Anne Applebaum: Será o fim da Otan?

Anne Applebaum

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"Este é um momento solene para esta Câmara e nosso país", disse Gordon Brown, o primeiro-ministro do Reino Unido, ao discursar na Câmara dos Comuns na semana passada. Um silêncio tomou conta do ambiente e, segundo um cronista parlamentar, os membros do Parlamento "cessaram a agitação, algo realmente raro na Câmara dos Comuns". Brown então começou a ler a lista de nomes: os 37 soldados britânicos que morreram no Afeganistão ao longo do verão.

Uma semana antes, uma cena semelhante ocorreu do outro lado do canal. Em Paris, um soldado ferido no Afeganistão no verão morreu no hospital. O primeiro-ministro francês, François Fillon, prestou homenagem ao homem e falou da "coragem de nossos soldados, sua devoção e seu profissionalismo", que ele disse merecer o reconhecimento da "nação". Nos Estados Unidos, enquanto isso, a "CNN" exibia uma reportagem sobre uma mãe americana que voltou para casa com o corpo de seu filho, que morreu no Afeganistão. Ele morreu naquela que foi descrita como "a batalha mais mortífera das tropas americanas no Afeganistão desde julho de 2008".

Quando soldados poloneses morrem, quando soldados holandeses morrem ou quando soldados alemães morrem, as histórias frequentemente são as mesmas. Os políticos, e frequentemente a mídia nacional, saúdam o heroísmo deles e expressam o agradecimento da nação. Canções patrióticas são tocadas nos funerais, que às vezes são exibidos no noticiário. Geralmente um número é mencionado: os 221 soldados britânicos que morreram no Afeganistão desde 2001, os 804 americanos, os 131 canadenses, os 36 franceses, os 34 alemães, os 21 holandeses, os 22 italianos, os 26 espanhóis, os 15 poloneses e outros.

Às vezes também ocorre uma reação política. Nos últimos dias, Brown tem sido atacado por um de seus adversários políticos porque os soldados britânicos estão "lutando e morrendo por um governo afegão que é profundamente corrupto". O presidente Nicolas Sarkozy também foi forçado a declarar que apesar dos soldados franceses permanecerem no momento no Afeganistão, "nenhum adicional" será enviado no futuro. O aumento recente das baixas levou a uma intensificação do debate na Holanda. E, é claro, a discussão americana prossegue.

Apenas muito, muito raramente, as baixas de um país chegam à mídia, aos debates políticos ou aos discursos de primeiros-ministros de outro país. Há uma coalizão internacional atuando no Afeganistão desde 2001. O Otan está encarregada dessa coalizão desde 2003. Mas ao ler a imprensa britânica, poderia-se pensar que os britânicos estão lá quase sozinhos, travando uma guerra na qual não possuem nenhum interesse nacional. O mesmo vale para a França e para a Holanda. A imprensa americana dificilmente nota a participação de outros países, apesar de alguns - como o Reino Unido e Canadá - sofrerem mais baixas do que os Estados Unidos em proporção ao tamanho de seus contingentes em solo.

Em quase nenhum lugar há a sensação de que se trata de uma operação internacional, de que há metas internacionais em jogo ou que os soldados em terra representam algo além de suas bandeiras e forças armadas nacionais: a maioria dos críticos europeus da guerra no Afeganistão quer saber por que seus garotos estão lutando "pelos americanos", não pela Otan. A maioria dos críticos americanos desdenha a contribuição europeia como sendo completamente inútil ou a ignora totalmente.

Como Jackson Diehl apontou no "The Washington Post", o debate central a respeito da política para o Afeganistão está transcorrendo em Washington sem qualquer contribuição óbvia de ninguém mais. Mas eu não vou culpar o governo americano sozinho por isto: não é como se a Europa tivesse apresentado um plano diferente -e certamente houve um momento, no início deste governo, em que isso teria sido muito bem-vindo.

O fato é que a ideia do "Ocidente" está desaparecendo há muito tempo em ambos os lados do Atlântico, como inúmeros seminários sobre "o futuro da aliança" têm observado ao longo da última década. Mas as consequências agora estão conosco: a Otan, apesar de estar travando sua primeira guerra desde sua fundação, não inspira ninguém. Os membros da Otan não sentem fidelidade para com a organização ou para com uns aos outros. Em seu continente de origem, a Otan realiza pouco planejamento militar contingencial, preferindo realizar encontros de cúpula.

Acima de tudo, não há um líder reconhecido da aliança que esteja disposto ou seja capaz de participar dos debates nacionais dos vários países membros, para argumentar a favor da missão afegã ou de qualquer outra. Em teoria, o presidente Barack Obama poderia fazer isso, mas acho que a ideia não o enche de inspiração.

Nada disso pode importar muito no Afeganistão, já que os resultados das atuais deliberações podem muito bem ser alguma versão do status quo. Mas da próxima vez que for necessária, eu duvido que a Otan estará presente.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Anne Applebaum

Jornalista escreve sobre política norte-americana e assuntos internacionais.

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