Análise: Irã mostra que uma eleição ruim é melhor do que nenhuma

Anne Applebaum

Anne Applebaum

Os eventos no Irã provam que um pouco de democracia é algo poderoso.

Houve um tempo em que democracia era sinônimo de maternidade e torta de maçã, algo de valor incontestável. Mais recentemente, a palavra perdeu seu brilho. O governo Bush em princípio falava muito sobre democracia, mas considerava as ideias democráticas, sem contar as instituições democráticas, difíceis de promover na prática. As eleições que os Estados Unidos queriam na Palestina levaram a uma vitória do Hamas. No Iraque, as eleições organizadas com a ajuda americana produziram um governo fraco e dividido em um momento em que força e unidade eram necessárias. Enquanto isso, os regimes autoritários russo, centro-asiáticos e outros passaram a última década aprendendo como manipular eleições, dando a si mesmos uma falsa legitimidade e produzindo uma nova forma de "democracia administrada": autoritarismo camuflado em retórica democrática.

O resultado foi uma reação - se não exatamente contra a democracia, então contra sua promoção. Em parte por desdenhar intuitivamente de tudo o que o presidente George W. Bush admirava e em parte por duvidar de sua eficácia, o governo Obama tem evitado deliberadamente a ideia de promover a democracia em geral e eleições em particular. Ao discutir o Afeganistão, eles falam inicialmente sobre "metas claras e realizáveis", não democracia. Em seu discurso no Cairo, o próprio presidente Barack Obama - falando para um público que incluia os líderes não democráticos do Egito - prefaciou seus breves comentários sobre democracia com uma frase de matar o entusiasmo, "eu sei que há muita controvérsia..." Eu fui informada de forma confiável de que dentro da Casa Branca e do Departamento de Estado, cargos com "promoção da democracia" no título não estão sendo muito procurados.

O que nos deixa com o quebra-cabeça peculiar do Irã. Pois o Irã é um exemplo clássico de democracia administrada - se é que pode ser chamado de democracia. Os iranianos não têm assegurada a liberdade de expressão ou a liberdade de imprensa. Os partidos políticos são altamente restringidos. Um pequeno grupo de clérigos não eleitos detém o monopólio do verdadeiro poder político, supervisionando as eleições assim como os candidatos. Estes últimos podem ser rejeitados por pertencerem ao grupo religioso errado, por "atos indecentes" ou simplesmente por não terem participado das orações de sexta-feira com entusiasmo suficiente. Cabos eleitorais mais dedicados podem ser espancados pela polícia, como alguns foram nas últimas semanas. O propósito central das eleições não é escolher um presidente - isso geralmente já foi feito com antecedência - mas reforçar a legitimidade dúbia do candidato escolhido pelos clérigos. Por esse motivo, os dissidentes iranianos, tanto dentro quanto fora do país, geralmente pedem aos seus simpatizantes que simplesmente boicotem a eleição.

Iranianos vão às ruas para protestar

Mesmo assim, a eleição realizada no Irã em 12 de junho provou quão poderosa, e quão incontrolável no final, até mesmo a eleição mais manipulada pode ser. As eleições no Irã podem não ser livres ou justas, mas expuseram, como colocou um amigo meu iraniano, uma "séria divisão de fato que não pode ser tratada a portas fechadas pela oligarquia governante". Elas podem não ter apresentado à sociedade dois candidatos radicalmente diferentes (Mir Hossein Mousavi, o "reformista" nesta eleição, foi o primeiro-ministro nos anos 80 quando ocorreu o assassinato em massa dos prisioneiros políticos), mas a mera chance ao público de votar contra o presidente Mahmoud Ahmadinejad inspirou o maior comparecimento de eleitores que alguém pode lembrar. A imprensa pode não ter conseguido relatar tudo o que aconteceu, mas os iranianos de fato compareceram aos eventos eleitorais em números sem precedentes, aplaudindo e vaiando. Os votos podem não ter sido contados corretamente, mas o cheiro de fraude provocou a maior onda de manifestações que alguém viu em uma década.

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Sim, foi uma eleição altamente manipulada, profundamente não liberal e nem mesmo mudou a composição do governo iraniano. Após tudo isso, Ahmadinejad ainda é o presidente. Mas o processo eleitoral abriu uma rachadura onde antes não existia nenhuma, a possibilidade de escolha inspirou aquela que parecia ser uma sociedade passiva a protestar e os comícios de campanha permitiram que as pessoas gritassem slogans políticos diante da polícia, sem reação policial. É possível argumentar -como muitos iranianos- que a eleição foi uma farsa. Mas o Irã mostra que uma eleição ruim é melhor do que nenhuma.

O que virá a seguir? Enquanto escrevo, o rumor na Internet diz que Mousavi está preso. Na próxima semana, ele poderá ser o presidente - ou poderá estar na prisão. Mas esse também é o sentido: o impacto da democracia -mesmo uma democracia incompleta, frágil- é imprevisível. O motivo principal, é claro, para os ditadores tentarem controlá-la.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Anne Applebaum

Jornalista escreve sobre política norte-americana e assuntos internacionais.

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