Não importa quem vencerá a eleição afegã

Anne Applebaum

Anne Applebaum

O Taleban não suavizou palavras nos panfletos que distribuiu pelo sul do Afeganistão no último fim de semana. Em uma das suas mensagens, os seus integrantes ameaçaram cortar o nariz e as orelhas de quem ousar votar na eleição presidencial de quinta-feira (20). Um outro panfleto adverte que quem estiver com os dedos manchados de tinta - um sinal de que votou - também correrá o risco de ficar desfigurado. Um terceiro afirma que "moradores respeitáveis" devem pensar duas vezes antes de entrarem no espaço reservado às urnas de votação, já que correrão o risco de tornarem-se "vítimas das nossas operações". Em outras palavras, "não vote, ou nós o mandaremos pelos ares".

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Foi uma mensagem sinistra, mas de certa forma muito útil. Às vezes, quando se observa muito tempo o Afeganistão, a única coisa que se enxerga são redes de complexidade: centenas de grupos étnicos; dezenas de línguas; clãs políticos atraídos para diferentes direções pela corrupção, pelas drogas e por bilhões de dólares de auxílio ocidental. Como resultado, até mesmo as pessoas que estão lá há muito tempo têm dificuldade para definir contra quem exatamente nós estamos lutando.

O Taleban é às vezes descrito como uma força ideológica, às vezes como uma coalizão étnica meio indefinida e, outras vezes, como um bando de
mercenários: homens que lutam por não terem nada mais o que fazer. Mas, talvez, com esta eleição, nós possamos agora começar a usar uma definição mais precisa: o Taleban é um conjunto de pessoas que desejam explodir os centros de votação.

A ameaça é também útil em um outro sentido: ela nos lembra daquilo pelo qual estamos lutando - e não me refiro à "democracia" como tal. Afinal, nós não estamos tentando criar uma espécie de idílio jeffersoniano no coração montanhoso da Ásia Central, e sim, simplesmente, um governo afegão que seja reconhecido como legítimo pela maioria dos afegãos - um governo que possa, portanto, impedir que o país volte a ser um paraíso para a criação de campos de treinamento terroristas.

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Se isto fosse aceitável para todas as facções, nós poderíamos supostamente cogitar ajudar os afegãos a restaurar a monarquia. Aliás, se os afegãos estivessem dispostos a aceitar um líder fantoche designado pelos norte-americanos, creio que nós também poderíamos cogitar tal possibilidade neste momento. Mas não há tal possibilidade, e eles não aceitariam isso. O que significa que eleições democráticas - com a maioria do apoio dos afegãos - constituem-se na única forma de estabelecer qualquer legitimidade de um governo afegão. Não é que estejamos estabelecendo um padrão "muito elevado" ao realizarmos eleições no Afeganistão. O que ocorre é que não temos nada de melhor a oferecer.

E, sem dúvida, é por esse motivo que o Taleban está tentando assustar os eleitores do Afeganistão. Eles não serão capazes de impedir totalmente a eleição, e tampouco conseguirão fechar todas os centros de votação. Mas o objetivo deles não é esse: a sua meta é fazer com que as eleições pareçam ilegítimas, de forma que as dúvidas quanto ao direito do presidente de governar persigam o vencedor durante todo o seu período no poder. Se forem capazes de reduzir drasticamente a participação dos eleitores na região sul do país, se puderem intimidar as mulheres e impedi-las completamente de votar, se puderem criar dúvidas quanto à transparência da contagem de votos e se conseguirem, portanto, convencer os afegãos de que a eleição foi inconclusiva, os militantes do Taleban terão conseguido um grande feito.

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Sem dúvida, quem quer que vença enfrentará problemas. Hamid Karzai, o atual presidente, tem muitos detratores (que o acusam de corrupção) e uns poucos admiradores (que acham que ele é um conciliador). Ashraf Ghani, um ex-ministro das Finanças, é um economista brilhante mas está um pouco distanciado dos afegãos comuns. Abdullah Abdullah, ex-ministro das Relações Exteriores, Ramazan Bashardost, ex-ministro do Planejamento e, de fato, todos os 41 candidatos têm os seus prós e contras, mas a questão não é esta. O fato é que não importa quem vença. O que importa é como o ganhador vencerá, e que a sua vitória seja aceita pela maioria dos afegãos.

As tropas dos Estados Unidos e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) que estarão guardando os centros de votação nesta semana são fundamentais para o resultado. E também cruciais são as iniciativas da Rádio Afeganistão Livre, que co-patrocinou o primeiro debate presidencial televisado e ao vivo do país nesta semana (o diretor da estação de rádio, Akbar Ayazi, descreveu o processo de persuasão dos candidatos a participar como tão difícil que "Depois disso eu provavelmente conseguiria até levar pessoas até Marte").

Porém, tudo empalidece diante da importância daquilo que faremos depois. A nossa política - a política ocidental para o mundo, a política da Organização das Nações Unidas (ONU) - precisa ser a de endossar e apoiar qualquer candidato que vença a eleição, dando a ele uma maior credibilidade e enfraquecendo ainda mais o Taleban, que se opôs à eleição. Devemos fazer tudo o que pudermos (o que não é muito, conforme
percebi) para encorajar os vizinhos do Afeganistão - Irã, Rússia, Paquistão - a fazerem o mesmo.

E se, por algum motivo, não surgir um presidente legítimo? Neste caso as teias emaranhadas mais uma vez se desdobrarão, os clãs, as tribos e os mercenários pagos começarão a escolher lados, as pessoas que explodem centros de votação terão ganhado credibilidade - e nós teremos que avaliar bastante se deveremos continuar no Afeganistão.

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Tradução: UOL

Anne Applebaum

Jornalista escreve sobre política norte-americana e assuntos internacionais.

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