Nós somos as nossas próprias vuvuzelas

Anne Applebaum

Anne Applebaum

  • Quinn Rooney/Getty Images

    Menino assopra a vuvuzela na torcida pela Austrália contra a Alemanha

    Menino assopra a vuvuzela na torcida pela Austrália contra a Alemanha

Eis por que eu adoro a Copa do Mundo: a cada quatro anos, ela cria um ambiente perfeito, no qual as características nacionais são subitamente expostas e facilmente comparadas. Não existe nada daquele caos típico das Olimpíadas, com aquela mistura confusa de esportes diversos e transmissões de televisão carregadas de tendenciosidade nacional. Havendo apenas um esporte e um torneio, todo mundo tem que assistir aos jogos ao mesmo tempo, e todos falam sobre a mesma coisa. Neste ano, a conversa gira em torno de frangos sofridos por goleiros, marcações erradas de pênaltis e a vuvuzela.

Para aqueles que não têm acompanhado a copa, a vuvuzela é uma espécie de corneta comprida de plástico que produz um forte zumbido, meio parecido com o de uma flauta gigante. Quando milhares de pessoas tocam a vuvuzela ao mesmo tempo, o resultado é um zumbido altíssimo, que faz lembrar algo como um gigantesco enxame de abelhas. Quando são tocadas em um estádio de futebol na Copa do Mundo, elas criam um irritante ruído de fundo – que é capaz de arruinar o som de um bilhão de aparelhos de televisão no mundo inteiro.

Nos Estados Unidos, nós, norte-americanos, respondemos pragmaticamente a este fenômeno irritante, encarando a vuvuzela como um ingrediente estrangeiro meio surpreendente que foi acrescentado a um jogo estrangeiro também meio surpreendente, e passamos a divulgar discretamente na Internet conselhos técnicos para aqueles que desejam filtrar o zumbido. Mas para os alemães, a vuvuzela cria um problema moral. Alguns exigem furiosamente a proibição desse instrumento. Outros chamam as cornetas de plástico de “instrumentos tradicionais do futebol sul-americano”, e opõem-se a uma proibição, alegando que isso evidenciaria um desdém europeu inaceitável pelas outras culturas. O jornal alemão de centro-direita “Die Welt” denunciou “a intolerância daqueles que estão irritados com a vuvuzela” e instruiu os seus leitores a aceitarem o fato de que as “vuvuzelas pertencem ao futebol sul-africano assim como as canções de batalha pertencem aos jogos alemães”. O jornal de centro-esquerda “Die Tageszeitung” aconselhou simplesmente os seus leitores a “abaixarem o volume” dos seus televisores caso não aceitem esse costume estrangeiro. É de se presumir que arqueólogos e antropólogos alemães já estejam a caminho do sul da África para darem início à busca pelas origens antigas do instrumento de plástico colorido.

Já na França, a vuvuzela representa um problema estético: se não dá para bani-la, integre-a ao cenário artístico. O “Le Monde” sugere que esta corneta de plástico seja encarada como um instrumento musical genuíno, tendo chegado a fornecer aos leitores do seu website links para que sejam acessadas obras compostas para a vuvuzela por um certo Pedro Espi-Sanchis (“Pedro, o Músico”), um musicólogo, músico e professor espanhol que mora na Cidade do Cabo, na África do Sul. E na semana passada, o jornal “Libération” incorporou o termo ao seu vocabulário de crítica artística, condenando um conjunto particularmente barulhento com o termo “vuvuzelas de l'art contemporain” (“vuvuzelas da arte contemporânea”).

E, para os sul-coreanos, a vuvuzela faz emergir questões complexas relativas à etiqueta. Um colunista coreano temia que uma proibição sumária do instrumento se constituísse em um ato rude contra o país anfitrião da Copa. Mas quem sabe outros instrumentos “tradicionais” pudessem ser mostrados ao invés da vuvuzela? “Às vezes, quando a televisão mostra rapidamente percussionistas no estádio, eu desejo ardentemente ouvir o som que eles estão produzindo”, escreveu o colunista sul-coreano. Depois, ele partiu para uma tentativa polida de persuasão: “Eu espero sinceramente que os nossos amigos africanos abaixem as suas cornetas e escolham outros instrumentos”. No entanto, se a persuasão fracassar, “é possível achar consolo no fato de que os jogos chegarão ao fim daqui a três semanas”. Quanto aos norte-coreanos, nós não sabemos o que eles acham: embora a agência oficial de notícias norte-coreana tenha admitido que a seleção nacional está de fato jogando na Copa do Mundo, nenhuma informação adicional – nem sobre as vuvuzelas, nem sobre os boatos de que alguns jogadores tentaram desertar – está disponível.

Não há nenhuma reticência desse tipo no Reino Unido, onde os tabloides acusam os instrumentos de provocarem perda de audição, inchação de lábios e até ruptura da traqueia. E coisas piores são previstas: os supermercados britânicos estariam vendendo os instrumentos, e haveria dezenas de milhares de unidades extras encomendadas. E as vuvuzelas poderão chegar bem a tempo para arruinar a temporada inglesa de futebol no próximo outono, possivelmente para sempre.

Issa invasão da vuvuzela não virá da África do Sul, é claro. Para alguns países, a vuvuzela é uma oportunidade, e não um problema. Em vez de fazer barulho e de reclamar do ruído – ou, como o goleiro argentino, de responsabilizar o barulho pelos seus erros –, os chineses estão fabricando como loucos esses instrumentos destruidores do silêncio. Um milhão dessas cornetas de plástico já foram despachadas de Zhejiang e Guangdong para a África do Sul, e mais vuvuzelas estão sendo enviadas para o resto do mundo. A Fábrica de Brinquedos Guangda já aumentou a sua produção para 20 mil unidades por dia, segundo um relato, e a proprietária afirmou que continuará produzindo as vuvuzelas “enquanto houver demanda no mercado”.

Uma demanda que continuará presente até que alguém tenha o bom senso de proibir a vuvuzela.

Tradutor: UOL

Anne Applebaum

Jornalista escreve sobre política norte-americana e assuntos internacionais.

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