O crepúsculo dos totalitaristas

Anne Applebaum

Anne Applebaum

Para identificar as "influências" que estariam atuando no mundo na época de seu nascimento, o autor Arthur Koestler certa vez traçou o que chamou de "horóscopo secular": ele leu uma cópia do "London Times" do dia seguinte ao seu nascimento - 6 de setembro de 1905 - e viu pogroms, greves industriais, "distúrbios em Kishinieff" e a guerra fracassada do império russo contra o Japão.

Segundo ele, aquelas notícias eram arautos dos eventos políticos que eventualmente formataram sua vida: o colapso dos impérios, a revolução russa, a ascensão de Hitler, o nascimento do liberalismo.

Agora que estamos chegando ao fim de uma década que parece estar Destinada a permanecer sem nome, gostaria de pegar emprestada essa idéia e traçar o horóscopo secular da década vindoura. Apesar de eu não ter a vantagem de olhar para trás, como fez Koestler, algumas histórias podem muito bem se tornar arautos dos eventos políticos que virão.

Este sendo o século 21, não vou começar pelo "London Times" e sim pela edição on-line do "Times of India", que vários dias atrás publicou uma história sobre o trem mais rápido do mundo. Nos EUA, este trem, que viaja a cerca de 400 km por hora, faria Washington-Nova York em menos de uma hora ou San Francisco-Los Angeles em uma hora e meia.

Evidentemente, é impossível - por razões políticas, financeiras e administrativas - imaginar tal trem nos EUA tão cedo. Em vez disso, o novo trem "deve funcionar como agente catalisador do desenvolvimento da China Central", pois foram os chineses que anunciaram a intenção de produzi-lo. Assim como os EUA construíram as auto-estradas interestaduais quando se tornaram uma potência econômica nos anos 50, a China deve construir sua rede de trens rápidos enquanto ascende à potência econômica da próxima década.

Em um ponto diverso do noticiário, outros regimes autoritários estão com dificuldades: os conflitos no Irã nesta semana são de longe os mais sérios desde aqueles que sucederam as eleições de 12 de junho. Dezenas de milhares de pessoas novamente foram às ruas, abertamente desafiaram as autoridades, combateram a polícia e provaram, mais uma vez, que a legitimidade "divina" do regime está em frangalhos.

Ao mesmo tempo, o jornal turco "Hurriyet" chamou minha atenção para outra parte da infra-estrutura chinesa que acontece de ser ruim para outros regimes autoritários: descreve o novo gasoduto, recém-inaugurado, entre o Turcomenistão e a China.

Como há muito a Rússia extrai suas fortunas de gás pagando preços baixos à Ásia Central e cobrando preços altos aos europeus, isso poderia - provavelmente, possivelmente - ser o início do fim do domínio da Gazprom e da Rússia sobre a Eurásia.

Finalmente, qualquer uma que assistiu as notícias durante o Natal, certamente acompanhou uma história bem estranha de um nigeriano que colocou explosivos em suas cuecas e tentou explodir um avião. O ataque, de fato, foi um fracasso, uma tentativa atrapalhada que foi impedida por outros passageiros. Se o atacante alega ser da Al Qaeda, isso reflete bastante mal na Al Qaeda.

Não é que o incidente não tenha sido sério - poderia ter terminado em uma tragédia horrível - apenas não parece uma conspiração bem organizada e com forte patrocínio, como 11 de Setembro definitivamente pareceu.

E o que essas manchetes nos dizem? Se eu tivesse que ler as folhas de chá e fazer uma previsão grandiosa, diria que, nos últimos dias dos anos 2000, o futuro não parece bom para todos os regimes autoritários.

Contudo, os sinais são muito positivos para um regime autoritário em particular: a China. Parcialmente porque os chineses, diferentemente dos iranianos e russos, continuam a gerar prosperidade e, na atual era, é a prosperidade, e não a ideologia, que mantém os regimes autoritários no poder.

Talvez, então, não estejamos embarcando em um novo crepúsculo do liberalismo, mas sim em uma era na qual a prosperidade, na forma de infra-estrutura assim como de consumo, se torna o foco da competição internacional e da política externa norte-americana.

Já estamos caminhando nesse sentido: a cúpula do clima de Copenhague fracassou, no final, porque os EUA e a China não conseguiram concordar em uma questão que afetava suas perspectivas de crescimento. Enquanto isso, o terrorismo islâmico fundamentalista, o foco da política externa norte-americana da última década, está caindo de status, tornando-se uma grande chateação.

Isso faz sentido, já que estávamos falando sobre a China e das possíveis consequências da prosperidade chinesa no início da última década (lembra da discussão atroz em maio de 2000 sobre dar à China o status de nação preferencial?) antes de começarmos a falar sobre o terrorismo islâmico.

Há algo confortante sobre a regularidade com a qual a China sempre volta ao centro das atenções internacionais, década após década - assim como a regularidade com a qual sempre somos distraídos por outra coisa.

Tradução: Deborah Weinberg

Anne Applebaum

Jornalista escreve sobre política norte-americana e assuntos internacionais.

UOL Cursos Online

Todos os cursos