A história incompleta do sucesso do Brasil

Jorge Castañeda

Jorge Castañeda

O Brasil está prestes a concretizar aquele que é um sonho de toda nação em desenvolvimento: se transformar em uma sociedade de classe média, uma realização construída em um período de 15 anos. E a escolha do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos de 2016 comprova esse enorme progresso.

Este país está, de fato, na companhia de outras nações latino-americanas que alcançaram uma situação econômica interna que parecia impossível há apenas uma geração: Chile e Uruguai (talvez ainda mais do que o Brasil), e México e Colômbia (talvez menos).

O Brasil beneficiou-se de 15 anos de bons governos, incluindo dois presidentes excepcionais - Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. Ministros da Fazenda e das Relações Exteriores competentes, presidentes de bancos centrais de linha ortodoxa e até mesmo o professor de direito e pesquisador social da Universidade Harvard, Mangabeira Unger, como ministro de Assuntos Estratégicos supervisionaram a política econômica. Esses fatores, bem como os imensos recursos naturais do país e a aparentemente inesgotável vitalidade do povo, bem como o seu entusiasmo por experiências, tornaram esse sucesso uma realidade.

Todavia, ainda há pobreza e desigualdade generalizadas no Brasil, mas uma década e meia de boa governança, situação financeira estável e crescimento econômico modesto, mas sustentado, fizeram com que quase 60% da população do país, de 200 milhões de habitantes, alcançasse, no mínimo, um nível de classe média baixa.

O Brasil parece ter suportado bem a crise econômica e financeira mundial, tendo enfrentado apenas uma pequena queda do crescimento neste ano, o que certamente não reverteu nenhum dos ganhos recentes conquistados pelo país. Graças a esse desempenho, e ao seu tamanho - a quinta maior massa continental do mundo -, o Brasil passou a aspirar um status internacional condizente com as suas realizações econômicas.

Mas o status de grande potência - bem como o ingresso no clube das principais nações - vem acompanhado de responsabilidade de grande potência. Esse status consiste de características bem definidas que o Brasil busca persistentemente há pelo menos alguns anos, com alguns sucesso e alguns fracassos. Já a responsabilidade implica em tomar partidos, escolhendo amigos e adversários, e defendendo certos valores.
Esses valores vão além dos clichês tradicionais sobre soberania, não intervenção, livre comércio, mudança climática e as fachadas usuais geralmente vinculadas a esportes.

A escolha do Rio de Janeiro como sede das Olimpíadas de 2016 são um atestado do bom posicionamento do Brasil. A vitória brasileira sobre Tóquio, Madri e Chicago - esta última fortalecida pela fatídica tentativa de última hora por parte do presidente Barack Obama de reconstruir em alguns minutos aquilo que o seu antecessor destruiu durante oito anos - foi considerada o apogeu da marcha do Brasil rumo à grandeza, ou, conforme diz Lula, ao nível de primeira classe.

Mas mesmo com a Copa do Mundo de 2014 sendo também disputada no Brasil, não se deve supervalorizar a importância desses eventos, como talvez muita gente já esteja fazendo. O México realizou esse feito esportivo duplo 40 anos atrás: os primeiros jogos olímpicos organizados em um país em desenvolvimento e na América Latina foram disputados na Cidade do México em 1968, e a Copa do Mundo também ocorreu lá em 1970 - e foi vencida pelo Brasil (o México também sediou a Copa do Mundo de 1986).
Mas nenhum desses feitos espetaculares inseriu o México na rota da prosperidade, da modernidade ou da grandeza. .

Não há substituto para o trabalho duro exigido para que se obtenha liderança mundial, e o Brasil está longe de realizar ou consumar tal coisa.

As suas tentativas de obter uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) até o momento fracassaram, e parece improvável que Lula obtenha esse prêmio - uma tarefa a qual ele se dedicou durante os seus dois mandatos - antes de deixar a presidência no ano que vem.

Similarmente, embora o Brasil seja um membro influente do chamado Grupo das 20 nações mais industrializadas (G-20), 12 outros países também são (o grupo evoluiu do original G-6, de 1975, expandiu-se para tornar-se o G-7, no ano seguinte, com o ingresso do Canadá, e tornou-se o G-8 com o ingresso da Rússia em 1997). O Brasil teria preferido um clube menor e mais seleto, do qual fariam parte no máximo os integrantes originais do
G-8 e as cinco outras maiores nações excluídas - Brasil, China, Índia, México e África do Sul -, que desde 2004 são convidadas para as deliberações anuais das nações mais ricas.

No Fundo Monetário Internacional e no Banco Mundial, o Brasil ainda não obteve - e nem obterá tão cedo - direitos mais amplos de voto, até porque as duas instituições com sede em Washington exigem uma reforma de governança bastante aguardada, mas que continua remota, por mais necessária que possa ser.

Mas, o mais importante, conforme a recente ação do Brasil na América Latina demonstra, é que o país continua dividido entre as suas ambições de ser um líder mundial e a sua diplomacia antiga, baseada na neutralidade e em princípios definidos, e que é típica de uma nação do Terceiro Mundo. Essa diplomacia consiste em evitar conflitos e enfatizar questões genéricas. Ela também evita pressionar vizinhos, aliados e amigos para que estes adotem certos padrões referentes à democracia, aos direitos humanos, à política econômica, à mudança climática e às medidas anti-terrorismo.

O papel contraditório do país na crise hondurenha, a sua ausência no conflito entre Colômbia e Venezuela, e na criação de uma estrutura de direito regional são outros exemplos da postura brasileira tradicional.

Brasília, por exemplo, concedeu, por um lado, asilo ao presidente hondurenho deposto Manuel Zelaya na sua embaixada na capital de Honduras, Tegucigalpa, e relutantemente permitiu que ele utilizasse a missão diplomática como quartel-general do seu movimento político, e por outro lado recusou-se a criticar a repressão crescente da mídia, da oposição e do sistema judicial da Venezuela por parte do presidente Hugo Chávez.

O Brasil questionou a decisão do presidente colombiano Alvaro Uribe de permitir o acesso dos Estados Unidos a bases militares pré-existentes no país, mas não fez nenhum comentário sobre as enormes compras de armas russas feitas por Chávez, e tampouco examinou a sua própria licitação para a aquisição de uma nova frota de aviões de caça para a sua força aérea.

Em outras palavras, ao contrário de países como Cuba e Israel, que, bem ou mal, nos últimos 50 anos tomaram iniciativas que estavam bem acima do seu peso nas questões internacionais, o Brasil continua não desejando - ou sendo incapaz - agir de acordo com a sua idade - ou tamanho.

E isso é uma pena, porque, à medida que o México mergulha na introspecção e nos seus problemas domésticos infindáveis, a América Latina precisa ter uma voz nas questões globais. Mas uma voz que fale claramente e que defenda princípios - que líderes como Lula defendem há vários anos - sem ficar com medo de ofender os outros.

Tradução: UOL

Jorge Castañeda

Jorge Castañeda foi chanceler do México e é autor de uma das mais extensivas biografias já publicadas sobre Che Guevara.

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