A esposa do candidato

Anne Applebaum

Anne Applebaum

  • 29.03.2010 - AP

    O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e a primeira-dama norte-americana, Michelle

    O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e a primeira-dama norte-americana, Michelle

O estilista olhou para minhas roupas. “Sim, isto é exatamente o tipo de coisa que achei que teria em seu guarda-roupa”, ele disse, olhando minha coleção modesta de blazers com desdém mal disfarçado. Ele pegou um blazer azul cuidadosamente, como se a tintura pudesse manchar suas mãos. “Esta é uma cor... muito difícil”, ele disse. Ele fez careta e a removeu para outra cadeira.

E foi assim: meu primeiro, último e único encontro com o tipo de pessoa que passa seus dias vestindo celebridades. Quando ocorreu, já estava claro que meu marido não seria o candidato de seu partido à presidência da Polônia. (Ele se chama Radoslaw Sikorski, ainda é o ministro das Relações Exteriores da Polônia e reconheceu a derrota no sábado.) Isso significou que eu não seria candidata à primeira-dama da Polônia. O que para mim foi bom, sério: eu não gostei do blazer cor-de-rosa que o estilista escolheu para mim e nunca o usei.

Felizmente, foi uma eleição primária bem curta, de apenas cinco semanas. Mas foi longa o bastante para me dar uma ideia do genuíno inferno que as esposas dos presidentes enfrentam onde as eleições duram anos. Também foi uma lição interessante de quão erroneamente percebemos a experiência da esposa do candidato. Talvez possa soar surpreendente, mas escutar atentamente ao lado do palco, enquanto seu marido fala, provavelmente é o aspecto menos difícil de toda a coisa: ele fala, você sorri, todo mundo aplaude. Quão difícil é isso?

Muito mais difícil, na verdade, é falar sobre você mesma. Eu nunca fiz nada assim antes: ninguém dá muita atenção para a esposa do chanceler polonês, como deve ser. Mas tão logo meu marido se tornou um candidato à presidência, a química emocional mudou abruptamente. Mesmo na Polônia, onde o presidente é menos poderoso do que o primeiro-ministro, as pessoas têm um relacionamento mais profundo e mais atávico com a pessoa que é uma séria candidata a se tornar chefe de Estado. Elas querem que seu líder nacional –o chefe da tribo– se pareça com elas, viva como elas, reflita seus valores. Elas querem que a esposa dele também seja tudo isso, especialmente se ela é, como eu, uma estrangeira. Não há modo neutro de lidar com isso: se você não diz nada, você é “pouco prestativa”, se não dá entrevista (meu instinto inicial), significa que você não fala polonês ou talvez tenha algo a esconder.

E quando fala, esperam que você fale sobre você mesma. Como se mostrou, eu não era muito boa nisso. Me pergunte, digamos, sobre a política energética da União Europeia ou sobre a importância da eleição ucraniana e eu posso ficar falando o dia todo. Mas me pergunte “por que me apaixonei por meu marido” e eu fico sem saber o que dizer. Qual é a resposta correta? A verdade –“eu não me lembro, sério, tudo parece um borrão”– não é vaga demais para os programas de televisão matutinos?

Um tanto tarde demais eu entendi que não é o que você diz que importa, mas como você diz: complexidade, assim como ambiguidade, soa ruim diante da câmera. Detalhes adicionais –como “quando nos conhecemos, ele estava com a namorada dele, uma pessoa de quem eu gostava– tendem a estragar a história. Eu não estou dizendo que é preciso mentir; pelo contrário, isso seria fatal. Mas visando soar “natural”, você precisa estar muito bem preparada, talvez com uma história breve, mas esperta, de como se conheceram. Os Obamas possuem uma envolvendo sorvete. Eu consegui atingir essa “naturalidade” apenas com prática e muita edição.

Também não basta dizer coisas boas: Michelle Obama aumentou ainda mais o nível, e agora espera-se que as esposas de políticos observem que seu marido também tem alguns poucos “defeitos”, como deixar as toalhas molhadas no chão. Não querendo soar como uma esposa de Stepford, Samantha Cameron, esposa do líder do Partido Conservador britânico, David Cameron, declarou recentemente que precisa ser “muito firme com ele para que não se ocupe demais com seu telefone e BlackBerry”. Ah, sim, então ele trabalha demais, não é? Eu realmente admirei essa.

Só que ainda mais difícil do que falar é todo o ciclo de noticiário. Antes da campanha, meu marido era o político mais popular do país. Segundo algumas pesquisas, ele ainda é. Mas após se declarar candidato a um cargo nacional, uma tsunami de emoções negativas surgiu repentinamente de lugar nenhum e varreu nós dois. Ao se declarar um candidato presidencial, repentinamente se tornou OK inventar as histórias mais ridículas a respeito dele –e de mim– e colocá-las no jornal. Não era possível contradizê-las, porque fazê-lo soaria ridículo. (Ele não disse isso! Eu dirigi o carro eu mesma! Aquele encontro com Dick Cheney nunca aconteceu!)

Como resultado, versões mitológicas da história ganharam status de “fato” e pessoas nos talk shows da televisão os debatiam com uma paixão extraordinária. Como jornalista, eu sei como é provocar a ira hipócrita de pessoas que condenam você por coisas que não disse ou que não significavam aquilo. Quando se adiciona TV, rádio e os jornais matinais à fúria permanente da blogosfera, o efeito câmara de eco pode ser esmagador. Eu já vi isso acontecer com pessoas pelo lado de fora, mas nunca pelo lado de dentro. E asseguro que é enervante –quase apavorante– assistir uma versão completamente irreconhecível de alguém que você conhece bem surgir na esfera pública. É claro que eu não votaria naquele Radek Sikorski, aquele com uma cidadania dúbia e um diploma falso. Mas eu também não sou casada com ele, porque ele não existe.

Eu não estou me queixando disso e não considero injusto nada a respeito da campanha. Claramente, as qualidades que os poloneses admiram em um ministro das Relações Exteriores –saber falar línguas estrangeiras, ter experiência diplomática, até mesmo senso de humor– enfaticamente não são as desejadas em um chefe de Estado: que assim seja. Mas apesar de alguém poder esperar essa rápida mudança de percepção e alguém dever estar preparada para essas emoções negativas, de alguma forma essa pessoa não esperava e não estava.

E talvez ninguém jamais esteja. Possivelmente pela primeira vez, eu me sinto solidária em relação a Hillary Clinton: “Se você não gostar dele, não vote nele”. Apenas não me fale sobre isso, OK?

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Anne Applebaum

Jornalista escreve sobre política norte-americana e assuntos internacionais.

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