Hugo Chávez pode estar próximo de seu fracasso total

Jorge Castañeda

Jorge Castañeda

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, tem mostrado uma resistência notável ao longo de sua carreira de 20 anos de duração em políticas de todas as cores e sabores. Ele é, por excelência, o garoto que sempre recupera o sucesso, como costumavam chamar Bill Clinton.

Tentou um golpe de Estado, fracassou e foi preso, mas voltou da prisão triunfante e imensamente popular.

Foi vítima de um golpe de Estado falido, e emergiu vitorioso da experiência.

Derrotou uma ampla greve sindical e uma paralisação petroleira.

Perdeu um referendo sobre mudanças constitucionais que permitiriam que ele ficasse indefinidamente no poder, mas no ano seguinte voltou com outro referendo sobre esse tema - e ganhou.

Depois de uma década no poder, Chávez sobreviveu a uma armadilha após a outra, e a maioria das apostas contra sua sobrevivência no futuro próximo e a médio prazo quase seguramente se perderiam. Entretanto...

Há algumas semanas pude dar uma espiada em primeira mão tanto no
comportamento errático de Chávez (que lhe causa problemas de vez em
quando) como no descontentamento crescente em seu país. Estive na Venezuela numa breve visita para o 25º aniversário do Centro da Divulgação do Conhecimento Econômico (Cedice), um comitê conservador e democrático de especialistas em Caracas.

Vários intelectuais públicos latino-americanos foram convidados, alguns foram molestados no aeroporto, e todos nós fomos insultados e condenados pelos meios de comunicação e até em pequenas manifestações do outro lado da rua do hotel em que nos hospedamos, onde o evento do Cedice aconteceria.

Decidimos pedir a Chávez que, para reparar as coisas, nos convidasse a seu programa bate-papo dominical no rádio, que dura o dia inteiro. Ele inicialmente negou, sugerindo que organizássemos um debate com seus acadêmicos "bolivarianos". Respondemos que ele normalmente convida dezenas de pessoas para os debates, e que nós preferiríamos conversar com o titereiro, e não com os títeres. Ele aceitou, o que nos deixou imensamente satisfeitos, e sugerimos o escritor peruano Mario Vargas Llosa como nosso porta-voz. O presidente reagiu indignado; cancelou o convite e desencadeou um intenso ataque contra Vargas Llosa e o resto de nós.

A maior parte dessa anedota é irrelevante, exceto pelo contexto em que aconteceu. Na sequência, Chávez suspendeu dois dos quatro dias em que seu programa de rádio de aniversário deveria ser transmitido; desconvidou o presidente boliviano Evo Morales que faria uma visita breve durante sua viagem a San Salvador, onde ambos assistiriam à tomada de posse do presidente de centro-esquerda Mauricio Funes; depois cancelou sua própria viagem para a celebração no país da América Central, alegando a existência de uma conspiração para assassiná-lo.

Tudo isso à frente de um cenário de queda notável de seus índices de popularidade nas pesquisas, crise econômica cada vez mais intensa, radicalização da campanha encabeçada pelo governo para se apoderar de todas as empresas a seu alcance, a renovada perseguição de seus rivais políticos e dos meios de comunicação de oposição, e a crise que suas políticas sociais enfrentam.

Chávez começou a se apoderar de cada elo da cadeia de produção de petróleo, a nacionalizar até mesmo as siderúrgicas argentinas (os Kirchner, em Buenos Aires, estão entre seus melhores amigos políticos na América Latina), a sabotar os prefeitos e governadores de oposição cortando seus orçamentos e reduzindo sua autoridade, além de continuar assediando a única rede de televisão crítica que ainda resta no país.

Chávez ameaça livre funcionamento de canal de TV opositor

Apesar de muitos argumentarem que a liberdade de expressão ainda não está sob ameaça na Venezuela, a Globovisión se tornou o novo alvo favorito do presidente, que a acusa de "terrorismo midiático" e de "envenenar" as pessoas

Diz-se que os médicos cubanos que fazem parte de suas "missões bairro adentro", nos bairros de Caracas e aldeias no campo, estão desertando e fugindo em grande número para as colinas e para Miami, há até mesmo rumores (sempre suspeitos na América Latina, e principalmente numa sociedade tão polarizada como é a da Venezuela atualmente) de que há vozes de descontentamento nas forças armadas.

O caudilho venezuelano se beneficiou com a alta recente dos preços do petróleo (ainda muito abaixo do que havia estimado para este ano, mas bem acima dos valores dos primeiros meses.)

Ele vive uma pequena rajada de boa sorte na América Latina: a Organização dos Estados Americanos aceitou sua iniciativa de convidar Cuba a voltar ao cerco depois de quase meio século de suspensão (se bem que não incondicionalmente).

Funes, em El Salvador, não sente simpatia por ele, mas seu partido, o velho grupo guerrilheiro Frente Farabundo Martí para a Liberação Nacional (FMLN), e seu líder, o vice-presidente Salvador Sánchez Cerén, o admiram.

Ele entrou em brigas desnecessárias com a Argentina, mas o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva continua dando a ele muita margem de ação, e o presidente mexicano, Felipe Calderón, perdoa praticamente todas as afrontas de Chávez.

Seu amigo Mahmoud Ahmadinejad acaba de ser reeleito no Irã, e todos seus colegas mais próximos, os presidentes Morales, da Bolívia, Daniel Ortega, da Nicarágua, Rafael Correa, do Equador, e até certo ponto, Fernando Lugo do Paraguai, consolidaram o poder.

Até em Cuba, apesar do desabamento econômico da ilha, as coisas são bem vistas: Fidel Castro parece haver recuperado parte de sua saúde e poder, e seu irmão Raúl dá a impressão de ter cedido diante das demandas radicais e intransigentes de "El Caballo" (como às vezes Fidel é afetuosamente chamado), tal como Chávez haveria desejado e talvez até tenha conspirado para que acontecesse.

Não obstante, talvez haja algo de podre em Caracas, e como disse Vargas Llosa quando estava por lá, a vitalidade e o vigor da sociedade civil do país resistiram a um ataque que poucas outras nações da região haveriam suportado.

Chávez talvez queira transformar seu país em outra Cuba, mas até agora não conseguiu. De fato, é possível que esteja próximo de um fracasso total e retumbante.

Tradução: Eloise De Vylder

Jorge Castañeda

Jorge Castañeda foi chanceler do México e é autor de uma das mais extensivas biografias já publicadas sobre Che Guevara.

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