O que é grande, barulhento, desnecessário e custa US$ 75 milhões?

Anne Applebaum

Anne Applebaum

Agora, uma charada: o que é grande, barulhento, desnecessário e custa US$ 75 milhões? Não, não é um elefante aposentado em um vestido bordado de brilhantes: a resposta é uma cúpula do Grupo dos 20, é claro. Essas reuniões do G20 - primas mais jovens e gordas das igualmente inúteis cúpulas do G7 e do G8 - vêm acontecendo desde 1999 de uma forma meio abaixo do radar, mas ultimamente assumiram uma nova urgência.

De fato, a próxima, que se realiza em Londres na quinta-feira, está sendo amplamente considerada a cúpula que vai salvar o sistema econômico internacional, provocar a recuperação do mercado de ações, criar prosperidade duradoura e salvar os políticos presentes dos eleitores irados que protestam lá fora. E tudo isso em um único dia!

A verdade, é claro, é que nada que será discutido na cúpula, e nada que será discutido em qualquer das cúpulas seguintes, não poderia ter sido discutido por telefone. Ou por e-mail. Ou em uma teleconferência pelo Skype. Na verdade, um autor britânico sugere que "os líderes mundiais poderiam ter continuado suas platitudes habituais sobre olhar para o futuro e envolver os jovens realizando a coisa toda no Facebook".

Mas o objetivo desta cúpula, como todas as cúpulas, não é realmente discussão. É política. Do ponto de vista dos anfitriões, o objetivo principal é resgatar Gordon Brown, o primeiro-ministro britânico, cuja popularidade está em baixa recorde. Brown passou os anos entre 1997 e 2007 servindo como chanceler do Tesouro britânico, e portanto não pode, como seus colegas americanos, atribuir a crise financeira da Grã-Bretanha aos erros do governo anterior. Ele assumiu o crédito pela economia pujante da Grã-Bretanha durante aqueles anos e portanto está sendo responsabilizado pela recessão britânica incomumente profunda. Há semanas a imprensa britânica vem gritando para que ele "peça desculpas". No mínimo, aquelas fotografias oficiais de cúpula - Brown cercado pelos líderes dos EUA, China, Rússia, Argentina, etc., contra o fundo industrial cinzento da Ilha dos Cães em Londres - o fará sentir-se importante de novo.

Outros têm agendas diferentes, nenhuma das quais provoca muita discussão real. O governo Obama, por exemplo, espera usar a cúpula como ferramenta para levar os alemães e outros a gastar mais: eles querem que cada país presente comprometa 2% de seu PIB a um pacote de estímulos, criando uma espécie de estrutura de apoio familiar para o pacote de estímulo americano de gazilhões de dólares.

Isso teoricamente permitiria que o presidente americano voltasse para casa e declarasse a vitória. E se não acontecer pelo menos ele terá um culpado quando a economia internacional, na verdade, não se consertar dentro de um mês ou dois: será tudo culpa dos europeus, que - típicos continentais! - discordam, fingem e discutem entre si em vez de atender ao chamado americano.

Enquanto eu sou geralmente a primeira a acusar os europeus de fingir e se esconder, tenho certa simpatia pelos alemães nesse sentido. O motivo pelo qual eles, os franceses e muitos outros na Europa - os britânicos são uma exceção - evitaram gastar grandes quantias em sua economia não é porque eles são continentais e incompetentes. É porque eles acham que não vai funcionar.

Embora possa parecer estranho, Angela Merkel, a chanceler alemã, e Nicolas Sarkozy, o presidente francês, são líderes que, por bem ou por mal, passaram a ter um certo respeito pelo que costumava se chamar de capitalismo anglo-americano, com o que costumava ser sua reputação de conservadorismo fiscal. Mais precisamente, eles também estão esgotando os limites do que podem pedir emprestado e também estão preocupados com a inflação.

Esta última preocupação é ainda mais aguda em muitos países europeus menores, alguns dos quais estão na verdade cortando seus orçamentos e, em consequência, adotando pacotes de austeridade financeira. Embora essas políticas não sejam populares hoje, seus defensores poderiam estar certos, afinal. Existe uma analogia aqui, embora infeliz, com o passado recente. Depois do 11 de Setembro, o governo Bush, em vez de dar um jeito na Al Qaeda, no Afeganistão e no Paquistão de uma vez, decidiu invadir o Iraque. Os europeus reclamaram - e os que não o fizeram, como os britânicos, hoje se arrependem. Depois da crise bancária, o governo Obama, em vez de regulamentar o sistema bancário e o mercado de hipotecas, decidiu criar um pacote de estímulos maciço, construir muitas pontes, expandir os gastos com educação e talvez também dar um jeito no atendimento de saúde. Os europeus estão reclamando de novo. Aqueles que não estão, como os britânicos, se arrependerão daqui a alguns anos?

Pelo menos, se isso acontecer, a cúpula do G20 desta semana assumirá uma importância real. Não será apenas mais uma cúpula, produzindo mais uma pilha de documentos, contendo mais um monte de eufemismos, mas sem um ponto divisor. Será lembrada para sempre como um momento em que alguns do mundo rico partiram em uma direção e o resto partiu para algum outro lugar. O que poderia significar que valeu pelo menos em parte esses US$ 75 milhões.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Anne Applebaum

Jornalista escreve sobre política norte-americana e assuntos internacionais.

UOL Cursos Online

Todos os cursos