O grande problema com grandes soluções

Anne Applebaum

Anne Applebaum

Em Zurique (Suíça)

Andamos um centímetro e depois paramos. Depois andamos um centímetro de novo. Então, por meio quilômetro ou mais aceleramos, e parece que de fato vamos conseguir chegar em tempo. Então paramos. Mais alguns centímetros adiante e paramos de novo.

A neve está caindo, mas esta não é a única explicação para este congestionamento: os passageiros mais experientes em nosso carro asseguram que este é o tipo de coisa que acontece nos arredores de Zurique todos os dias. O caminho de Davos - viajávamos do lendário resort nas montanhas para o aeroporto - deve levar duas horas, mas às vezes leva quatro. O caminho de Berna também sempre leva duas vezes mais do que deveria. Tampouco pense que você consegue chegar de qualquer outro lugar até Zurique com pressa.

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O tráfego é resultado de um paradoxo. Habilidades extraordinárias de construção foram necessárias para produzir os longos túneis nos Alpes da Suíça; planejamento meticuloso foi empregado na criação das estradas pristinas através de vales remotos, e da sinalização limpa e precisa. O sistema de rodovias suíço é uma das maravilhas da engenharia do mundo moderno e é por isso que qualquer um que viaje pelo país, ou através do continente, quer dirigir nelas. Construa uma estrada muito boa, e cedo ou tarde, você receberá mais tráfego.

Esse fenômeno é bem conhecido entre os que estudam a ciência do transporte, mas também reflete uma verdade mais geral: às vezes, ao resolver um problema, você acaba criando outros. Saindo do Forum Econômico Mundial - ao qual eu compareci na honrosa condição de esposa acompanhante - foi difícil não ver nisso uma profunda metáfora. Davos é uma conferência que se especializa em gerar Grandes Ideias, preferencialmente Grandes Ideias que podem ser definidas numa simples sentença e portanto traduzidas numa linguagem simples. Nesse tipo de encontros, sempre existe a ameaça de um Grande Problema, também: a pobreza está crescendo, ou a influência europeia está sumindo ou o clima está mudando.

Normalmente há uma Grande Solução em oferta. As Nações Unidas precisam agir, ou o Parlamento Europeu precisa agir ou a Casa Branca precisa fazer algo. No jantar, uma noite, sentei-me perto de uma mulher que estava convencida de que a civilização ocidental seria salva por investimentos massivos do governo em tecnologia ambiental. Suspeito que ela roubou essa ideia de Tom Friedman, mas tudo bem: o governo chinês, disse ela, já investiu bilhões, e eles nos deixarão para trás a menos que façamos lobbies com nossos respectivos governos para fazer o mesmo. Ela dispensou todos os contra-argumentos com verdadeira paixão e uma versão de sua tese apareceu na manhã seguinte na primeira página do "International Herald Tribune".

Talvez ela esteja certa, e talvez a tecnologia ambiental nos salve. Ou talvez investimentos massivos do Estado nos tipos errados de tecnologia nos levem à falência, nos enviando apressadamente na direção errada e perdendo anos que poderiam ter sido gastos, digamos, fazendo com que as pessoas usem mais trens. Ou talvez ambos se mostrem verdade. Quanto a mim, sou a favor de uma taxa de carbono que aumente os preços do petróleo e do gás de todos os lados da mesa, forçando os mercados a encontrarem soluções mais lógicas. Mas estou disposta a aceitar que haverá efeitos colaterais infelizes e estou disposta a ouvir outros argumentos.

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Mas Davos, um evento dominado por uma estranha combinação de milionários dos negócios e burocratas internacionais, é uma conferência para pessoas que não têm tempo de ouvir outros argumentos ou se preocupar com efeitos colaterais de longo prazo, e este é provavelmente o motivo pelo qual frequentemente gera manchetes na mídia. Pela mesma razão, é uma conferência cujos participantes gostam de tirar conclusões grandiosas baseados na lista anual de convidados. A primeira vez que os oligarcas russos apareceram, nos anos 90, a imprensa local declarou um Renascimento Russo. Este ano os chineses compareceram em grandes números, e portanto foi o Ano da Ásia. Os norte-americanos foram poucos, então também foi o ano do Declínio dos EUA.

E se você não tiver tempo mesmo, pode até mesmo reduzir estas soluções de uma sentença a frases de três palavras. Aprendi isso em outro jantar, em que o homem sentado ao meu lado declarou que estava com “excesso de Islândia”, o homem na minha frente estava com “falta dos EUA” e um terceiro estava com “excesso da China”.

Já eu, estou com falta de conferências, excesso de complexidade e tenho suspeitas quanto a planos simplistas para salvar a civilização ocidental. E sim, consegui pegar o avião, por pouco.

Tradutor: Eloise De Vylder

Anne Applebaum

Jornalista escreve sobre política norte-americana e assuntos internacionais.

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