Sem armas nucleares? Não, obrigado

Anne Applebaum

Anne Applebaum

A estranha obsessão de Obama pelo desarmamento nuclear universal


Acredite, não é divertido ser a pessoa a estragar o desfile, e a viagem do presidente Barack Obama à Europa na semana passada. Foi um desfile e tanto. Ou talvez uma "turnê com ingressos esgotados" seja uma metáfora melhor. Houve uma reunião alegre na prefeitura de Estrasburgo, França; um encontro maravilhoso entre Michelle Obama e Carla Bruni; cenas de rua espetaculares em Praga. Os estadistas do mundo disputavam para serem fotografados ao lado do presidente norte-americano.

Ainda assim, alguém precisa dizer: algumas coisas saíram bem nesta viagem, e algumas coisas saíram errado. Mas a peça central da visita, o discurso de política externa de Obama em Praga - que vazou antecipadamente, rotulado como uma grande declaração - foi, digamos, peculiar. Ele o usou para pedir por "um mundo sem armas nucleares" e por uma nova série de negociações de controle de armas com a Rússia. Isso não é necessariamente errado e nem maligno. Mas foi estranho.

Claramente, a política "sem armas nucleares" é importante para o presidente. O discurso de Praga até mesmo lembrou o mais famoso dos discursos de Obama, aquele feito após a derrota nas primárias de New Hampshire. "Há aqueles que ouvem sobre um mundo sem armas nucleares e duvidam se vale a pena estabelecer uma meta que parece impossível", ele disse ao público tcheco. (Lembre-se: "Nos foi dito por um coro de cínicos que não podemos fazer isso"?) "Quando países e povos se permitem ser definidos por suas diferenças, o abismo entre eles aumenta", ele prosseguiu. ("Nós não somos tão divididos quanto nossa política sugere.") Ele não disse, "Sim, nós podemos" no final, mas ele disse "o destino humano será aquele que nós fizermos", o que representa a mesma coisa.

A retórica era dele - assim como a idéia. Veja o retrospecto dele: uma das poucas iniciativas de política externa a qual Obama associou seu nome durante seu breve mandato no Senado foi um aumento nos recursos para a não-proliferação nuclear. Uma das poucas viagens como senador foi para uma visita de inspeção nuclear na Rússia, Ucrânia e Azerbaijão.

Tudo isso é muito bom -mas como peça central na política externa de um presidente americano, um pedido para um desarmamento nuclear universal parece sem propósito. Aparentemente, a intenção do presidente é liderar pelo exemplo: se os Estados Unidos reduzirem seu próprio arsenal nuclear e proibirem os testes, outros supostamente os seguirão.

Perdoe-me por me unir ao coro de cínicos, mas não há evidência de que reduções nas armas nucleares americanas já inspiraram outros a fazer o mesmo. Todas as potências nucleares mais recentes do mundo - Israel, Índia, Paquistão - adquiriram suas armas muito depois que as negociações do gênero tiveram início há mais de 40 anos.

Quanto aos norte-coreanos, eles escolheram o mesmo dia do discurso em Praga para lançar (sem sucesso) um míssil experimental. Nem a China e nem a Rússia quiseram condenar o lançamento, já que fazê-lo poderia estabelecer um precedente desconfortável para elas. "Todo Estado tem o direito ao uso pacífico do espaço", disse um representante russo na ONU. Seu governo quer negociações de reduções de armas, é claro, mas apenas porque o arsenal nuclear russo está se deteriorando rapidamente. Ao concordar em iniciá-las, nós abrimos mão desnecessariamente de uma moeda de troca.

As armas nucleares, apesar de assustadoras no abstrato, não são uma ameaça estratégica imediata para a Europa ou aos Estados Unidos - mesmo por parte do Irã. As armas biológicas são potencialmente mais letais. As armas químicas são mais baratas para serem produzidas. Dentro dos Estados Unidos, bombas comuns e aviões inimigos já causaram muitos estragos.

As armas convencionais, por sua vez, não saíram de moda. O uso mais recente de força militar na Europa - no conflito entre a Rússia e a Geórgia em agosto passado - envolveu tanques e infantaria, não armas nucleares. Mesmo se a Rússia vendesse o restante de suas armas nucleares como sucata, as forças armadas russas ainda representariam uma ameaça potencial aos seus vizinhos, assim como a China sem armas nucleares ainda poderia invadir Taiwan.

A eliminação das armas nucleares do mundo seria ótima, em outras palavras, mas por si só, não alteraria o equilíbrio internacional de poder, deteria a Al Qaeda ou impediria grandes Estados autoritários de invadirem seus vizinhos menores. Apesar de seu insucesso até o momento, a promoção da democracia ao redor do mundo é, no final, a única forma de atingir estas metas.

Além disso, por mais que os franceses tenham adorado o vestido florido de Michelle, eu não sei se eles têm interesse em abrir mão de sua "force de frappe". O mesmo vale para os britânicos. E como eles não representam uma ameaça, nem para nós e nem para ninguém, não está claro para mim por que deveríamos desperdiçar capital diplomático tentando fazer com que aceitem isso.

Pode ser, é claro, que o discurso de Praga represente um padrão: Obama falará sobre o fim das armas nucleares até encontrar uma idéia mais satisfatória sobre a qual apoiar sua política externa. Caso contrário, toda aquela boa-vontade, em grande evidência na semana passada, poderia muito bem ser desperdiçada.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Anne Applebaum

Jornalista escreve sobre política norte-americana e assuntos internacionais.

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