Será que o presidente da Europa será um político dotado ou um burocrata que faz concessões?

Anne Applebaum

Anne Applebaum

"Eu estou aqui porque tenho um voto e, basicamente, me disseram o que fazer com ele", disse um irlandês para o repórter. "Graças a Deus eles vão calar a boca agora", disse um aposentado de Dublin para um jornal alemão. Ambos tinham acabado de votar "sim" no referendo irlandês de sexta-feira para o Tratado de Lisboa, removendo assim um dos últimos obstáculos restantes para a ratificação de um documento que criará, entre outras coisas, um presidente e um ministro das relações exteriores da Europa.
  • Ben Stansall/AFP

    Palavra "mentira" cobre placa a favor do "sim" no referendo sobre o Tratado de Lisboa, em Dublin

Ambos tinham votado "não" no primeiro referendo no ano passado, quando o tratado não foi aprovado. Ambos mudaram de ideia porque ficaram cansados de ouvir os políticos pedirem interminavelmente para que o fizessem. Alguns também sentiram que durante a pior recessão na memória recente, eles podem vir a precisar da ajuda da Europa.

Não muitos parecem ter sido inspirados pelos ideais elevados e aspirações sublimes daquele que às vezes é chamado de "projeto europeu". Apesar de impressionantes dois terços dos irlandeses terem votado pelo "sim", não havia muito entusiasmo visível ou audível. Alguns poucos políticos na Irlanda e pelo continente saudaram o referendo como uma "grande vitória para a Europa", mas ninguém acreditou neles. E assim a Europa deu outro passo trôpego na direção da criação histórica de um aparato unificado de política externa, se queixando amargamente durante todo o caminho.

Isso não é ruim: se a Europa deve ter um aparato de política externa, é importante que ninguém tenha muitas ilusões a respeito. Quando o referendo fracassou no ano passado, eu escrevi que era melhor, já que a política externa "europeia" sempre foi mais bem-sucedida quando representava os desejos autênticos dos governos nacionais de pelo menos dois ou três grandes países, mais vários pequenos, e sempre foi mais desastrosa quando executada por burocratas em Bruxelas, Bélgica, que não representam ninguém em particular. Eu hesitei em usar a expressão manchada "coalizão dos dispostos", mas ela funciona tão bem na diplomacia quanto nos conflitos militares.

Ainda assim, como não sinto vontade de reclamar do inevitável nesta semana, e como imagino que realmente haverá um presidente europeu e um ministro das relações exteriores europeu no futuro próximo, vale a pena gastar um minuto ou dois contemplando o que isso significaria. Claramente, o verdadeiro teste sobre se os países mais poderosos da Europa estão levando este novo tratado a sério não foi o referendo irlandês. A questão sobre se o recalcitrante presidente tcheco finalmente será convencido a assiná-lo também é irrelevante. (E se ele assinar, certamente não representará um "triunfo do ideal europeu", independente do que digam em Bruxelas.)

Mas observe atentamente, ao longo das próximas semanas e meses, para ver quem será selecionado para preencher estes cargos e, mais importante, como serão selecionados. Tradicionalmente, os líderes de instituições multilaterais são escolhidos por um processo de eliminação -a pessoa que é a menos interessante, que tenha menos opinião e que seja menos influente fica com o cargo, precisamente porque ninguém faz objeção. Mas esta não é a forma como o presidente ou primeiro-ministro de um país é escolhido. Ele consegue o cargo porque convenceu o eleitorado de que é melhor do que os demais. Eu não estou dizendo que a democracia sempre produz os líderes mais dotados, mas frequentemente produz políticos que estão dispostos a defender com força algumas coisas e a lutar com força contra outras. Por sua vez, as pessoas acabam frequentemente comandando as instituições multilaterais -e não apenas as europeias- porque não estão dispostas a discutir a respeito de nada.

Aqui, então, está uma forma de avaliar o Tratado de Lisboa: se agora realmente há uma coalizão dos dispostos a favor de uma política europeia comum, então haverá apoio para a seleção de líderes europeus fortes e de opinião. A Europa então terá, nas palavras imortais de Henry Kissinger, um telefone para o qual ligar quando os Estados Unidos (ou a Rússia, ou a China) quiserem conversar. E se não houver essa coalizão? Então não se ouvirá muito a respeito do presidente ou do ministro das relações exteriores da Europa de novo, e também não importará.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Anne Applebaum

Jornalista escreve sobre política norte-americana e assuntos internacionais.

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