Outra tragédia polonesa na floresta assombrada de Smolensk

Anne Applebaum

Anne Applebaum

No sábado, o presidente polonês, o presidente do banco nacional polonês, o chefe de gabinete polonês e vários outros líderes políticos e militares, alguns dos quais meus amigos e colegas do meu marido, morreram em um trágico acidente aéreo na floresta próxima de Smolensk, não distante de onde 20 mil oficiais poloneses foram secretamente assassinados por Stalin há 70 anos. Mas desta vez, ninguém suspeita de conspiração. 

É claro, alguns poucos sites de Internet poderiam fazer essa alegação, algum político excêntrico poderia expressá-la. Mas os governos russo e polonês, a mídia russa e polonesa e a grande maioria dos russos e poloneses, todos acreditam que os culpados foram um erro do piloto e a neblina. Mais importante, a discussão dessas causas potenciais foi aberta e franca. O primeiro-ministro polonês, Donald Tusk, voou imediatamente ao local da queda, acompanhado por seu par russo, Vladimir Putin. Os investigadores poloneses chegaram ao local em poucas horas. O governo russo está oferecendo assistência e retirou as exigências de visto para as famílias que quiserem viajar à Rússia. Há câmeras de TV por toda parte. As autoridades aeroportuárias russas estão falando publicamente, respondendo perguntas, conversando com os jornalistas. 

Para o leitor ocidental, nada disso parecerá incomum: espera-se que essas coisas aconteçam após acidentes aéreos, especialmente aqueles que envolvam autoridades públicas proeminentes. Mas nesta parte do mundo –e especialmente neste trecho particular de uma floresta assombrada– a discussão aberta de uma tragédia representa uma mudança revolucionária. A floresta ao redor de Smolensk está repleta de sepulturas não marcadas. Elas contêm não apenas os corpos dos oficiais poloneses assassinados em Katyn e outros lugares próximos, mas também podem conter as vítimas dos expurgos de Stalin, assim como de partidários e camponeses rebeldes. Ninguém sabe ao certo. Por décadas, a história desses cemitérios foi escondida, negada ou deliberadamente manipulada para fins políticos. Às vezes, os líderes ocidentais contribuíram com as mentiras: apesar de saberem a verdade, juízes britânicos e americanos permitiram à União Soviética listar falsamente o massacre de Katyn entre os crimes de Hitler nos julgamentos de Nuremberg. 

Nesta parte do mundo, a morte repentina de um político frequentemente provoca teorias de conspiração. O líder da Polônia em tempos de guerra, o general Wladyslaw Sikorski, também morreu em uma queda de avião. Sua morte em Gibraltar, em 1943, removeu o líder mais competente e confiável da Polônia em um momento crucial, facilitando a tomada do país pelos soviéticos. A falta de uma investigação apropriada na época e o curso sinistro dos eventos subsequentes significam que, de forma apropriada ou não, um ar de mistério paira até hoje sobre o incidente. 

Se fossem motivos de disputa entre excêntricos e historiadores, esses segredos e distorções poderiam não importar. Mas eles são mais do que isso. Por meio século, o fracasso em dizer a verdade sobre Katyn criou uma profunda desconfiança entre a Polônia e a Rússia, uma que continua atrapalhando os laços políticos, econômicos e culturais entre os dois países vizinhos até hoje. As distorções que persistem da história russa ajudaram a criar um clima público de apatia e cinismo também na Rússia. A falta de franqueza oficial no passado e sobre o passado ajuda a explicar, por exemplo, por que muitos russos duvidam que seu governo lhes contou a verdade sobre os ataques terroristas que periodicamente perturbam a paz. Na verdade, as autoridades russas estão demonstrando mais transparência após esta tragédia do que mostraram após a sua própria. 

Mas não há lei que diga que o passado tem que sufocar o presente: países podem mudar, culturas políticas podem se tornar mais abertas, políticos podem aprender a não envolver eventos difíceis em mistério e mentira. Nos últimos 20 anos, as autoridades russas e polonesas começaram a adquirir a arte de falar com o público, mesmo que nem sempre optem por fazê-lo. Esta é uma mudança real e nos últimos dias nós vimos que tipo de impacto pode ter. 

Apesar de não haver muito pelo que ser grata nesta semana, eu agradeço, ao menos, pelo fato das famílias dos funcionários públicos dedicados que morreram naquele avião não terem que esperar 70 anos para saber o que realmente aconteceu. Este desastre terrível, naquela floresta estranha e sangrenta, possui ecos assustadores do passado. Mas ele não está destinado a se tornar outra “lacuna” na história sombria desta região.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Anne Applebaum

Jornalista escreve sobre política norte-americana e assuntos internacionais.

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