O poder curativo do death metal

Anne Applebaum

Anne Applebaum

Há dois anos, alguém telefonou para Arthur Bloom e fez um pedido incomum: um soldado que fora gravemente ferido - um ex-baterista - queria voltar a tocar música. O problema era que ele tinha perdido uma perna no Iraque e não podia mais usar a sua antiga bateria. Bloom teve alguma ideia para ajuda-lo?

Sim. Bloom é um pianista que teve treinamento clássico e que é capaz de fazer mixagens com música rap, um compositor cujo trabalho foi apresentado pela Orquestra de Câmara de Israel, pela Def Jam Records e por tudo o que existe entre esses dois extremos. Futucar instrumentos musicais é o tipo de coisa que ele faz por diversão. Bloom foi ao Centro Médico do Exército Walter Reed, conheceu o baterista e criou uma bateria. Depois ele retornou diversas vezes, até que finalmente elaborou um programa, o Musicorps, criado para ensinar músicas a soldados portadores de deficiência física. Não foi apenas a vontade de "ajudar os ex-combatentes" que atraiu Bloom. Ele sentiu-se atraído também pelo desafio ao ouvir falar daquilo que um dos seus pupilos descreveu memoravelmente como sendo "o poder curativo do death metal".

Conforme esta frase dá a entender, o projeto de Bloom não consiste em terapia musical padrão. Ao contrário, após trabalhar com alguns pacientes do Walter Reed, ele percebeu que uma pessoa gravemente ferida não necessita apenas de algumas lições de violão ou de sons confortantes, mas sim daquilo que ele chama de música "real": treinamento sério, individual e personalizado, colaboração constante, instrutores profissionais capazes de dar aos seus parceiros musicais uma sensação de que existe um objetivo e de que há um progresso. Ao procurar colocar em prática essa ideia, ele persuadiu doadores a lhe fornecerem instrumentos, conseguiu que Steve Jobs doasse computadores e criou aquilo que parece um pequeno estúdio de gravação em uma das áreas residenciais do Walter Reed. Bloom passou a frequentar a casa, pronto para ensinar, praticar ou produzir música original com os veteranos - ou, caso fosse necessário, reescrever uma peça musical para piano de forma que um veterano de um braço só pudesse tocá-la com a sua mão artificial.

O resultado? Bem, existem alas residenciais no Walter Reed nas quais jovens deprimidos ficam parados nos seus quartos olhando para as paredes. E há uma sessão musical. Em uma delas, que eu presenciei, um jovem soldado com uma perna artificial, cheio de ferimentos provocados por estilhaços e sem nenhum treinamento musical anterior praticou complexos toques de guitarra ao ritmo de uma bateria eletrônica. Um guitarrista visitante aumentou cada vez mais a velocidade da batida, obrigando o soldado a tocar com rapidez sempre maior, até que todos explodiram em gargalhadas. Enquanto isso, um outro soldado, também com uma perna artificial, brincava com a letra do seu rap. Ele espera que uma das suas músicas, mixada e gravada no Walter Reed (a letra fala sobre ser explodido no Iraque), seja transmitida por uma estação de rádio.

Foi uma cena alegre, mas foi mais do que isso também. Muitos dos soldados do Walter Reed tiveram algum tipo de dano cerebral devido às explosões que arrancaram seus braços ou pernas. O médico Allen Brown, diretor de pesquisa cerebral e reabilitação na Clínica Mayo - e assessor do Musicorps - sugere que, devido ao fato de o processo de aprender a tocar música exigir o uso de várias partes diferentes do cérebro, o programa pode ajudar o órgão a recuperar-se, a fim de compensar os sérios danos sofridos. Atualmente Brown está trabalhando com Bloom para descobrir uma maneira de "avaliar clinicamente esse processo", até para que ele possa ser reproduzido em outros locais. Até o momento, mais de dez veteranos foram ajudados pelo Musicorps, e outras dezenas querem participar. Outros milhares poderiam se beneficiar disso. A notícia está se espalhando - na semana passada o cantor de música country John Rich visitou as instalações. Porém, nada que envolva músicos profissionais é capaz de funcionar à base de energia voluntária para sempre.

O projeto é extraordinário por si próprio - vejam o website do Musicorps para maiores detalhes -, mas ele tem uma série de implicações. Na primavera de 2007, o congresso debruçou-se aflito sobre o destino dos soldados feridos no Walter Reed, após uma investigação feita pelo "Washington Post" nos prédios mal cuidados e da burocracia ainda mais precária do principal hospital militar do país. A pintura nova e os serviços melhores que resultaram daquele escândalo são apenas o início do que precisa ser feito.

Na verdade, há muito tempo não havia tantos norte-americanos feridos necessitando de cuidados, e nem as nossas forças armadas nem o nosso governo tem talento para inventar programas de recuperação personalizados como o Musicorps. Empresários como Bloom são capazes de apresentar novas soluções; a questão é saber se o nosso sistema de saúde e as nossas organizações filantrópicas tornaram-se demasiadamente ossificadas para apoiá-las. Da sua maneira específica, o destino do programa de Bloom poderá ser um indício do que está por vir: nós poderemos sair do Iraque ou do Afeganistão, mas será que estamos preparados para cuidar pelas próximas décadas dos homens e mulheres feridos nesses países?

Tradução: UOL

Anne Applebaum

Jornalista escreve sobre política norte-americana e assuntos internacionais.

UOL Cursos Online

Todos os cursos