Uma mudança de clima e de influência

Jorge Castañeda

Jorge Castañeda

Na Conferência sobre Mudança Climática da ONU, em Copenhague, os países emergentes estão tendo a oportunidade de exercer sua influência.

Essas nações buscam uma estatura internacional, e com razão. Um papel mais importante para elas é tão desejável quanto necessário, dado seu tamanho, seus vários êxitos e a necessidade de uma liderança internacional mais multipolar, diversa e representativa.

Mas uma participação mais ampla implica responsabilidades mais amplas. Essas nações podem continuar afirmando os princípios do Movimento dos Não Alinhados; a América Latina pode aderir à tradição de soberania e não intervenção; e as múltiplas e justas causas dos países mais pobres podem continuar sendo tratadas com os adornos retóricos de costume. Ou podem ainda optar por assumirem seriamente o papel de líderes mundiais, com as inevitáveis obrigações requeridas.

A Conferência de Copenhague poderia apresentar uma oportunidade e um cenário assim: uma frente unida progressista, pró-ativa, reunindo países grandes, significativos e de orientação similar nesse tema e em outros.

O grupo de nações chamado BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), bem como membros do G-20 (México, Argentina, Indonésia, África do Sul) adquiriram peso e influência em assuntos econômicos mundiais, mas não ainda na frente diplomática.

Alguns deles - China e Rússia - são membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, e outros gostariam de sê-lo (Brasil, Índia). Alguns são ativos nos assuntos de sua região, como a Índia e o Brasil, mas não na arena internacional. Mas tanto em grupo como individualmente, não foram aceitos no cenário mundial, mesmo se levando em conta seu crescente poderio econômico.

O que ainda não está claro é se seria necessariamente algo bom se despontassem como importantes potências diplomáticas, especialmente se continuarem agindo como fizeram até agora. Esses países, uns mais do que outros, mostraram um apego preocupante às ideologias diplomáticas que emergiram de seu passado colonial ou subjugado.

Estes últimos incluem a Índia e a Indonésia, com suas conexões diretas a um passado colonial; China, Brasil e México, devido a humilhações indiretas em seu passado, como ocupação estrangeira, intervenção e interferência; a África do Sul devido a um sentimento incomum de humildade. Todos eles continuam proclamando princípios como a não intervenção e a soberania absoluta. E continuam se mostrando notadamente pouco dispostos a tomar partido, seja em questões de princípios, seja nas crises regionais que as afetam. Vários exemplos ilustram esse ponto.

A Índia se mostrou extremamente resistente em adotar uma posição, baseada em princípios, no que diz respeito à defesa dos direitos humanos e da democracia em casos regionais que têm relação direta com ela. Dois são recentes: há 250 mil ex-combatentes e simpatizantes dos Tigres Tâmeis prisioneiros no que são praticamente campos de concentração no Sri Lanka, em condições inconcebíveis, quando se passou quase um ano do fim da guerra civil. Mas a Índia, que tem influência suficiente no Sri Lanka para marcar uma diferença, não disse nada. Em um caso similar, a Índia, depois de ter exercido previamente uma política pró-democracia em Mianmar [ex-Birmânia], agora fez as pazes com a junta militar desse país, passando por cima das deploráveis violações dos direitos humanos que ocorrem ali.

A África do Sul traiu os princípios pelos quais seus líderes lutaram durante décadas, ao olhar persistentemente para outro lado quando se tratava de assuntos como o Zimbábue. Apoiou a repressão exercida pelo presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, contra a oposição e também sua fraude eleitoral, e somente impulsionada pela pressão internacional decidiu contribuir para uma solução negociada (que lamentavelmente agora se vê mais frágil). Em geral, se recusa a enfrentar os ditadores africanos ou as crises locais, preferindo uma política de distância permissiva. O Brasil se abstém de se envolver na maioria dos problemas internacionais, e se recusa a tomar partido invocando a não intervenção e o respeito pela soberania de outras nações. Quando adota uma postura, o faz ou com notável cinismo, ou com tão pouco cuidado que obtém resultados questionáveis.

Primeiro esse gigante latino-americano idealista recebeu como herói, no mês passado, Mahmoud Ahmadinejad, mostrando uma surpreendente indiferença à sua muito duvidosa reeleição, à repressão que atualmente faz contra a oposição, e à sua aparente violação do Tratado de Não Proliferação Nuclear, do qual tanto o Irã quanto o Brasil são signatários.

Em segundo lugar, em Honduras, o Brasil se absteve de buscar uma solução viável para a complexa situação gerada por um golpe de Estado inaceitável e eleições limpas e justas. Mas depois, irresponsavelmente, tomou partido - o mesmo, certamente, do presidente venezuelano Hugo Chávez, dos irmãos Castro de Cuba e do presidente da Nicarágua Daniel Ortega. Permitiu que o presidente deposto Manuel Zelaya estabelecesse seu quartel-general em sua embaixada em Tegucigalpa, capital de Honduras, sem ter previsto antes o que fazer com ele uma vez que fossem realizadas as eleições e o novo presidente assumisse o cargo. Obviamente, a China e a Rússia também pecam quanto a assuntos de direitos humanos e democracia. Ademais, geralmente estão ausentes em outros temas importantes. Estão bloqueando novas sanções contra o Irã por seu programa de enriquecimento de urânio. Sabem bem que tal política só pode levar a Europa Ocidental, os Estados Unidos e Israel a uma alternativa do diabo: ou permitir que o Irã possua capacidade nuclear, ou evitá-lo com medidas militares - ambas opções terríveis e inaceitáveis.

E quanto à mudança climática, veremos se a maior e mais populosa nação do mundo, a China, adotará um enfoque construtivo ou decidirá se manter inflexível, o que, muito compreensivelmente, daria às nações ricas o pretexto de que necessitam para adiar indefinidamente um acordo.

Tradução: Lana Lim

Jorge Castañeda

Jorge Castañeda foi chanceler do México e é autor de uma das mais extensivas biografias já publicadas sobre Che Guevara.

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