Passando Palin a limpo

Anne Applebaum

Anne Applebaum

Apesar de morar num canto obscuro da Europa Oriental, agora reconheço que é impossível escapar da constatação de que, por escrever nesse espaço, pertenço à "grande mídia" [ou "mainstream media", em inglês].

Portanto, sinto-me na obrigação de responder à mensagem que Sarah Palin divulgou em 4 de julho no Facebook, na qual, entre outras coisas, ela atacou a "grande mídia" ["main stream (sic) media", como escreveu Palin] pela reação à sua renúncia inesperada ao governo do Alaska - uma reação que, segundo ela, "foi muito previsível, irônica, e como sempre, desconectada das vidas dos norte-americanos comuns que estão cansados da 'política de destruição pessoal'". "É triste", continuou Palin, "que Washington e a mídia nunca entenderão; é pelo país."

  • REUTERS/KTUU-TV

    Governadora Sarah Palin anuncia que vai renunciar, em 3 de julho, no Alaska

Vamos examinar essas comentários um a um.

A reação da mídia em relação à renúncia de Palin foi "previsível"? É difícil imaginar como ela poderia ter sido. Ninguém pode reagir de forma previsível a uma surpresa total, e de fato os comentários iniciais foram inconsistentes.

O que dizer de "irônica"? A maior parte das reações envolveram especulações desenfreadas. Será que ela estava deixando a política para sempre? Estava lançando sua campanha presidencial para 2012? Ou será que havia a ameaça de algum escândalo? Ninguém sabia, uma vez que Palin usou frases vagas e enigmáticas para justificar sua decisão - "porque é o certo", porque "sacrificar meu mandato ajuda mais o Alaska", ou porque ela tinha um "chamado maior". Mas qual é esse chamado maior? Se ela não nos diz, teremos de adivinhar - ou fazer piadas sobre ele.

A terceira acusação de Palin - de que a mídia está "desconectada das vidas dos norte-americanos comuns" - é mais séria, uma vez que significa que ela é "comum", enquanto as pessoas que formulam opiniões sobre ela não são. Dado o número de pessoas que trabalha para a "mídia" hoje em dia, nem todos podem ser fora do comum, e dado o fato de que a vida dela está bem longe de ser "comum", isso parece bem fora da realidade.

Todavia, eu admito que existe algo de verdade em seu quarto ponto, que o exército de escritores, apresentadores, bloggers e usuários do Twitter que hoje constituem a classe formadora de opiniões - e com quem ela também se comunica diretamente - permitiu-se entrar pesadamente na política de destruição pessoal desde que ela renunciou.
Apesar de que, devo observar, a reação dos comentaristas da mídia "alternativa" foi bem mais destrutiva pessoalmente do que entre o número cada vez menor, menos influente, e cada vez mais mal pago, de profissionais da grande mídia.

O Washington Post, por exemplo, publicou um relato acima de tudo direto da renúncia de Palin em 4 de julho, intitulado "Preocupação com a atenção da mídia e efeito na família incentivaram decisão de Palin".
Os comentários dos leitores do site do Post respondendo à sequência da matéria no domingo, entretanto, foram de maliciosos ("Palin está viciada em atenção e mostra todos os sinais de um viciado irrecuperável."; "Se ela não consegue dar conta do cargo de governadora do Alaska, porque deveríamos pensar que ela conseguiria lidar com um cargo mais exigente") a mais maliciosos ainda ("um bom destino para um lixo ruim"), até os impublicavelmente rudes.

Também havia defesas entre os comentários, mas Palin tem um pouco de
razão: nenhuma renúncia política ordinária inspiraria o verdadeiro tsunami de desprezo que se derramou no ciberespaço durante os últimos dias. Mas talvez a explicação para isso resida na parte final das declarações de Palin: de que "Washington e a mídia" não são capazes de entender sua decisão porque "é pelo país". Ela é uma patriota, em outras palavras - e todos que discordam dela não o são.

Durante os últimos nove meses, Palin evitou questões difíceis, preferindo falar à revista Runner's World a dar outra entrevista para Katie Couric. Ela atraiu sua família para os holofotes quando foi conveniente para ela (seu filho Trig, de colo, também apareceu na Runner's World) e ficou irritada quando a atenção da mídia se tornou demasiada. Ela evitou a razão e a lógica (para não mencionar a ortografia e a gramática), e mesmo assim reagiu com horror quando seus críticos foram irracionais e ilógicos em resposta.

Então, depois de tudo isso, ela presunçosamente afirma o direito de decidir quem é patriota e quem não é. Isso não diz respeito ao "país", em outras palavras, e sim à hipocrisia. E Sarah Palin tem isso de sobra.

Tradução: Eloise De Vylder

Anne Applebaum

Jornalista escreve sobre política norte-americana e assuntos internacionais.

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