Hillary Clinton no comando

Anne Applebaum

Anne Applebaum

"É hora de Barack Obama deixar Hillary Clinton tirar sua burca". A frase conseguiu, de forma brilhante, menosprezar nossa secretária de Estado sob a guisa de apoiá-la; ofendeu-a e defendeu-a ao mesmo tempo: não é de espantar que o insulto de Tina Brown lançado contra a Casa Branca há duas semanas continue a ecoar em Washington. Desde que Brown escreveu seu artigo no "Daily Beast" (cinicamente intitulado "A outra mulher de Obama"), até Clinton foi forçada a responder.

  • Saul Loeb/AFP
"Não presto muito atenção ao que é dito", disse a um entrevistador antes de partir para uma viagem à Ásia, durante a qual ela parecia deliberadamente cortejar a atenção da mídia e se importar muito com o que era dito. "Quebrei meu cotovelo, não minha laringe", salientou. E acrescentou, defensivamente, "estive profundamente envolvida na formulação e implementação de nossa política externa".

Deixe Hillary tirar sua burca. Sim, foi memorável. E refletiu a dificuldade de se compreender como, exatamente, é desenvolvida a política externa deste país. Se o presidente Obama estivesse realmente sentado na Casa Branca, fazendo planos com seu círculo mais próximo, sonhando com estratagemas diabólicos, enviando instruções detalhadas para Clinton, ao vice-presidente Joe Biden e ao diretor da CIA -emitindo burcas metafóricas- então ao menos acharíamos as coisas mais fáceis de analisar. Mas é assim que se faz política externa na Coreia do Norte, não nos Estados Unidos.

O fato é que o cargo de secretária de Estado é um papel extremamente mal definido. Clinton pode se relacionar com o mundo da forma que desejar. Pode visitar locais, escrever e falar o que quiser, sabendo plenamente que todos vão ouvir cada uma de suas palavras. Ela pode fazer comícios nos países que visita, como fez. Ela também concedeu entrevistas à televisão, tanto nos EUA quanto no exterior. Presume-se que ela consulte o presidente antes de fazer discursos importantes ou em questões chave, mas aparte isso, ela estabelece seu programa.

Em outras palavras, não apenas ela não foi forçada ao silêncio, mas possui um número extraordinário de formas de estabelecer suas prioridades, e o fez em diversas ocasiões. Ela criou certo reboliço em fevereiro, declarando que os debates de direitos humanos na China não eram muito importantes, porque "já é sabido o que eles vão dizer". Recentemente, esforçou-se para falar de direitos humanos e sobre sua importância crucial para os americanos. Na semana passada, na Ásia, causou confusão discutindo "um escudo de defesa" que os EUA poderiam teoricamente criar para proteger o Oriente Médio, caso o Irã conseguisse produzir armas nucleares. Desde então, ela -e outros- voltaram atrás: deixando de lado as implicações para a política nuclear iraniana, seus comentários certamente surpreenderam outros membros do governo que vêm dizendo às pessoas que os programas de defesa de mísseis estão suspensos.

Clinton não é a única que tem o poder de fazer política no momento em que fala, é claro. Biden também tem esse poder e ele também o usa ao máximo. Após recente viagem à Ucrânia e Geórgia, por exemplo, ele descreveu a economia russa como "murchando" e sua população como "encolhendo". Apesar de nenhuma das declarações serem exatamente inverdades, a própria Clinton sentiu-se obrigada a publicamente reassegurar os russos que Washington ainda vê seu país como uma "grande potência". Isso nos faz pensar o que os russos pensam disso tudo.

Meu ponto não é que os EUA devem ter uma política externa perfeitamente unificada e clara, do tipo que só pode ocorrer em ditaduras. Meu ponto é que cabe sobretudo à Clinton, não a Obama determinar que tipo de secretária de Estado ela será. E apesar de ela poder eleger suas questões e seus grandes momentos, até agora praticamente só chegou às manchetes por acidente. Seu recente discurso no Conselho de Relações Exteriores, que seria uma importante declaração política, foi insosso e previsível. Tudo que sabemos de suas opiniões oficiais sobre a Rússia pode ser resumido pela expressão insípida de Biden "vamos apertar o botão de reset". Ela envolveu-se em divertidas idas e vindas com os norte-coreanos -dou a ela notas altas por deixá-los irritados o suficiente para lançarem insultos ("ela parece... uma aposentada indo às compras")- mas não sabemos ainda como ela acha que o problema será resolvido.

Não tenho certeza se Clinton, ou qualquer secretário de Estado, precisa ter uma "teoria" ampla para explicar suas opiniões. Mas cabe a ela nos dizer o que acha que é importante e por quê. Se ainda não o fez, não é culpa do presidente.

Tradução: Deborah Weinberg

Anne Applebaum

Jornalista escreve sobre política norte-americana e assuntos internacionais.

UOL Cursos Online

Todos os cursos