Anne Applebaum: a cultura dos penetras

Anne Applebaum

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O alpinismo social é uma arte ancestral, tão antiga quanto a própria sociedade. A figura do impostor da alta sociedade - o aristocrata falso, aquele que se diz marquês, o "professor" sem diploma - é reconhecida em todas as épocas. Os alpinistas sociais e charlatães foram descritos inúmeras vezes na ficção. Pense no "rei" e no "duque" que enganaram Huckleberry Finn, ou em Madame Verdurin, que se esforça para ascender socialmente ao longo do romance "Em Busca do Tempo Perdido" de Marcel Proust - ou no personagem de Melanie Griffith em "Uma Secretária de Futuro".

Ao longo dos séculos, algumas sociedades têm sido mais suscetíveis a esse tipo de fraude do que outras. A Rússia de Catarina a Grande, por exemplo, certamente fervilhava com falsas duquesas inglesas e príncipes italianos: a São Petesburgo imperial era suficientemente ambiciosa na época para desejar a companhia de "verdadeiros" aristocratas europeus, mas a distância de Londres ou Nápoles dificultava a verificação dos seus "pedigrees". Também vêm à memória a Nova York de Edith Wharton, por razões similares: seus personagens são precisamente do tipo que acabaria casada com um recém-chegado aristocrata polonês de segunda classe que invariavelmente revelaria não ser aquilo que parece.
  • AFP

    Nada de novo O casal Michaele e Tareq Salahi entraram de penetras no jantar com o primeiro-ministro indiano na semana passada na Casa Branca. Assim como todos os charlatães e falsários ao longo dos séculos, eles conseguiram isso se vestindo como se fossem convidados



A este notável grupo de sociedades podemos agora acrescentar a Washington do século 21. Como a Rússia do século 18, trata-se um mundo de neófitos, uma sociedade cujos membros só recentemente "conseguiram" entrar no círculo mágico da elite e que não necessariamente conhecem bem uns aos outros. Como na Nova York do século 19, também trata-se de um mundo onde o que importa são as aparências. Você é convidado para uma festa - quer seja a festa de Hanukkah da Casa Branca ou um jantar de Estado - não só porque você é quem você é, mas por causa daquilo que representa, da roupa que você usa, do grupo étnico a que pertence.

Acima de tudo, é um mundo que parece oferecer riqueza e fama para os forasteiros que conseguem adentrá-lo. E foi em busca de ambos que Tareq e Michaele Salahi entraram de penetras no jantar com o primeiro-ministro indiano na semana passada na Casa Branca. Assim como todos os charlatães e falsários ao longo dos séculos, eles conseguiram isso se vestindo e agindo como se fossem convidados. Pela aparência, ele bem poderia ser de origem sul-asiática, o que parecia apropriado; e além do black tie, usava o que parecia ser, pelas fotos, uma medalha ou distintivo de Estado. Ela é uma loira atraente, recém-saída do cabeleireiro, e usava um sari - um caro sari vermelho.

Depois de brigar para entrar em eventos com o Príncipe Charles e Oprah Winfrey (Michaele se infiltrou até em festas de ex-alunas da torcida do Washington Redskins), eles sabiam como se comportar em meio à aristocracia contemporânea. Basta agir como se você pertencesse ao lugar: não fique olhando muito para as celebridades, não coma ou beba muito e puxe conversas leves com seus vizinhos sobre o conflito em Kashmir e o PIB da Índia. Como quase ninguém conhece ninguém nesse tipo de festa, você pode se dar bem.

Mas há diferenças entre os Salahi e, digamos, o conde Alessandro di Cagliostro, que se fazia passar por um "aristocrata espanhol" e se estabeleceu como um glamouroso "curandeiro" na São Petesburgo dos anos 1770 e ganhava a vida emprestando dinheiro de nobres ingênuos (e, talvez até mesmo, alugando sua mulher, a "Princesa di Santa Corce", para o Príncipe Potemkin). Os Salahis esperam ganhar dinheiro mais rápido - bem mais rápido. Faz menos de uma semana que eles penetraram na festa do presidente, e já estão pedindo um valor de seis dígitos para aparições exclusivas na TV, nas quais ou eles vão se declarar ofendidos, alegando que "acreditavam" que tinham sido convidados para a Casa Branca - ou vão se vangloriar de ter cometido o golpe de alpinismo social do século.

Eles também tiveram muito mais ajuda do que os farsantes de antigamente. Michaele chamou uma equipe de TV para filmar seus preparativos para a festa no salão de beleza Georgetown, portanto há material pronto para quem estiver disposto a pagar. Um relações públicas foi contratado e está preparado para negociar. Vários meios de comunicação "legítimos" estão prontos para entrar no jogo: de acordo com o Washington Post, um repórter da CBS já passou uma nota por debaixo da porta deles, oferecendo uma entrevista com Katie Couric. Depois virão os contratos para livros, os direitos para filmes, e - quem sabe? - talvez um "talk show" na TV. Posso até ver: "Famosos por Serem Famosos: Em Casa com os Salahis."

A menos, é claro, que eles encontrem o mesmo destino que seus predecessores. O conde espanhol Cagliostro eventualmente foi expulso de São Petesburgo depois que a imperatriz descobriu que ele não era nem conde, nem espanhol. O rei e o duque de "Huckleberry Finn" foram besuntados em alcatrão, cobertos com penas e levados para fora da cidade montados numa barra de ferro. Há um século, os Salahis, também seriam constrangidos, humilhados e finalmente banidos do mundo da elite no qual eles planejaram entrar. Mesmo agora, eles devem esperar, no mínimo, uma ordem de prisão por mentirem para o Serviço Secreto - a menos que as regras de educação da sociedade tenham mudado tanto que não existam mais nem regras.

Tradução: Eloise De Vylder

Anne Applebaum

Jornalista escreve sobre política norte-americana e assuntos internacionais.

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