Maioria das economias latino-americanas se recuperam; Argentina e Venezuela são excessões

Jorge Castañeda

Jorge Castañeda

Enquanto boa parte da América Latina parece emergir com sucesso, mesmo que lentamente, da crise financeira e econômica de 2008-2009, destaca-se um par de grandes exceções.

A região terá um crescimento entre 3% e 4% este ano, e suas maiores economias - México e Brasil - vão recuperar em parte (México) ou quase todo (Brasil) o terreno que perderam no ano passado.

Já a Argentina e Venezuela parecem arruinar suas oportunidades de retornar ao crescimento e à estabilidade, em ambos os casos, por razões políticas semelhantes.
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A situação argentina talvez seja a menos preocupante, em parte porque o país acostumou os mercados mundiais, os investidores estrangeiros e seus próprios habitantes, a uma economia levada a extremos perigosos, de um tipo que raramente se vê em outros lugares, mesmo na América Latina.

Depois de ter suspendido os pagamentos de sua dívida em 2002, experimentando uma hemorragia financeira maciça posteriormente nessa mesma década, redescobriram o caminho para tempos melhores graças a um pico mundial das matérias-primas ou commodities (particularmente a soja), uma macrodesvalorização de sua moeda e uma redução acentuada nos pagamentos a seus credores.

Mas fez tudo isso ao preço de manipular o índice de inflação, taxar as exportações das empresas agrícolas e interferir com a autonomia do Banco Central. Ultimamente esteve fazendo algo mais que interferir.

A presidente argentina, Cristina Kirchner, e seu marido, o ex-presidente e agora aspirante a futuro presidente, Néstor Kirchner, são extremamente ambiciosos, mas enormemente impopulares hoje em dia. Esperam perpetuar sua sociedade de revezamento na presidência, e para conseguir isso, têm de gastar muito dinheiro internamente.

Para fazer o anterior - sem elevar excessivamente os impostos -, precisam de acesso renovado ao crédito exterior e, para obtê-lo, devem resolver seus problemas com credores aos quais não pagaram, os quais não cederam, e estar em condições de cumprir comodamente suas obrigações no exterior este ano.

A única forma de quadrar esses círculos era saquear as consideráveis reservas de divisas do Banco Central, obtendo US$ 6,5 bilhões. Mas o governador recusou, Kirchner o demitiu, um juiz suspendeu a demissão e o caos irrompeu. Quase certamente "os K", como os Kirchner são chamados em Buenos Aires, ganharão esta batalha - mas a um preço muito alto. Estariam pondo em risco uma recuperação que estava em processo mas não garantiria sua sobrevivência indefinida no poder. Assim, recorreram a uma manipulação estritamente política das finanças do país. Isto poderá funcionar, mas certamente será custoso a longo prazo.

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, por sua vez, sem dúvida descobriu como pode ser custoso, e não exatamente a longo prazo. Ele manteve uma taxa de câmbio supervalorizada durante anos, em parte para manter modestamente felizes suas classes médias alienadas - graças às importações baratas de todas as cores e tipos -, e conseguiu financiar a profunda brecha comercial subsequente através de suas enormes receitas do petróleo. Agora, finalmente acabou sua margem de manobra.

A diferença entre a taxa de câmbio oficial, anteriormente de 2,15 bolívares por dólar, e a taxa de câmbio no mercado negro, que em algumas ocasiões alcançou os 7 bolívares, assim como a fuga de reservas, chegou a ser imanejável. Em 8 de janeiro, finalmente ele se viu obrigado a desvalorizar a moeda - algo que havia prometido repetidamente que nunca poderia fazer -, o que provocou uma torrente de protestos, temores e conflitos em toda a Venezuela.

Além disso, o fez de uma forma tradicionalmente populista e política. Chávez criou um sistema de taxa de câmbio de dois níveis, com uma taxa para as importações "essenciais" (2,60 bolívares por dólar) e outra para todo o resto (chamados de "bens de luxo"), de 4,30 bolívares por dólar. Esse mecanismo, que foi tentado antes em quase todos os países da América Latina em algum momento, sempre fracassa.

Os vazamentos de uma taxa de câmbio para outra, o surto de transações no mercado negro, a remarcação de produtos de uma lista para outra e a inevitável corrupção que provoca na burocracia encarregada de administrar o sistema, consistentemente levaram ao desastre.

O que é ainda pior é que qualquer desvalorização na América Latina, e particularmente em um país que importa praticamente tudo o que consome e está acostumado a consumir muito - há rumores de que a Venezuela encabeça as importações mundiais per cápita de uísque escocês -, provoca uma espiral inflacionária fora de controle.

Isto ocorreu da noite para o dia em Caracas, quando a população em pânico, recorreu à compras maciças de produtos eletrônicos, temerosa de que seu preço aumentasse (o que quase certamente acontecerá). Chávez tentou impedir o aumento de preços com discursos, e depois enviou os militares para as lojas para tentar fazer que os preços recuperassem seus níveis da taxa de câmbio anterior. Desnecessário dizer que essa estratégia está condenada ao fracasso. Se o exército realmente empreender a tarefa de controlar os preços, tudo o que fará será expulsar os produtos das lojas para a rua e o mercado negro.

Chávez provavelmente sobreviverá a essa desvalorização que, junto com os cortes de eletricidade e a queda de sua popularidade, representam a pior crise que enfrentou desde a greve de 2003 na empresa nacional de petróleo. Mas, como os Kirchner na Argentina, pagará um preço para sobreviver e por ter politizado a política econômica a tal ponto que serão necessários muito tempo e dinheiro para reconstruir o que destruiu.

Há duas formas de manejar uma crise econômica: a forma correta e a forma Chávez/Kirchner - esta última em contraste marcante com a de outros países da América Latina hoje em dia.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Jorge Castañeda

Jorge Castañeda foi chanceler do México e é autor de uma das mais extensivas biografias já publicadas sobre Che Guevara.

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