam o recado.

Apesar de não obterem resultados muito rapidamente, políticas deste tipo não apenas podem ser mais eficazes a longo prazo, mas também mais realistas do que muitas alternativas. Décadas de amizade americana com os governantes autoritários da Arábia Saudita não impediram o surgimento da Al Qaeda. Um relacionamento aconchegante com os atuais governantes da China também não garantirá uma estabilidade asiática duradoura. O presidente Obama estava certo, em seu discurso de posse, ao se dirigir a aqueles "que se agarram ao poder por meio da corrupção, do logro e do silenciamento da dissidência", lhes dizendo que precisam saber que estão "no lado errado da história". Agora, tanto ele quanto sua secretária de Estado precisam implantar políticas práticas para transformar em ação a lição retórica.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Anne Applebaum

Jornalista escreve sobre política norte-americana e assuntos internacionais.

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