A verdade e as consequências da gripe suína

Jorge Castañeda

Jorge Castañeda

Mais de um mês depois de seu início assustador, ainda não sabemos realmente onde ou quando se originou a epidemia da chamada gripe suína - A(H1N1). Tampouco sabemos se ela já acabou, ou se retornará. O que sabemos é que matou mais gente no México do que em qualquer outro país, incluindo os Estados Unidos.

Os dois países - México e Estados Unidos - são praticamente vasos comunicantes, compartilhando uma fronteira de mais de 3.200 quilômetros e um comércio bilateral de cerca de US$ 400 bilhões por ano. Todos os dias, mais de um milhão de pessoas cruzam a fronteira legalmente e mais de 13 mil caminhões a atravessam em ambas as direções.

Centenas de milhares de habitantes do México trabalham no lado norte-americano da fronteira e voltam todos os dias para suas casas; várias cidades-gêmeas fronteiriças - Brownsville e Matamoros, Laredo e Nuevo Laredo, El Paso e Ciudad Juárez, Caléxico e Mexicali - são, de fato, uma só comunidade.

Em qualquer semana do ano há, em média, mais ou menos 500 mil turistas norte-americanos visitando algum lugar do México, e quase um milhão de cidadãos dos Estados Unidos moram de forma mais ou menos permanente no México.

Portanto, eis o duplo paradoxo: por que a gripe produziu resultados epidemiológicos tão diferentes nos dois países? E mais importante ainda: por que ela gerou reações tão desiguais por parte de seus governos?

As conseqüências da epidemia para ambos os países foram radicalmente diferentes. No México, em meados de maio, 52 pessoas haviam morrido, provavelmente por causa da A(H1N1), desde o surgimento da doença em março e abril. Digo provavelmente porque cerca de 13 mil indivíduos morrem em consequência de doenças respiratórias todos os anos no México, e nem todos os resultados dos testes foram recebidos ainda. Portanto, é possível que, na verdade, um número ainda maior de pessoas tenha morrido de A(H1N1) no México do que se acreditava inicialmente, mas, também, por outro lado, pode ser que algumas das vítimas suspeitas de terem morrido por causa do vírus não tenham perecido por sua causa.

Nos Estados Unidos, em meados de maio, três pessoas haviam morrido como consequência da doença, uma delas era um menino de menos de dois anos de idade proveniente do México, e a outra uma mulher idosa e doente que morava na fronteira. No México, dois mil casos foram confirmados; nos Estados Unidos, que têm o triplo da população, foram 2.500 casos.

Apesar de muitas teorias tentarem explicar por que o número de mortes foi muito maior no México (ainda que o número seja baixo em termos absolutos e menor do que muitos temiam inicialmente), nenhuma delas oferece uma explicação satisfatória.

É verdade que os mexicanos têm uma cultura de automedicação e abuso de antibióticos, duas coisas que, nesse caso, são altamente prejudiciais. Também é verdade que temos a tendência de postergar ao máximo as visitas ao médico, e também é fato que aqueles que morreram haviam esperado tempo demais para procurarem seus médicos.

Mas, por outro lado, se as autoridades mexicanas, graças à sua estreita cooperação com seus colegas dos Estados Unidos e do Canadá, sabiam que algo ia mal desde meados de março, por que não recorreram aos enormes recursos da burocracia mexicana para alertar a todos os que sofriam de gripe para buscarem ajuda médica?

Esta pergunta é ainda mais pertinente se levarmos em conta a enorme brecha na resposta política dos governos dos países fronteiriços, que tiveram acesso exatamente à mesma informação, exatamente no mesmo momento.

O presidente mexicano Felipe Calderón fechou todas as escolas, universidades, estádios esportivos, ordenou que todos usassem máscaras cirúrgicas e suspendeu a maioria das atividades econômicas durante mais de uma semana. Vários Estados mantiveram a suspensão das aulas. Ele permitiu tacitamente que o prefeito da Cidade do México, onde ocorreu a maioria das mortes, fechasse os cinemas, restaurantes, bares, museus e praticamente todo o resto, exceto o metrô e outros meios de transporte coletivo, usados por mais de 5 milhões de habitantes da maior cidade do mundo para ir ao trabalho todos os dias.

O custo para o país, em turismo, comércio, imagem e reputação, é enorme e, pelo menos até agora, supera em muito o custo da epidemia propriamente dita.

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que saiu para jantar com sua mulher e antes para comer hambúrgueres com o vice-presidente, sugeriu que as pessoas lavassem as mãos com frequência, apenas observou enquanto alguns distritos escolares fechavam as portas por um ou dois dias, e simplesmente garantiu que o remédio contra a gripe, o Tamiflu, estivesse disponível para os doentes.

Ele se mostrou bastante disposto a colaborar com o México (à diferença de nossos "amigos" da América Latina como a Argentina, Cuba, Peru e Equador, que cancelaram os vôos para o México), mas adotou uma política radicalmente diferente no combate à epidemia. Por quê? Ninguém sabe exatamente, principalmente porque Calderón e Obama tiveram pelo menos duas ocasiões - em 16 de abril na Cidade do México e em 18 de abril em Porto Espanha, Trinidad - para falar sobre a epidemia. Talvez não soubessem ainda de sua existência, ou, se falaram sobre ela, não divulgaram a conversa.

Há uma explicação plausível para a enorme diferença entre as respostas e suas consequências. Os mexicanos normalmente não acreditam no governo, e em geral não fazem aquilo que lhes pedem que façam. A ausência de uma cultura cívica é um dos maiores desafios do país, e talvez Calderón, de boa-fé, tenha pensado que, se não exagerasse a ameaça, ninguém o levaria a sério.

É muito possível que ele estivesse certo; infelizmente, sua equipe careceu da mesma sensibilidade e sabedoria no que diz respeito à reação do mundo perante as intermináveis imagens de mexicanos cobertos com máscaras cirúrgicas, fazendo fila para entrar nos hospitais, lavando o metrô com roupas de astronauta, e fechando as portas das lojas e empresas.

No mercado mundial de turismo, o México hoje em dia é um pária. Para um país em que o turismo é a maior indústria e o maior empregador, isto tem consequências extremamente graves.

Tradução: Eloise De Vylder

Jorge Castañeda

Jorge Castañeda foi chanceler do México e é autor de uma das mais extensivas biografias já publicadas sobre Che Guevara.

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