Conheça a nova elite jihadista internacional

Anne Applebaum

Anne Applebaum

De alguma forma, ele fez o serviço secreto jordaniano pensar que era seu agente. Depois, fez a CIA pensar que também era seu agente. Então, enganou tanto jordanianos quanto americanos - seus "inimigos", disse ele à Al-Jazeera - fazendo-os acreditar que poderia encontrar os líderes da Al Qaeda. Ainda assim, a coisa mais intrigante sobre Humam Khalil Abu Mulal Al-Balawi - o suicida que matou oito pessoas na base da CIA no Afeganistão há duas semanas - é sua mulher, Defne Bayrak.

Jordaniano que atacou CIA queria vingança

"Meu marido era antiamericano; eu também sou." Foi isso que ela disse aos editores da edição turca da revista "Newsweek", na semana passada. Bayrak é uma jornalista turca de 31 anos e tradutora de turco-árabe que diz ter encontrado seu marido em um bate-papo da internet. Suas publicações incluem artigos para periódicos islâmicos assim como um livro chamado "Bin Laden: Che Guevara of the East" (Bin Laden: Che Guevara do Oriente). Diferentemente de outros em sua família, ela veste um "chador" preto, que na Turquia não é meramente uma roupa religiosa, mas também um símbolo político. Ela tampouco se deixa intimidar. "Tenho orgulho de meu marido. Ele executou uma grande operação nesta guerra. Espero que Alá aceite seu martírio, se ele se tornou um mártir", disse aos repórteres em Istambul.

Bayrak é um exemplo brilhante do que pode ser chamado de elite jihadista internacional: é educada, eloquente e tem conexões no mundo islâmico - Istambul, Turquia; Amã, Jordânia; Peshawar, Paquistão - ainda assim, não faz parte exatamente da economia global.

Ela compartilha esses traços não apenas com seu marido - médico e filho de jordanianos que falam inglês da classe média - mas também com outros que apareceram recentemente nos noticiários. Umar Farouk Abdulmutallab, por exemplo, nascido em uma família nigeriana rica, estudou no University College em Londres e depois tentou explodir um avião da Northwest Airlines, no dia de Natal. Ou Ahmed Omar Saeed Sheikh (Sheik Omar) que nasceu no Reino Unido, estudou em escolas da elite no Paquistão e no Reino Unido, deixou a London Schoool of Economics e depois matou o jornalista americano Daniel Pearl no Paquistão.

Ou até o major Nidal Malik Hasan, que nasceu em Arlington, Virgínia; graduou-se pela Virginia Tech e fez sua residência em psiquiatria no Walter Reed antes de matar 13 pessoas em um tiroteio em Fort Hood.

Essas pessoas não fazem parte do grupo de oprimidos da Terra. Elas tampouco têm muito em comum, sociologicamente falando, com os senhores de guerra analfabetos do Waziristão. Elas não emergiram em sociedades islâmicas repressivas, tais como Irã, nem foram forçadas a viver sob formas extremas da lei islâmica, como na Arábia Saudita. Pelo contrário, têm pais ambiciosos, "ocidentalizados", que se sacrificaram para sua formação, apesar de frequentemente, por alguma razão, não terem sucesso ou não se sentirem bem em seus ambientes.

Talvez pareça estranho, mas eles me fazem lembrar dos primeiros bolcheviques, que também eram educados, multinacionais e ambiciosos e muitas vezes não tinham a entrada social para terem sucesso. A família de Lênin, por exemplo, apegou-se desesperadamente a seu status na faixa mais baixa da aristocracia czarista.

Bayrak faz uma comparação similar, associando o nome do guerrilheiro jihadista Osama Bin Laden ao do guerrilheiro comunista Che Guevara. Infelizmente, não li o livro, mas tenho uma ideia do que ela quer dizer: os dois diziam lutar em nome dos pobres e oprimidos, enquanto agradavam profundamente os ricos e desiludidos.

Nos últimos anos, o surgimento dessa elite internacional jihadista muitas vezes foi atribuído às políticas de imigração e assimilação europeias, ou à falta delas. Vários dos terroristas do 11 de Setembro eram radicalizados em Hamburgo, Alemanha; os terroristas do metrô de Londres nasceram no Reino Unido; e há outros exemplos europeus. Mas o caso de Bayrak, que foi criada em uma sociedade muçulmana secular - e o de Hasan, que é americano - sugere que esta elite tem uma base muito mais ampla e que o islamismo radical possivelmente tem um apelo muito maior.

O caso de Bayrak e sua formação também sugere a necessidade de outra estratégia antiterrorista. Muito frequentemente, pensamos na diplomacia pública como uma espécie de atividade de relações públicas que faz a "promoção" de valores americanos. Em vez disso, devemos pensar nela na forma de discussões. Os bayraks e balawis deste mundo estão engajados em constantes debates - em salas de bate-papo na internet, nos salões das editoras, nas mesquitas. Será que estão recebendo suficientes contra-argumentos? Será que estamos ajudando as pessoas que defendem os argumentos contrários? Suspeito que eles não estejam recebendo contra-argumentos e estou certa de que não estamos ajudando o outro lado - e isso tem que mudar. Os intelectuais talvez usem óculos e leiam livros, mas nenhum desses atributos os impede de jogar bombas - ou de amarrá-las em suas cuecas, se necessário.

Tradução: Deborah Weinberg

Anne Applebaum

Jornalista escreve sobre política norte-americana e assuntos internacionais.

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