Classe média é responsável pelas eleições locais no México e pune o presidente Felipe Calderón

Jorge Castañeda

Jorge Castañeda

Nas eleições locais de 5 de julho no México, os eleitores puniram severamente o presidente Felipe Calderón e seu Partido Ação Nacional (PAN), conservador. Eles também censuraram drasticamente a esquerda, mas decidiram dar mais uma chance, ainda que hesitante, ao velho e autoritário Partido Revolucionário Institucional (PRI), que governou a nação de 1929 até quase final de 2000.O eleitorado também enviou várias outras mensagens, que talvez sejam mais interessantes.

Em comparação com 2003 (as eleições anteriores, o critério mais válido de comparação), o PAN perdeu 3%, e 10 assentos no congresso. Nas eleições presidenciais e do congresso de 2006, ele perdeu 7% e 60 assentos - bem mais do que o partido de Vicente Fox em 2003. O PAN também perdeu cinco de seis governos em jogo, inclusive dois onde havia governado por mais de uma década.
  • O presidente Felipe Calderón e seu Partido Ação Nacional (PAN) foram punidos pelos eleitores

O Partido da Revolução Democrática (PRD, centro-esquerda) também levou uma surra. Ele caiu três ou quatro pontos, em comparação com 2003, ou quase 20 pontos em relação às eleições presidenciais de 2006. Nessas eleições, seu candidato, na época o prefeito da Cidade do México, Andrés Manuel López Obrador, perdeu por uma margem estreita para Calderón após obter apenas 35% dos votos. Hoje o PRD está dividido, rejeitado por eleitores que estão cansados de seu radicalismo e agressividade, e foi reduzido a níveis de representação que não se viam desde o início dos anos 1990.

O PRI se beneficiou com tudo isso, e surgiu como vencedor, quase alcançando uma maioria absoluta das cadeiras na Casa (não havia cadeiras no Senado em disputa, e atualmente nenhum partido detém uma maioria naquela câmara). O partido voltou para as porcentagens que havia alcançado em 2000 e 2003, ou seja, cerca de 38% dos votos, mas não mais do que isso. E enquanto os especialistas mexicanos parecem ter certeza de que o partido do passado pode se transformar no partido do futuro e reconquistar a presidência em 2012, muitos, incluindo este autor, não se convencem disso.

Estas são as verdadeiras lições dessas eleições:

A sociedade mexicana, e ainda mais o público eleitor, é cada vez mais representada pela classe média.

As firmas de consultoria de mercado, o Banco Mundial, jornais como "The Economist", todos concluíram que cerca de 60% da população do país pode ser definida como classe média; entre os que realmente votam, a proporção é provavelmente maior.

A classe média, desde 1997 (a primeira vez que o México teve eleições limpas e justas), apontou várias questões, das quais três são cruciais.

Primeiro, ela não quer dar a nenhum partido o poder total, ou seja, a presidência, uma maioria no Congresso, e a prefeitura da capital, o segundo cargo eletivo mais poderoso do país.

Segundo, ela se recusa a dar poder a uma esquerda radical, quase rebelde.

E terceiro, ainda que ela possa apoiar o PRI "antigo regime" para o Congresso, para os governos estaduais e até para os conselhos municipais, ela não está disposta a devolver a ele a presidência.

Parte disso pode mudar em 2012, mas por enquanto, essas parecem ser as tendências imutáveis das inclinações políticas da classe média mexicana.

Talvez isso explique por que, apesar da surra que os eleitores deram em Calderón e seu partido, no final das contas ele não tenha se saído tão mal.

Mas o país se encontra em um estado deplorável. A economia sofrerá uma retração de mais de 8% em 2009, talvez a maior queda vivida por qualquer nação do mundo. Mais de um milhão de mexicanos terão perdido seus empregos até o final do ano; a moeda sofreu, até o presente momento, uma desvalorização de 30%.

Nenhum governante em ofício pode escapar com esse tipo de recorde. Além disso, a marca registrada de Calderón - sua guerra contra as drogas - não está indo a lugar nenhum. Junho passado foi o mês mais sangrento de sua administração. Ocorreram cerca de 769 execuções relacionadas ao tráfico. Mais de 12 mil desde que ele assumiu o cargo, e não só os números não estão caindo, como as coisas estão piorando.

Em 2006, o último ano do mandato de Fox, houve uma média de 6,6 mortes por dia, segundo o diário da Cidade do México, "Milenio". Em 2007 o número caiu para 6,1, mas em 2008 saltou para 15,5, e no primeiro semestre de 2009, subiu para 18,8.

Não há absolutamente nenhum indício de que a violência, os sequestros, a produção ou a passagem de drogas tenham diminuído, mas pelo contrário, o índice de homicídios disparou.

O exército ainda é onipresente, mas cada vez mais se ouve falar em descontentamentos entre os militares, especialmente pelo fato de que nenhum cadete pronto para combate foi formado pela nova academia de polícia federal, fundada em 2007.

Como seus dois antecessores, Ernesto Zedillo e Fox, Calderón é agora um "pato manco" [governante em fim de mandato, inelegível, sem poder]. Dada a maioria da oposição na Casa, e a ausência de qualquer maioria no Senado, bem como as campanhas presidenciais de 2012 que começaram na manhã seguinte à eleição da semana passada, o presidente foi transformado em um zelador, ainda que ele ainda esteja na metade de seu mandato de seis anos.

Ele provavelmente saberá ser impossível obter aprovação para qualquer legislação significativa sua. E junto com a total ausência de qualquer programa prático ou agenda do PRI que não seja voltar para o poder, combinada com a intransigência suicida da esquerda - isso quase que certamente irá garantir paralisia e frustração.

E, infelizmente, resultará em um grau de mediocridade que o México não merece.

Tradução: Lana Lim

Jorge Castañeda

Jorge Castañeda foi chanceler do México e é autor de uma das mais extensivas biografias já publicadas sobre Che Guevara.

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