O apocalipse não está próximo

Anne Applebaum

Anne Applebaum

Não há niilismo como o niilismo de crianças de 9 anos. "Por que deveria me importar?" o menino me perguntou quando se viu diante dos argumentos habituais para fazer sua lição de casa. "Quando estiver crescido, a calota de gelo polar terá derretido e todos terão se afogado."

Assistindo ao noticiário de Copenhague no último fim de semana, não era difícil entender de onde ele tirou essa ideia. Entre as dezenas de milhares de manifestantes do lado de fora do encontro de cúpula sobre a mudança climática, alguns carregavam relógios gigantes ajustados em 10 minutos para a meia-noite, indicando o fim iminente do mundo.

Conferência do Clima COP15

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Em outra parte, outros promoviam uma "ressurreição" do planeta Terra, representado simbolicamente por um grande balão murchando. Perto do centro de conferência, uma instalação composta por esqueletos com água até o joelho defendia um argumento semelhante, como as numerosas esculturas de gelo derretendo e uma melodramática simulação de morte por manifestantes usando macacões brancos, como fantasmas.

A polícia dinamarquesa também prendeu cerca de 1.000 pessoas no sábado por quebrarem janelas e incendiarem carros, juntamente com outras 200 - que usavam máscaras de gás e pareciam planejar fechar o porto da cidade no domingo. Todavia, a longo prazo, são os manifestantes pacíficos, aqueles que dizem que o fim está próximo, que têm a capacidade de causar o maior dano psicológico.

Eu preciso parar aqui e apontar que apoio entusiasticamente a energia renovável, acredito fortemente na imposição de um imposto sobre o carbono e estou convencida de que um mundo distante dos combustíveis fósseis resultaria em consequências geopolíticas altamente positivas, sem contar os benefícios ambientais. É verdade que não sou louca a respeito do processo de negociação climática de Kyoto, do qual a cúpula de Copenhague é o estágio mais recente. Mas fico ainda mais perturbada com o sentimento apocalíptico e os preconceitos anti-humanos do movimento sobre a mudança climática, alguns dos quais chegam a crianças com apenas 9 anos.

Há muitas declarações radicais sobre este credo. Nas infames palavras de um ecologista do Serviço Nacional de Parques, "nós nos tornamos uma praga para nós mesmos e para a Terra. (...) Até que o Homo sapiens decida regressar à natureza, alguns de nós só podem esperar pelo surgimento do vírus certo". Um dos fundadores da Pessoas pelo Tratamento Ético dos Animais também teria declarado que "os seres humanos cresceram como um câncer. Nós somos a maior peste na face da Terra". Mas é um erro pensar que esta é apenas a linguagem de uns poucos malucos à margem.

Veja, por exemplo, o Optimum Population Trust, uma organização importante que tem entre seus patronos o naturalista sir David Attenborough, a cientista Jane Goodall e professores de Cambridge e Stanford, que também faz campanha contra, bem, os seres humanos. Pedindo por "menos emissores, menos emissões", a organização oferece aos seus membros a chance de compensar a poluição que geram, apenas por existirem, por meio da compra de dispositivos de planejamento familiar em países pobres. Clique na Calculadora de Compensação Populacional para ver o que quero dizer: eles calculam que cada US$ 7 gasto em planejamento familiar gera uma tonelada a menos de emissões de carbono. Com um americano gera em média 20,60 toneladas de carbono por ano, custaria US$ 144,20 - US$ 576,80 para uma família de quatro pessoas - para comprar preservativos suficientes para impedir o nascimento de, digamos, 0,4 queniano.

A suposição por trás desse cálculo é profundamente negativa: os seres humanos não são nada mais além de máquinas para a produção de dióxido de carbono. E se levarmos essa suposição a sério, muitas outras coisas também passam a parecer diferentes. Certamente as armas de destruição em massa devem ser reconsideradas, assim como o vírus da gripe: ao reduzirem a população, eles também ajudam a reduzir as emissões. Logo, não deveriam ser encorajados?

Somados à firme convicção de que o fim do mundo está próximo, é possível ver como a lição de casa se torna sem sentido. Quanto às esperanças no futuro e fé na humanidade -esqueça a respeito. Mas já que estamos falando nisso, poderíamos também deixar de lado a reinvenção de nossas fontes de energia.

Pois apesar de ser verdadeiro que os seres humanos frequentemente são gananciosos, estúpidos e destrutivos, também é verdade que chegamos onde estamos, ao menos em parte, graças à criatividade, genialidade e talento humanos. A eletricidade é um milagre, uma invenção que literalmente trouxe luz e vida a milhões. Os sistemas de transporte e comunicação modernos não são menos extraordinários, ajudando a criar crescimento econômico onde a pobreza e a miséria eram a norma por séculos.

Todos eles dependem de combustíveis fósseis, mas não precisam: uma mudança profunda na natureza do consumo humano de energia pode ser conseguida -graças ao empreendedorismo que criou a Internet, da compaixão que está por trás dos avanços na medicina moderna e do raciocínio científico que enviou o homem ao espaço. Quanto ao niilismo e ódio pela humanidade, ele nos ensina nada, exceto desistir. E não devemos passar isso aos nosso filhos.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Anne Applebaum

Jornalista escreve sobre política norte-americana e assuntos internacionais.

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