Depois que o muro caiu

Anne Applebaum

Anne Applebaum

Faz algum tempo que eu venho querendo opinar sobre aquilo que vem me incomodando a respeito das comemorações intensas e totalmente inocentes do 20º aniversário da queda do Muro de Berlim. Não há nada de errado com a realização de dezenas de conferências, afinal, e eu sou completamente favorável aos diversos livros novos sobre o assunto. Em Washington, a chanceler alemã Angela Merkel falou perante uma plateia no Congresso dos Estados Unidos. Em Los Angeles, um muro foi construído e a seguir derrubado por "dignatários convidados" (embora, em respeito aos hábitos da população nativa, o horário do evento tenha sido transferido da tarde para a meia-noite, de forma a não perturbar o trânsito da cidade).
  • Arte UOL

    O muro de 155 km de extensão dividia Berlim em duas partes



Aqui em Berlim há uma quantidade enorme de conferências, livros e
dignatários: todas as pessoas importantes estão na cidade, de Mikhail Gorbachev a Hillary Clinton, e também há muitos trabalhos /kitsch/ em evidência. Uma comitê cultural de Berlim criou uma "longa fila de dominós gigantes" - pintados com desenhos em estilo graffiti - que será derrubada, simbolizando "o poder do povo para provocar mudanças". Em Berlim o trânsito não é um problema cósmico como em Los Angeles, de forma que o evento foi marcado para horários de trabalho.

Eu comemorei o aniversário no último domingo, o dia anterior aos grandes eventos, simplesmente fazendo algo que teria sido impossível em 8 de novembro de 1989: caminhei pela Unter den Linden - uma rua que eu visitei pela primeira vez em um dia gelado, quando ela era ainda um elemento central, escuro e deserto, de Berlim Oriental - e passei pela Portão de Brandenburg, que no passado ficava na faixa de terra de ninguém entre o leste e o oeste. Passei por pessoas que estavam sentadas em cafés, que almoçavam ou que olhavam as vitrines de lojas. E pensei em como tudo o que aconteceu foi um sucesso extraordinário, e quase inacreditável.

Esta opinião - de que as últimas duas décadas têm sido, segundo as palavras de um amigo, as "melhores na Europa Central nos últimos 300 anos" - não é universal. Pelo contrário, a maioria dos livros e conferências recentes tem se concentrado nos vários problemas não resolvidos, nos erros que foram cometidos e nos ressentimentos que ainda existem no antigo bloco oriental. A maioria dos novos trabalhos - na Alemanha, Polônia e Hungria, bem como nos Estados Unidos - tem se focado na persistência da pobreza na Europa Oriental, na percepção da indiferença ocidental e nos "muros invisíveis" que ainda separam as pessoas.

Mas como achávamos que seria a Europa Central 20 anos após o dia 9 de novembro de 1989? Posso garantir a vocês, tendo estado pessoalmente em Berlim, que ninguém fazia a menor ideia. Angela Merkel disse que achava ridículo sequer especular a respeito da possibilidade de uma Alemanha unida, de tão absurda que a ideia parecia ser - mesmo após a queda do muro. De fato, a ideia de uma expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) parecia tão estranha que quando as autoridades do novo governo democrático da Polônia a mencionaram pela primeira vez, os diplomatas dos Estados Unidos em Varsóvia disseram furiosos aos poloneses que a esquecessem.

Naquela época, a maioria das pessoas que fizeram previsões vislumbrou um futuro sombrio. O surgimento de um nacionalismo virulento e furioso foi previsto por mais de um especialista. Outros previram o aumento do antissemitismo e o crescimento do neonazismo. A Alemanha se transformaria no "Quarto Reich". Muita gente no Ocidente protestou, preventivamente, contra a "caça às bruxas" que poderia ser lançada contra os ex-comunistas. Agora que Lech Walesa é um símbolo da liberdade, ninguém se recorda de que o líder do sindicato polonês Solidariedade era visto como um potencial demagogo de direita.

Algumas coisas verdadeiramente terríveis ocorreram: na Iugoslávia houve uma guerra cruenta. Na Rússia, o revanchismo retornou. Ditadores autoritários governam várias das ex-repúblicas soviéticas. Mas o coração da Europa Central - Alemanha, Polônia, Hungria, Eslováquia, República Tcheca, os Estados Bálticos, Romênia e Bulgária - encontra-se pacífico e democrático. Além disso, os habitantes da Europa Central estão agora mais saudáveis, mais prósperos e mais integrados ao resto da Europa do que estiveram durante séculos.

Isso, então, é o o que eu creio que estava me incomodando quanto às
comemorações: uma quantidade excessiva delas aborda uma grande parte das últimas duas década como se houvesse uma conclusão prevista, focando-se naquilo que não aconteceu, e não no que aconteceu. Muitas delas não veem nada de extraordinário naquilo que se alcançou. Muitos de nós se esquecem de que há poucos precedentes para as duas últimas década.

"Glória foi estar vivo naquele amanhecer. Mas ser jovem foi o verdadeiro paraíso". Quando William Wordsworth redigiu estas palavras sobre a Revolução Francesa, o terror pós-revolucionário era uma memória recente, as guerras napoleônicas ainda estavam em andamento e o seu poema foi um comentário irônico a respeito da ingenuidade da juventude. Mas nós nos encontramos agora tão distantes dos acontecimentos de 1989 quanto Wordsworth estava de 1789, e aqui na Europa Central não há necessidade alguma de ironia. Glória foi estar vivo naquele amanhecer. Mas ser jovem foi o verdadeiro paraíso

Tradução: UOL



Anne Applebaum

Jornalista escreve sobre política norte-americana e assuntos internacionais.

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