A revolução silenciosa de Angela Merkel

Anne Applebaum

Anne Applebaum

Você sabia que houve eleições na Alemanha no final de setembro? Você se deu conta que os socialistas alemães foram solidamente derrotados e que há agora um novo governo na Alemanha? Não? Então dê crédito - tanto pela vitória quanto pelo fato de você não ter ouvido falar nela - à chanceler alemã Angela Merkel.

Mesmo que você soubesse disso tudo, poderia celebrar de qualquer forma, porque a conquista de Merkel é muito maior do que parece. Ela tem fala mansa, temperamento equânime, é pragmática e francamente sem graça, tendo comparado seu programa econômico ao de uma "dona de casa da Bavária". Suas campanhas eleitorais são as mais maçantes que se possa imaginar.
  • Christof Stache/AP

    Angela Merkel durante a campanha eleitoral



Apesar da vitória decisiva, ela humildemente declarou que respeitava aqueles que não votaram nela. Para marcar este ponto, celebrou seu novo mandato como chanceler com um almoço de sopa de batatas e salsicha, um evento que o "Financial Times" chamou de "tão discreto que parecia mais um rito de expiação do que uma celebração". Pode-se dizer que ela é o contrário de Obama: carisma zero, glamour zero, calças bege e um marido que raramente aparece em público.

Ainda assim, Merkel agora é líder da fato da Europa. No Reino Unido, o Partido Trabalhista de Gordon Brown está se auto-imolando. Na França, o déficit de atenção do presidente Sarkozy o leva de um projeto ao outro, para irritação de todos. O primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi está sob interminável investigação, e todos os outros são pequenos demais ou estão preocupados demais para competir. Mesmo quando a União Europeia escolher seu novo presidente no final do ano, ele (e quase certamente será um ele) vai achar extremamente difícil fazer qualquer coisa que contradiga os desejos de Merkel, que regularmente supera as listas das mulheres mais poderosas do mundo.

De fato, quanto mais a observo, mais me convenço que sua feminilidade detém a chave de seu sucesso. Sob sua guarda, a Alemanha ficou mais poderosa, influente e dominante do que nunca. E não apenas ninguém reclamou como aplaudem e pedem mais. Se um parrudo Helmut Kohl Bull ou um exibido Gerhard Schroder estivessem governando a Alemanha, haveria ansiedade crescente e reclamações sobre o Quarto Reich - como houve na época da reunificação alemã, há 20 anos, quando Kohl ainda estava no cargo. Mas Merkel não provoca ciúmes ou competitividade entre os machos-alfa que dirigem os grandes países e não inspira medo entre os cidadãos dos menores.

Pelo contrário, a Alemanha tem até boas relações com a maior parte de seus vizinhos do Leste, muitos dos quais não costumam confiar nos alemães por questão de princípio. Isso acontece em parte porque ela tem a boa vontade de aceitar convites para fazer visitas e oferece palavras gentis de amizade e pedidos de desculpa pela Segunda Guerra. Depois, ela volta para casa e trabalha para tornar a Alemanha mais forte e mais dominante na região. E todo mundo sorri.

Isso não quer dizer que ela é uma chanceler inteiramente bem sucedida ou que cumpriu as expectativas de todos. Apesar de ter mantido a Alemanha em uma rota relativamente regular durante a atual recessão - entre outras coisas recusando-se a gastar o que o governo americano queria que ela gastasse- ela não foi tão rigorosa na reforma econômica quanto disse que seria, nem cumpriu sua promessa de política externa. No momento, ela é provavelmente a única capaz de unir os europeus por trás de uma política energética e de uma política russa comuns. Contudo, até agora, ela nem tentou.

Os fracassos de Merkel muitas vezes foram atribuídos ao fato de ela estar em uma "grande coalizão", um desses governos parlamentares europeus complicados, resultado de uma coalizão entre a esquerda socialista e a direita cristã democrática - algo como se a Casa Branca fosse dividida igualmente entre republicanos e democratas. Toda minúscula questão tinha que ser negociada entre os dois principais partidos, e cada passo na política externa ou interna, elaboradamente discutido. Como desde outubro seu parceiro na coalizão é outro partido de centro-direita, os Democratas Livres, e ela não tem mais desculpas. Talvez seja por isso que subitamente começou a falar sobre cortar impostos, o que a Alemanha considera genuinamente radical.

Se, nos próximos meses, ela quiser um papel maior e mais vistoso fora da Alemanha, provavelmente o conseguirá, apesar de eu não ter certeza que "grande e vistoso" seja seu estilo. É igualmente possível que ela assuma a política externa europeia - mas tão silenciosamente e educadamente que ninguém vai perceber.

Tradução: Deborah Weinberg

Anne Applebaum

Jornalista escreve sobre política norte-americana e assuntos internacionais.

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