Divisão continental entre EUA e Reino Unido

Anne Applebaum

Anne Applebaum

Em Londres (Reino Unido)
  • 01.04.2009 - Chris Harris/AP

    O presidente norte-americano Barack Obama estende a mão ao premiê britânico, Gordon Brown

    O presidente norte-americano Barack Obama estende a mão ao premiê britânico, Gordon Brown

“Dois países, divididos por uma língua comum” é como alguém já descreveu o Reino Unido e os Estados Unidos. “Dois países, divididos por uma política comum” é outra forma de colocar. Desde os tempos de Margaret Thatcher e Ronald Reagan, a sorte política dos Estados Unidos e do Reino Unido tem seguido e refletido uma a do outro de modos estranhos. Por muitos anos, eles andaram em tandem: a união harmoniosa de centro-direita de Thatcher e Reagan foi seguida pela igualmente harmoniosa, apesar de menos carinhosa, união de centro-esquerda de Tony Blair e Bill Clinton.

Mas então veio Blair-Bush, que funcionou muito mal para Blair. Agora nós temos Gordon Brown e Barack Obama, que mal conversam um com o outro. E apesar de novamente termos dois políticos de “centro-esquerda” no comando, uma distinta falta de harmonia caracteriza os debates políticos transatlânticos. Isso ficou aparente no ano passado, quando os republicanos americanos apontaram para o sistema de saúde britânico como um exemplo do pesadelo que os americanos poderiam experimentar caso o plano de Obama fosse aprovado. Os conservadores britânicos –que há anos atacam seu sistema centralizado– imediatamente saíram em sua defesa. David Cameron, o líder conservador que deseja se tornar primeiro-ministro nas eleições que se aproximam, até mesmo prometeu “cercar” o sistema de saúde para que não seja afetado por futuros cortes orçamentários.

Mais evidências de que os tempos de polinização cruzada ideológica acabaram agora chegam na forma do debate transatlântico em torno da educação. Muitos dos problemas do sistema de ensino público britânico soarão familiares aos ouvidos americanos: queda dos padrões, violência, escolas privadas com qualidade muito superior às públicas, desempenho desigual em diferentes partes do país. Visando combater esses males, a associação bipartidária dos governadores americanos começou a discutir recentemente a criação conjunta de “padrões nacionais”, uma ideia que o governo Obama e aqueles que o apoiam abraçaram com entusiasmo, assim como muitos reformistas conservadores do ensino. Esta agora é a vanguarda do debate do ensino: a educação de uma criança não deve depender “basicamente de seu CEP”, o baixo nível de muitos distritos escolares deve ser elevado e apenas uma ação orquestrada em nível nacional pode consertar o problema.

Mas os britânicos não apenas já possuem padrões nacionais, mas também um currículo nacional e exames nacionais. E é precisamente desse currículo e desses exames que parte do público britânico deseja escapar. Daí a popular proposta conservadora de liberar as escolas públicas do “controle opressivo do Estado”. Permitir aos pais e professores que iniciem novas escolas públicas independentes do Estado. Permitir que o CEP da criança determine não apenas o currículo, mas também a natureza e filosofia da escola, o tamanho das classes, os métodos de ensino. Tornar as escolas não mais parecidas, mas sim mais diferentes. Libertar os alunos de exames inúteis.

Eu não quero analisar demais essas coisas: mais do que qualquer outra coisa, a divergência de nossos debates transatlânticos reflete as diferenças culturais que sempre foram muito mais profundas do que parecem. Mas elas também refletem algumas mudanças políticas transatlânticas e até mesmo globais. Thatcher e Reagan podiam compartilhar uma visão simples e ideologicamente compatível de mundo porque eles tinham oponentes ideológicos claros: o comunismo ao estilo soviético no exterior, o Estado de bem-estar social em casa. No momento pós-Guerra Fria, Blair e Clinton também podiam compartilhar uma meta ideologicamente compatível: ambos queriam trazer a velha esquerda para o novo centro.

Nada mais é tão claro –e certamente não em assuntos complexos como a educação. Um currículo nacional de matemática é algo de direita ou esquerda? Classes menores são uma posição de direita ou esquerda? No Reino Unido, o Partido Trabalhista é identificado com exames padronizados. Nos Estados Unidos, essa honra pertence ao governo Bush. De novo, qualquer lista aleatória de assuntos –Iraque, ambientalismo, segurança interna– produziria uma divisão igualmente desigual de posições ideológicas em ambos os países. As posições do presidente Obama sobre o Afeganistão seriam consideradas de extrema direita no Reino Unido, mas um percentual de seus compatriotas o consideram um radical de extrema-esquerda.

A verdade é que os velhos rótulos não têm mais utilidade em nenhum lado do Atlântico –exceto, é claro, para pessoas que preferem sua política resumida em pequenas frases. Eles também parecem funcionar, parte do tempo, para escritores políticos best sellers. Mas como um modo breve de descrever os humores volúveis dos eleitores britânicos e americanos –ou como forma de explicar os políticos de ambos os países– pode esquecer.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Anne Applebaum

Jornalista escreve sobre política norte-americana e assuntos internacionais.

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