A Grécia e o novo colonialismo

Anne Applebaum

Anne Applebaum

  • Giakoumidis Nikolas/AP

    Cerca de 200 militantes comunistas ocuparam na última semana a Acrópole de Atenas para protestar contra o plano de austeridade imposto à Grécia

    Cerca de 200 militantes comunistas ocuparam na última semana a Acrópole de Atenas para protestar contra o plano de austeridade imposto à Grécia

Por enquanto, os mercados foram pacificados. No momento, os confrontos em Atenas se atenuaram. Somente “centenas” de manifestantes saíram durante o final de semana, menos do que os 50.000 que mataram três pessoas em um ataque violento com bombas incendiárias em um banco na semana passada. Mas esta trégua temporária na Grécia teve um custo alto –e com isso não quero dizer apenas que foi caro. 

Aqui na minha frente, tenho uma versão provisória da mais recente “decisão” do Conselho da União Europeia sobre a Grécia. Não é um documento sigiloso. Partes dele foram divulgadas pelos jornais; o parlamento grego já aprovou alguns de seus parágrafos; e uma decisão similar, apesar de menos abrangente, foi publicada em fevereiro. Apesar de não ser segredo, ninguém está falando sobre seu significado político. Pois não é um documento qualquer da burocracia europeia: é o tipo de coisa que um comandante perdedor assina em um vagão de trem na floresta no final de uma guerra sangrenta. 

A União Europeia e o FMI vão resgatar a Grécia, gastando bilhões de euros. E em troca, a Grécia vai concordar em não meramente reduzir seu amplo déficit público, mas também adotar, até junho de 2010, nada menos que 17 mudanças legais e orçamentárias. Entre outras coisas, o conselho declara que a Grécia “deve” reduzir os bônus de “Páscoa, verão e Natal” dos servidores públicos e pensionistas; aumentar impostos sobre combustível, tabaco e álcool; reduzir custos operacionais do governo local e aprovar uma lei para simplificar as regras para abertura de novas empresas. 

Quando tudo isso for feito, a Grécia “deve”, até setembro de 2010, cumprir nove outros requerimentos, entre eles uma reforma previdenciária que aumenta a idade de aposentadoria de uma média atual de 61 anos para 65. Até dezembro de 2010, a Grécia “deve” adotar outras 12 medidas, entre elas exigir o uso de drogas genéricas no sistema de saúde estatal. Há outras provisões para março, junho e setembro de 2011. Se o governo grego quiser continuar recebendo o dinheiro que precisa para funcionar, terá que aprovar toda essas leis, parte por parte. 

Não tenho dúvida que todas essas medidas são necessárias, e que estão até atrasadas. Provavelmente não haveria outra forma de persuadir um parlamento grego a aprová-las. Conflitos violentos se tornaram uma forma aceitável de expressar a opinião política na Grécia, e o forte partidarismo significa que cada governo desfaz o trabalho de seu predecessor. Esta não é uma cultura política na qual um governo acharia fácil aumentar a idade de aposentadoria em quatro anos ou eliminar os bônus de Natal dos servidores. 

Ainda assim, essa decisão representa algo novo. Apesar de a União Europeia sempre ter exigido uma entrega parcial de soberania de seus Estados membros, a Grécia não tem mais muita soberania. O acordo do FMI também impõe condições, mas o texto é diferente. O país em dívida pede ajuda, o FMI responde. Neste caso, a UE decidiu o que a Grécia “deve” fazer. Não acredito que alguém soubesse que a UE tinha tanto poder sobre seus Estados membros, menos ainda sobre os gregos. 

Manter esse programa legislativo intenso não será uma questão simples, independentemente das promessas feitas. A Grécia moderna tem uma história de ocupação estrangeira –pelo Império Otomano, pela Alemanha nazista- e alguns gregos já estão convocando seus compatriotas para resistirem à nova ocupação pelas forças da UE e do FMI. A resistência poderia tomar formas mais sutis que os confrontos. Por exemplo, em Atenas, 364 pessoas disseram às autoridades fiscais que tinham piscina- e fotografias de satélite revelaram a existência de 16.974 piscinas. Se uma reforma fiscal ou legal for percebida como imposição estrangeira, os gregos a cumprirão? 

Apesar de ninguém dizer isso, essa imposição visível do poder da UE sobre a Grécia também vai servir de advertência a outros que quiserem entrar na zona do euro no futuro. Sim, se você seguir as regras, fazer parte da Europa significa fazer parte da maior e mais próspera economia do mundo. Mas se você não seguir as regras, arrisca cair sob ocupação financeira estrangeira. Talvez ainda não tenhamos um nome para este fenômeno –neo euro-colonialismo?- mas, sem ninguém perceber, ele chegou.

Tradutor: Deborah Weinberg

Anne Applebaum

Jornalista escreve sobre política norte-americana e assuntos internacionais.

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