Do que o Irã está com medo?

Anne Applebaum

Anne Applebaum

É estranho, mas às vezes eu poderia jurar que existem dois Irãs. Por um lado, há o Irã da questão nuclear, o Irã analisado pelos especialistas em segurança, o Irã coberto pelo gabinete de imprensa da Casa Branca.

Irã é alertado sobre fraude nuclear

Esse é o Irã que foi notícia na semana passada, quando o presidente Barack Obama revelou a existência de mais um reator nuclear secreto iraniano, o Irã que será julgado pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) em 1º de outubro.

Ao mesmo tempo, existe um outro Irã - que parece ser um país completamente diferente. Esse outro país é o Irã do movimento democrático, o Irã analisado pelos ativistas de direitos humanos, o Irã coberto por aquele tipo de jornalista que tira fotos clandestinas com um telefone celular. Esse é o Irã que foi notícia na semana passada, quando os manifestantes transformaram uma passeata anti-Israel, controlada pelo governo, em uma demonstração espontânea contra as autoridades governamentais.

As pessoas que preocupam-se com esse segundo Irã raramente estão interessadas no primeiro país - e vice-versa. Os dois grupos parecem às vezes quase antagonistas. Quando as manifestações explodiram no Irã nas eleições de 12 de junho, por exemplo, havia muita gente bem intencionada que pediu ao presidente dos Estados Unidos que distanciasse-se tanto das manifestações quanto dos manifestantes, alegando que tal envolvimento poderia afetar a sua capacidade de lidar com a questão nuclear. De fato, essa parecia ser a escolha apropriada para Obama, um homem altamente racional, que nitidamente não gosta de confusão, balbúrdia e explosões emotivas. Ao mesmo tempo, a Casa Branca fez uma escolha: ela lidaria com o Irã descrito pelos especialistas em segurança e deixaria o outro Irã resolver sozinho o seu problema. As questões de direitos humanos iranianas, a democracia iraniana - tudo isso são assuntos domésticos, concluíram os assessores do presidente. E eles repetiram a sua oferta para reunirem-se com os líderes iranianos.

É claro que essa iniciativa não teve resultados, porque o Irã não é dois países. Só existe um Irã. E as pessoas que tomam decisões sobre o programa nuclear do Irã são as mesmas que ordenam a prisão, a tortura e o assassinato de dissidentes. De fato, pode-se aprender muita coisa sobre como esses governantes iranianos comportar-se-ão no exterior ao observar-se o comportamento deles dentro do próprio Irã. Por exemplo, é improvável que um regime que descreve pública e repetidamente os seus oponentes como palhaços norte-americanos e espiões britânicos mude de tom e coopere com os Estados Unidos ou o Reino Unido. Ao mesmo tempo, um regime sob imensa pressão política e que está perdendo legitimidade não encontra-se em uma posição favorável para fazer qualquer avanço diplomático e, portanto, é improvável que tão cedo ele acabe com o seu programa nuclear.

Se esta situação parece sombria, há entretanto motivo para esperança.

Manifestantes estendem fita verde contra presidente reeleito do Irã Ahmadinejad

Isso porque, a observação de que o Irã é um único país também sugere que o Ocidente conta com algumas ferramentas de política externa naquele país que ainda não se tentou usar seriamente. Muitos especialistas em segurança observaram novamente nos últimos dias que nós não temos muitas boas opções assim que declararmos oficialmente que o Irã pretende fabricar uma bomba nuclear. Existem as sanções, que provavelmente não surtirão efeito; há os bombardeios, que poderão não atingir todas as instalações nucleares iranianas, já que muitas delas parecem estar secretamente escondidas dentro de montanhas, e há a guerra, que seria uma catástrofe.

Pouquíssimos especialistas em segurança observam que existe uma outra opção. Afinal de contas, do que é que os governantes do Irã realmente têm medo? Eu apostaria que não é de sanções, e pode não ser também de um bombardeio. Um boicote econômico poderia, afinal, ser contornado, com o auxílio da Venezuela e talvez da máfia russa, e um ataque contra o solo iraniano poderia ajudar o regime a consolidar novamente o seu poder.

Contrastando com isso, uma campanha de direitos humanos contínua e bem financiada poderia ter perspectivas realmente incríveis de sucesso. E se nós disséssemos ao regime iraniano que a sua insistência em buscar armas nucleares nos obriga a aumentarmos o financiamento de grupos de dissidentes no exílio, a contrabandear dinheiro para o país, a bombardear o éter com programas de televisão contrários ao regime e, acima de tudo, a publicar amplamente a miríade de crimes da República Islâmica do Irã? E se Obama exibisse uma foto de Neda, a jovem morta por autoridades iranianas, na sua próxima entrevista coletiva à imprensa? E se ele fizesse isso em todas as coletivas à imprensa? Eu aposto que isso enervaria o presidente Mahmoud Ahmadinejad e até mesmo o líder supremo bem mais do que a perda da importação de alguma máquina alemã ou de tomates holandeses.

Sei que muita gente desprezará esta sugestão e argumentará, conforme fez o governo Obama neste verão, que um enfoque agressivo nas violações maciças de direitos humanos no Irã permitiria que o regime denunciasse a "interferência estrangeira" e atacasse os seus oponentes, acusando-os de serem espiões estrangeiros. Mas, e daí? Eles já fazem isso. Ao se considerar o potencial para um desastre que paira sobre todas as outras opções, nós certamente não temos nada a perder se tentarmos.

Tradução: UOL

Anne Applebaum

Jornalista escreve sobre política norte-americana e assuntos internacionais.

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