A estrela brilhante do Chile

Jorge Castañeda

Jorge Castañeda

Nenhuma democracia moderna funciona sem partidos políticos, mas estes são frequentemente criticados pela corrupção, a esclerose e a falta de sensibilidade. Assim, nos últimos anos, a América Latina testemunhou a emergência e a vitória surpreendentes de candidatos independentes.

Isso ocorreu em países como o Peru, com Alberto Fujimori (1990-2000) e Alejandro Toledo, (2001-2006); e a Colômbia, com Alvaro Uribe (2002). Além disso, há os caudilhos que utilizaram sistemas partidários fortes, mas esclerosados (Hugo Chávez, na Venezuela, em 1999; Rafael Correa, no Equador, em 2007), e movimentos amplos como o de Fernando Lugo, no Paraguai, que pôs um fim a mais de seis décadas de domínio do Partido Colorado.

No entanto, a próxima eleição presidencial do Chile é bem diferente. Marcada para 13 de dezembro, essa eleição será marcada pela novidade que é um candidato independente e pelas realizações dos partidos que ele está ameaçando remover do poder.

Sebastián Piñera é duro rival do governista Eduardo Frei

  • Ian Salas/Efe


A coalizão Concertación, composta de socialistas, radicais e democratas-cristãos, governa o Chile há 20 anos, desde que o ditador Augusto Pinochet (1974-1990), deixou a presidência. Esta tem sido uma das mais notáveis, estáveis e efetivas coalizões de governo na história da América Latina: democrática, exibindo uma notável gerência econômica e políticas sociais altamente efetivas - atributos que conferiram ao Chile um respeito internacional raro e único para um país tão pequeno.

A sua história inclui a eleição presidencial de dois democratas-cristãos (Patricio Aylwin, 1990-1994; Eduardo Frei, 1994-2000), e de dois socialistas (Ricardo Lagos, 2000-2006, e a atual presidente, Michele Bachelet). Sob a liderança desses governos, o Chile tornou-se a maior história de sucesso econômico do Terceiro Mundo, e está a ponto de adquirir - muito mais do que o Brasil, que atualmente anda na moda, ou o México, que está em apuros - o status de nação desenvolvida.

Assim sendo, como é que um sujeito irritante e esbelto de 36 anos de idade, como Marco Enriquez-Ominami - que, irreverentemente, disse certa vez que sentia-se feliz por não ser totalmente chileno (ele é em parte francês) - chegou tão perto, como candidato independente, de superar a Concertación e de ir para um segundo turno com o empresário bilionário e direitista Sebastina Pinera, colocando desta forma um fim a umas das experiências governamentais da América Latina que apresentou mais resultados?

Primeiro, ele possui talento: ele pensa rápido, e teve carreiras brilhantes, mas curtas, na televisão, na área de documentários e no Congresso. A isso deve-se acrescentar uma herança política particularmente distinta. O pai biológico dele, o líder guerrilheiro esquerdista Miguel Enriquez, foi morto em um tiroteio com o exército de Pinochet em 1975; o seu pai adotivo, Carlos Ominami, foi, em um período de 25 anos, líder do Partido Socialista, senador e ministro da Economia; e a sua mãe, a socióloga e jornalista Manuela Gumucio, é descendente de duas gerações de legisladores. Ela atua na mídia de notícias há anos, e dirigiu parte da campanha presidencial de Lagos em 2000.

Segundo, Enriquez-Ominami está nitidamente explorando aquilo que poderia ser chamado de cansaço do Concertación no Chile: a população está cansada das mesmas faces, do mesmo discurso, das mesmas políticas, por maiores que sejam as realizações do partido.

Talvez esse cansaço tenha surgido porque essas políticas podem não ter sido, realmente, inteiramente frutíferas. Embora o Chile tenha se saído melhor do que a maioria dos países da região no que se refere a escapar dos estragos provocados pela crise financeira mundial, o país também sofreu. De fato, a sua economia já está tropeçando um pouco, à medida que os índices de crescimento começam a estabilizar-se, e uma distribuição de rendas extremamente desigual, um fenômeno que persiste desde a era Pinochet, tem se mostrado teimosamente resistente às receitas de equalização econômica.

Esquerdista disputa La Moneda de olho em 2014

  • Santiago Llanquin/AP

    Marco Enriquez-Ominami causou racha na Concertación por causa da candidatura de Frei e saiu de zero para 17% das intenções



Os eleitores do Chile desejam uma mudança. O Concertación foi incapaz de apresentar um candidato melhor do que Frei, o ex-presidente de 67 anos, que está disputando pela segunda vez a presidência. O pai dele, Eduardo Frei Montalva, também foi presidente do Chile de 1964 a 1970. E isso não é exatamente uma lufada de ar fresco.

Já o candidato conservador, apesar de ser um dos poucos integrantes democratas da direita chilena e de ser ativo na comunidade empresarial, é uma espécie de Michael Bloomberg do hemisfério sul. Exceto pelo fato de a eleição estar acontecendo em um país no qual a delegação de poder político àqueles que já possuem poder econômico parece ser algo arriscado, ou mesmo displicente.

Terceiro, o Concertación recusou-se a realizar primárias para selecionar o seu candidato - como fez duas vezes antes -, negando desta maneira aos indivíduos que estavam fora do círculo interno da coalizão uma chance de disputar. Isso proporcionou a Enriquez-Ominami uma oportunidade de ouro de concorrer como candidato independente, sem partido, mas com milhares de apoiadores. Muitos países na América Latina (Brasil e México entre eles) não permitem que candidatos sem partido disputem a presidência, mas o Chile permite. Enriquez-Ominami tornou-se o mais bem sucedido exemplo disso.

Será que a sua candidatura acabará perdendo força? Talvez. Especialmente se o eleitorado suspeitar que ele não seja capaz de derrotar Pinera em um segundo turno. Mas nas atuais pesquisas ele está empatado com Frei, com cerca de 20% dos votos, um feito extraordinário em um país que possui um dos mais antigos e amplos sistemas partidários na região. E, além do mais, algumas pesquisas sugerem que ele teria um desempenho bem melhor do que o de Frei em um segundo turno contra a direita.

Se Enriquez-Ominami continuar a se sair bem nos debates televisionados, onde ele sente bem mais à vontade do que os seus rivais, e se o seu dinheiro não acabar (uma grande preocupação, à medida que as fontes do setor privado secam), as suas chances serão boas. Se não tropeçar (nas suas respostas imediatas e de improviso, nos vínculos próximos com Cuba e na constante fuga dos argumentos concretos), ele poderá muito bem tornar-se o próximo presidente do Chile.

E, se não conseguir se eleger, ele tem todo o tempo do mundo pela frente.

Tradução: UOL

Jorge Castañeda

Jorge Castañeda foi chanceler do México e é autor de uma das mais extensivas biografias já publicadas sobre Che Guevara.

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