Os sonhos cada vez mais irrealizáveis do México

Jorge Castañeda

Jorge Castañeda

Dois anos não são suficientes de forma alguma para solucionar os problemas ancestrais do México, e ninguém pode culpar o presidente do país, Felipe Calderón, por ter apenas começado a fazê-lo.

Assumiu a presidência em 2006 sob circunstâncias extremamente adversas. Foi eleito com apenas 35% dos votos, carecendo, consequentemente, de uma maioria no Congresso, e metade dos integrantes da oposição recusou a admitir sua vitória ou legitimidade.

Teve que governar num ambiente persistentemente difícil: um presidente já carente de poder no país vizinho, uma desaceleração econômica severa durante a maior parte de seu segundo ano no poder, e o legado de corrupção, negligência e cumplicidade que seus predecessores deixaram desde épocas que remontam a 1968, quando o velho sistema do Partido Revolucionário Institucional (PRI) lentamente começou a desmoronar. Não é exatamente uma receita para o sucesso.

De forma que não surpreende que a lista das metas não alcançadas de Calderón seja maior que sua lista de conquistas. Continua conservando sua popularidade pessoal e é respeitado, mas o povo está cada dia mais insatisfeito e decepcionado com o desempenho atual de seu governo.

Entre seus êxitos está a reforma do sistema previdenciário dos funcionários públicos, em abril de 2007, que o salvará da falência, se bem que ao final menos de 20% dos integrantes escolheram o novo esquema de contribuição definida.

Também prevaleceu ao conseguir debilitar e neutralizar a oposição da esquerda, e ao ser capaz de governar sem conflitos importantes nas ruas ou no Congresso.

E, por último, enfrentou o grave desafio do qual o México estava fugindo há anos - o crime organizado e os cartéis do tráfico - e evitou varrer o problema para debaixo do tapete mais uma vez, como ocorreu no passado.

Mas as falhas de Calderón escondem outros obstáculos para a renovação do México, estes sim estão sendo varridos para debaixo do tapete. Duas delas se destacam especialmente.

A primeira é ter deixado intactas - tal como o fizeram seus dois predecessores democráticos, Ernesto Zedillo e Vicente Foz - as estruturas de monopólio e as imensas concentrações de poder do México.

Os monopólios públicos como Pemex, monopólios privados como Telmex e Cemex, monopólios trabalhistas como o sindicato dos professores, monopólios dos meios de comunicação como a Televisa, e o controle ferrenho que os três partidos políticos têm sobre todos os níveis de representação eleitoral, têm todos mais poder do que antes.

Calderón recusou-se a tocar nessas estruturas de poder, apesar de que todos, desde o Banco Mundial até o agitador de esquerda Andrés Manuel López Obrador, concordam em afirmar que este é o principal impedimento para o progresso do México.

A segunda é que o presidente demonstrou não estar disposto a tentar uma reestruturação das instituições da nação. Elas foram concebidas e construídas desde a década de 1930, quando o governo unipartidário e a onipotência do presidente em exercício garantiam um estilo de governo eficaz, ainda que autoritário e corrupto.

Essas instituições são simplesmente disfuncionais em uma democracia. O presidente sempre carece de uma maioria no Congresso. A ausência de reeleições congressistas elimina a prestação de contas, a memória e a especialização. A não existência de referendos e iniciativas populares torna impossível que o Executivo "acuda ao povo" em relação a temas fundamentais.

E a carência de qualquer intermediário entre o presidente e o gabinete (como um vice-presidente ou um primeiro-ministro ou chefe de gabinete) significa que o chefe de Estado e o chefe de governo são a mesma pessoa, que tem de levar a cabo por si só ambas as tarefas.

Nada disso mudou sob o governo de Calderón, nem mudará.

Está certo que nenhuma dessas críticas tem ressonância na opinião pública: o povo está preocupado com os crimes de decapitação ou com o aumento dos preços, mas não com monopólios e acordos administrativos e parlamentares.

Não culpam Calderón pela desaceleração econômica cada vez mais severa, mas estão cada vez mais céticos em relação à sabedoria de seu mais importante programa: o lançamento de uma campanha com todos os recursos para fazer cumprir as leis antidrogas com a cooperação das Forças Armadas. E, em última instância, será julgado por isso.

O governo mexicano e os militares, desde o início dos anos 70, estabeleceram um "modus vivendi" tácito, semi-violento, porém eficaz contra os cartéis de drogas. O México era um produtor de heroína e maconha, e um país de trânsito para a cocaína proveniente da América do Sul.

Calderón decidiu, ao final de 2006, que essa situação já não era tolerável: a violência havia saído do controle; a corrupção e a conivência haviam infectado grandes setores da polícia e da elite política da nação; o México havia se transformado num produtor importante de metanfetaminas para o mercado dos Estados Unidos, e num consumidor significativo de cocaína. Isso motivou a declaração da guerra.

Duas coisas geraram o ceticismo público: em primeiro lugar, quando o presidente deu um pontapé na colméia, não estava armado com um fumegador de potência industrial ou com telas de proteção. De forma tal que não podia defender a si mesmo, ou destruir as abelhas (ou, mais adequadamente, as vespas, tarântulas e escorpiões). Ele foi desmoralizado, e a violência, a corrupção, a conivência e a contaminação do Estado se espalharam sem controle algum.

Em segundo, as premissas do rompimento de Calderón com o passado agora parecem ser menos evidentes que antes. Não está claro em absoluto que o consumo de drogas no México esteja se estendendo por círculos cada vez maiores da população. Os aumentos qualificados como "alarmantes" no índice de adições são enganosos, porque, para começar eram muito baixos.

E a capacidade real do maquinário de segurança mexicano para enfrentar os cartéis se encontra cada dia mais patética. A polícia é, na melhor das hipóteses, inútil, quando não está na folha de pagamento dos czares das drogas; o exército está menos contaminado, mas carece totalmente de preparação para o papel.

Levará anos e bilhões de dólares para mudar essa situação. Calderón não tem esse tempo, e só os Estados Unidos têm o dinheiro necessário. O México, entretanto, não quer ajuda norte-americana nos termos dos Estados Unidos, e nem sequer um presidente como Barack Obama pode mudar esses termos.

Antes de a crise econômica mundial irromper, há alguns meses, poucos duvidavam que o México poderia seguir adiante apesar de tudo. A maioria acreditava que dentro de 15 ou 20 anos o país conseguiria alcançar o status de uma sociedade de classe média baixa, de certa forma parecida com Portugal, Grécia ou Polônia hoje em dia.

Mas dúvidas cada vez mais profundas ameaçam descarrilhar esse trem otimista.

Tradução: Eloise De Vylder

Jorge Castañeda

Jorge Castañeda foi chanceler do México e é autor de uma das mais extensivas biografias já publicadas sobre Che Guevara.

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