Regimes que reprimem os direitos de metade de sua população são naturalmente instáveis

Anne Applebaum

Anne Applebaum

Mulheres de óculos escuros e lenços na cabeça falavam com megafones, brandiam câmeras e carregavam cartazes. Quando apareceram pela primeira vez, as fotografias dos protestos por direitos das mulheres da Universidade Teerã em 2005 foram um lembrete poderoso do verdadeiro potencial das iranianas. Eram animadoras, mostravam mulheres de variadas idades e continuaram circulando por muito tempo depois dos protestos.

Agora, foram substituídas por um conjunto de imagens muito mais brutal e já infame: as fotografias e vídeos do último final de semana quando uma jovem iraniana supostamente foi morta por um atirador do governo nas ruas de Teerã.

  • Kamran Jebreili/AP

    Velas são acesas diante de uma imagem de Neda, que teria sido morta durante protesto no Irã

Eu não sei se a moça nas fotografias está destinada a se tornar um mártir desta revolução, como alguns já estão prevendo. O que eu sei, entretanto, é que há uma conexão entre a violência no Irã durante a última semana e o movimento de direitos das mulheres que lentamente ganhou força nos últimos anos no Irã.

Nos EUA, os comentadores mais autocentrados atribuíram a força das recentes demonstrações melancolicamente à eleição de Barack Obama. Outros querem dar crédito à retórica democrática do governo Bush. Outros ainda querem chamar isso de "revolução Twitter", ou "revolução Facebook", como se as novas tecnologias por si sós tivessem inspirado os protestos. Mas a verdade é que os grandes números de manifestantes resultaram de muitos anos de trabalho de organização executado por pequenos grupos de ativistas de direitos civis e, acima de tudo, grupos de mulheres, trabalhando em grande parte sem serem notadas e sem muita ajuda externa.

Desde 2006, a "campanha de um milhão de assinaturas" vem circulando uma petição impressa e on-line pedindo o fim das leis que discriminam as mulheres: direitos iguais para as mulheres no casamento, direitos iguais no divórcio, direitos iguais de herança e direitos iguais de testemunho em tribunal.

Morte de mulher iraniana provoca pesar e ultraje

Estava quente no carro, então a jovem mulher e seu professor de canto saíram para respirar o ar fresco em uma tranquila travessa não distante dos protestos antigoverno aos quais foram participar. Um tiro foi disparado e a mulher, Neda Agha-Soltan, caiu no chão. "Ele me queimou", ela disse antes de morrer

Apesar de ter sua sede fora do país, a Fundação Abdorrahman Boroumand, fundada por duas irmãs, traduz e publica on-line documentos de direitos humanos fundamentais; mantém também um banco de dados contendo nomes de milhares de vítimas da República Islâmica. Na última década, as iranianas participaram de greves estudantis e de corpo docente e em organizações cristãs, bahais e de outros grupos religiosos considerados "heréticos" pelo regime.

Nem Obama, nem Bush, nem Twitter, em outras palavras, mas anos de trabalho e esforço estão por trás da demonstração pública desafiadora -particularmente nos números de mulheres nas ruas. E sua presença faz diferença. Porque, no coração da ideologia da República Islâmica, está sua alegação de inspiração divina: o governo é legítimo e em particular sua dura repressão das mulheres é legítima porque deus decretou assim.

A clara rejeição desse credo por dezenas de milhares de mulheres, não apenas no último final de semana mas na última década, tem que enfraquecer a alegada invencibilidade da República Islâmica no Irã e no Oriente Médio. A elite política do regime sabe bem disso.

Não é à toa que os dois principais opositores ao presidente Mahmoud Ahmadinejad na eleição iraniana prometeram derrubar algumas das leis que discriminam contra as mulheres - tampouco foi por acidente que o principal opositor, Mir Hossein Moussavi, usou sua esposa, a cientista política e ex-reitora da universidade Zahra Rahnavard, em suas aparições de campanha e cartazes.

Os clérigos iranianos sabem que as mulheres impõem uma ameaça profunda a sua autoridade: como escreveu a ativista Ladan Boroumand, o regime não usaria formas brutais de repressão contra dissidentes se não os temessem profundamente. Ninguém teria matado uma jovem de jeans - uma manifestante pacífica e desarmada - a não ser que sua mera presença nas ruas impusesse uma terrível ameaça.

Talvez tenham sucesso. A violência em geral tem sucesso em intimidar as pessoas, ao menos no curto prazo. No longo prazo, contudo, os elos, as estruturas, as organizações e os grupos montados pelas iranianas, sem mencionar as fotografias da semana passada, vão continuar a comer a legitimidade do regime iraniano - e devemos tomar nota. Não consigo enumerar quantas vezes ouvi dizer nos últimos anos que as "questões das mulheres" são um assunto secundário no mundo islâmico. Seja na constituição afegã sob discussão ou no governo saudita, a linha padrão entre os comentadores sempre foi que outras coisas - estabilidade, segurança, petróleo - têm mais importância. Mas os regimes que reprimem os direitos humanos e civis de metade da sua população são inerentemente instáveis. Cedo ou tarde, terá que haver um contragolpe. No Irã, estamos vendo um.

Tradução: Deborah Weinberg

Anne Applebaum

Jornalista escreve sobre política norte-americana e assuntos internacionais.

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