As perigosas manipulações de Hugo Chávez

Jorge Castañeda

Jorge Castañeda

A história por trás da suposta intenção do Irã de construir uma arma nuclear - e desenvolver um sistema de entrega que faria dele uma ameaça verossímil para seus inimigos e vizinhos - envolve um grande número de atores que têm interesses muito diferentes.

A China e a Rússia rejeitam novas sanções do Conselho de Segurança da ONU contra o Irã, a Rússia vende para o Irã vários sistemas de armas. As potências europeias ocidentais (incluindo França, Grã-Bretanha e Alemanha) querem novas negociações sobre o programa de enriquecimento de urânio do Irã, apesar de saberem que essas discussões provavelmente serão inúteis. O governo do presidente americano, Barack Obama, para se distinguir da equipe do ex-presidente George W. Bush, tenta "engajar" o governo do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, em Teerã, mas também percebe que mesmo conversações face a face quase certamente levarão a lugar nenhum. E Israel se dá um tempo, esperando uma oportunidade de adiar, destruir ou desmontar o programa nuclear iraniano, preferivelmente com o apoio dos EUA e dos países europeus, mas senão sozinho.

  • EFE/Miraflores - 19.nov.2007

    Venezuela e Irã estabeleceram uma ligação aérea entre suas capitais e juraram fidelidade
    e eterna solidariedade entre si; Chávez viajou ao Irã em diversas ocasiões desde 1999



Depois há outro ator improvável e aparentemente marginal: a Venezuela, cujo presidente, Hugo Chávez, acaba de fazer um giro de 11 dias por nove países do norte da África, Oriente Médio e Europa, que incluiu Rússia e Irã. O que no mundo Chávez tem a ver com a fervilhante crise nuclear iraniana?, você poderia perguntar.

Chávez viajou ao Irã em diversas ocasiões desde que assumiu o cargo em 1999; líderes iranianos o visitaram em Caracas quase com a mesma frequência. Os dois países estabeleceram uma ligação aérea entre suas capitais e juraram fidelidade e eterna solidariedade entre si. Seus laços reforçados provavelmente terão uma utilidade única nos próximos meses, enquanto se intensifica a possibilidade de um confronto entre o Irã e o Ocidente.

Esses laços foram demonstrados no início de setembro durante a escala de Chávez em Teerã, onde ele comprometeu sua companhia de petróleo PDVSA a fornecer ao Irã um pequeno, mas simbolicamente importante suprimento de produtos refinados de petróleo (principalmente gasolina) durante o próximo ano.

A importância do gesto é clara: uma das novas e mais severas sanções que Washington e as potências europeias contemplam, se as próximas negociações derem poucos resultados até o fim de setembro, é um embargo das exportações de gasolina e produtos refinados de petróleo para o Irã. Como muitos outros exportadores de petróleo, o Irã é um importador de gasolina, por isso seria relativamente fácil ter seu abastecimento cortado. Embora Chávez não tenha capacidade para substituir todas as importações de gasolina do Irã, ele pode ajudar, econômica e psicologicamente, se forem impostas sanções.

Mas a promissora amizade entre os fraudadores da eleição em Teerã e Caracas vai além da gasolina e se baseia em mais que a simples retórica e ação anti-israelenses.

A aliança brota do profundo e virulento antiamericanismo de Chávez, que hoje sabemos não nasceu apenas de seu ressentimento pela suposta cumplicidade de Bush na tentativa de golpe contra ele em abril de 2002, mas também se estende à atual administração americana, a mais progressista na história recente.

Chávez não perde uma oportunidade de culpar Obama pelo golpe em Honduras, por atos israelenses em Gaza, pelas condenações europeias de fraude eleitoral no Irã e por outras ameaças contra o Irã. O inimigo de seu inimigo é seu amigo, e Chávez pretende ser um bom amigo.

O que leva aos outros possíveis aspectos da aliança. Um é financeiro: muitos observadores suspeitam há pelo menos dois anos de que algumas das sanções financeiras da ONU contra o Irã estavam sendo contornadas pela triangulação de fundos e créditos através da Venezuela.

Hoje, outros observadores afirmam que alguns elementos da tecnologia nuclear do Irã, especialmente os que são mais móveis e preciosos para Teerã, podem ter sido duplicados na Venezuela. Também se suspeita que certas aquisições que o Irã não podia mais fazer por si só são realizadas por subordinados de Chávez e depois embarcadas para o golfo Pérsico.

Essas manobras também poderiam explicar o mistério em torno dos constantes anúncios da Venezuela sobre enormes aquisições de armas da Rússia, Ucrânia e Belarus. Na semana passada em Moscou, Chávez assinou acordos no valor de US$ 2,2 bilhões para a compra de tanques, sistemas de foguetes antiaéreos e outros armamentos.

Já houve diversos negócios antes, mas a maioria nunca dá em nada. No entanto, alguns, como os 24 aviões de caça Sukhoi que ele comprou em 2006, deram. A fábrica Kalashnikov que deveria produzir mais de um milhão de rifles de assalto por ano em Maracay, na Venezuela, porém, continua inexistente; e muitos dos diversos esquemas grandiosos de Chávez nunca decolam.

Não é impossível que o verdadeiro motivo de todo o barulho que Chávez faz deliberadamente com seus anúncios de corrida armamentista (que assustam e irritam seus vizinhos e Washington, como ele bem sabe) seja disfarçar outra operação triangular, desta vez de Moscou para Caracas para Teerã, por ar ou por mar.

Essa transferência teria implicações extremamente sérias se incluísse os famosos mísseis terra-ar S-300 da Rússia. Acredita-se que um lote desses mísseis destinado ao Irã estava no mês passado a bordo do navio cargueiro Arctic Sea, supostamente sequestrado. O navio foi interceptado pela marinha russa com, segundo se informou, a ajuda e colaboração da inteligência israelense. O Irã, ao adquirir esses mísseis, complicaria muito qualquer hipotético ataque aéreo israelense contra as instalações nucleares de Ahmadinejad.

Enquanto o governo Obama e a maior parte da América Latina continuam dando a outra face para as constantes provocações de Chávez, podem estar inadvertidamente alimentando uma aliança que tem repercussões perigosas do outro lado do mundo.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Jorge Castañeda

Jorge Castañeda foi chanceler do México e é autor de uma das mais extensivas biografias já publicadas sobre Che Guevara.

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