A Alemanha está cansada de pagar as contas da Europa

Anne Applebaum

Anne Applebaum

  • Olivier Hoslet/EFE

    Reunião dos líderes da União Europeia em Bruxelas, na Bélgica

    Reunião dos líderes da União Europeia em Bruxelas, na Bélgica

“Vendam suas ilhas, seus gregos falidos. E vendam a Acrópole também!” - manchete, jornal Bild, 4 de março de 2010.

Às vezes os redatores das manchetes dos tabloides vão direto ao ponto, mesmo que a declaração não tenha sido exatamente essa. O que o político alemão citado no artigo do Bild disse na verdade foi: “Quem está falindo precisa usar tudo o que tiver para fazer dinheiro e pagar suas dívidas... A Grécia tem prédios, companhias, e várias ilhas inabitadas, que podem agora ser usados para pagar dívidas”.

O que ele quis dizer, entretanto, foi melhor descrito pela manchete do Bild: que os alemães estão cansados de pagar as contas da Europa. Eles não querem ajudar os gregos irresponsáveis, com suas estatísticas oficiais flagrantemente distorcidas; eles se ressentem de ser o banqueiro da Europa quando tudo o mais da errado; eles são contra o mundo inteiro querer que eles que cubram os grandes rombos do déficit orçamentário grego em nome da “unidade europeia”; e pela primeira vez em muito tempo, eles estão dizendo isso em voz alta. Não só os tabloides estão pedindo a venda da Acrópole, o “Frankfurter Allgemeine Zeitung”, um jornal alemão profundamente sério, observou que, enquanto os gregos protestam contra o aumento da idade para se aposentar de 61 para 63 anos, a Alemanha recentemente aumentou esse limite de 65 para 67 anos: “isso significa que no futuro os alemães terão de estender sua idade de trabalho de 67 para 69 para que os gregos possam desfrutar de sua aposentadoria?”

Com um péssimo senso de oportunidade, os gregos, em resposta, escolheram exatamente esse momento para expressar seus próprios ressentimentos. Um ministro grego reclamou à BBC que os nazistas “levaram o ouro grego que estava no Banco da Grécia, levaram o dinheiro grego e nunca o devolveram”. O prefeito de Atenas pediu 70 bilhões de euros (R$ 169 bilhões) pelas ruínas que os nazistas deixaram depois da guerra. A organização de consumidores gregos, não muito contente com o financiamento alemão ou com as demandas europeias para que a Grécia faça cortes em seu orçamento, convocou um boicote contra os produtos alemães. Oficialmente, os alemães disseram que esses comentários “não ajudaram em nada”. Mas não oficialmente, a imprensa alemã está espumando pela boca (veja acima), refletindo finalmente as visões dos políticos e dos eleitores alemães.

Mais curiosa é a questão do porquê isso está acontecendo nesse momento específico: afinal, os alemães vêm pagando pela unidade europeia – não apenas em moeda mas também em subsídios agrícolas, assistência às regiões mais pobres, estradas na Espanha e Irlanda – há décadas, sem nunca reclamar muito. Em Varsóvia, é possível ver playgrounds infantis com placas que indicam orgulhosamente: “construído com dinheiro europeu”, do qual provavelmente a maior parte veio dos contribuintes alemães. Então por que esses contribuintes alemães de repente passaram a reclamar dos gregos?

A resposta óbvia tem a ver com a falta de senso de oportunidade: a Alemanha ainda está em recessão; o desemprego está relativamente alto; e a nova coalizão governista prometeu reduzir os gastos. Isso significa que, pela primeira vez em muito tempo, os alemães estão sentindo uma pressão sobre seus rendimentos, suas aposentadorias, e sobre as instituições públicas, incluindo as escolas. Se eles não têm vontade de financiar outras pessoas neste exato momento do ciclo econômico – principalmente pessoas que se aposentam mais cedo – ninguém pode culpá-los por isso.

A resposta menos óbvia está relacionada aos comentários sobre os nazistas. A força motora por trás da criação da União Europeia, no começo dos anos 50, foi a culpa da Alemanha por causa da guerra. Apesar de outros países terem diferentes motivos, a razão por trás da unidade econômica e política europeia, do ponto de vista alemão, foi encobrir a nação alemã e sua história singular com algo maior e mais palatável.

Ao longo do caminho, a Europa também adquiriu outras razões para sua existência: o euro – a moeda europeia que foi desestabilizada pela dívida nacional grega – foi criado para ajudar o mercado europeu unificado a competir com os Estados Unidos. Mas os sentimentos políticos são mais profundos do que as necessidades econômicas, e sem essa urgência fundamental alemã de sacrificar sua soberania nacional, a coisa toda cairia por terra.

É por isso que a onda de indignação alemã contra financiar os gregos é tão importante. Afinal, hoje a Alemanha é governada por uma geração sem memórias pessoais da guerra. O debate histórico alemão está concentrado agora no destino dos alemães que sofreram com os bombardeios da guerra com a deportação depois que ela terminou, e não com o destino das vítimas dos alemães – na Grécia ou em qualquer outro lugar. Cedo ou tarde, os alemães decidirão coletivamente que já fizeram sacrifícios suficientes e que sua dívida para com a Europa já foi paga. E graças aos gregos ingratos, com suas mansões em ilhas e aposentadorias gordas, esse dia pode chegar antes do que imaginávamos.

Tradutor: Eloise De Vylder

Anne Applebaum

Jornalista escreve sobre política norte-americana e assuntos internacionais.

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