Cuba em uma encruzilhada sem precedentes na história do castrismo

Jorge Castañeda

Jorge Castañeda

  • 22.02.2010 - Israel Leal/AP

    O presidente cubano, Raúl Castro, em evento na capital da ilha, Havana

    O presidente cubano, Raúl Castro, em evento na capital da ilha, Havana

Nos últimos 50 anos, fortunas foram perdidas em apostas no fim da chamada Revolução Cubana. Nós vimos incontáveis livros, artigos, declarações e resoluções prevendo a queda de Fidel Castro. Tudo isso foi superado apenas pela abundância de desinformações e erros analíticos em relação a Cuba, a fonte interminável de frustração para aqueles que esperavam a mudança radical ou um fim do regime.

Isso me lembra uma coluna que eu escrevi em 1990 para o jornal espanhol “El País” e para a revista “Newsweek”, “O Velho e a Ilha”, na qual eu praticamente supliquei a “El Caballo” (apelido de Fidel, “O Cavalo”) que renunciasse. Talvez ele viva o suficiente para enterrar a todos nós.

Apesar do histórico ruim relativo a Cuba e do peso enorme de erros passados, pode ser que o ditador tropical, pela primeira vez, esteja começando a ouvir passos sobre o telhado.

A convergência de três fatores justifica uma aventura totalmente nova para os analistas políticos. Quem sabe desta vez os mocinhos vencerão (ou os bandidos, dependendo do ponto de vista).

O primeiro fator novo – ou, de qualquer maneira, um elemento que esteve ausente desde o Período Especial durante o início da década de noventa, quando Cuba sofreu um grave declínio econômico após o colapso da União Soviética, o Estado que sustentava a ilha – trata-se de uma crise econômica que provocou a pior onda de fome e miséria em Cuba desde aquela era.

O declínio no ano passado dos preços do níquel (o principal produto de exportação de Cuba) e do turismo, a estagnação da quantidade de dinheiro enviada a cubanos por parentes que vivem nos Estados Unidos e os recentes furacões paralisaram a ilha.

Apagões, deficiências terríveis no sistema de saúde, queda da quantidade de alimentos fornecidos pelos produtores locais e dos produtos importados dos Estados Unidos, a crise imobiliária e a suspensão de pagamentos da dívida externa desde janeiro de 2009 (tanto para amigos quanto para inimigos), tudo isso contribui para um quadro sombrio da nação insular.

O subsídio venezuelano é essencial, mas ao mesmo tempo insuficiente. As privações e as dificuldades do cotidiano atingiram níveis incomuns, até mesmo para um povo acostumado ao sofrimento.

Além do mais, não é mais fácil culpar o Império do Mal: o presidente Barack Obama não é um bode expiatório como George Bush ou Ronald Reagan. Na verdade, Obama parece ser altamente popular junto à população cubana.

Conforme já disse muita gente, uma outra crise econômica sozinha não derrubará os irmãos Castro. Mas nós podermos estar rumando para um território desconhecido.

O segundo fato é o protesto público.

Independentemente da sua natureza minoritária e isolada, o movimento de greves de fome (entre os dissidentes que se opõem ao regime de Castro) e as Damas de Branco (mulheres em Cuba que lutam pela libertação dos seus parentes, dissidentes que se encontram presos) geraram um novo elemento de conflito na política cubana.

A morte do prisioneiro político Orlando Zapata, 42, colocou o governo na defensiva e acabou com qualquer chance de normalização de relações com a União Europeia ou o México, apesar das reações vergonhosas e cínicas do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, do presidente mexicano Felipe Calderon e do ministro das Relações Exteriores espanhol Miguel Angel Moratinos. A morte de Zapata também adiou qualquer melhoria das relações com Washington.

Guillermo Farinas, um psicólogo, jornalista e dissidente de 48 anos de idade, é um outro exemplo de coragem. A sua perseverança na sua própria greve de fome após a morte de Zapata, a sua recusa em aceitar convites da Espanha para ser transportado de ambulância aérea para aquele país, a sua figura crescente como líder oposicionista eloquente e focado, e o seu altruísmo evidente (ele próprio não é um prisioneiro político, mas deixou de comer e de beber água para conseguir a libertação daqueles que se encontram presos), tudo isso eleva o seu perfil interno e externo a um nível que poucos dissidentes atingiram.

Greves de fome em solidariedade a Farinas pelos dissidentes encarcerados Darsi Ferrer e Franklin Pelegrino (que acabam de ser suspensas) tornaram a situação ainda mais crítica. Se a saúde de Farinas ficar seriamente comprometida, os acontecimentos poderão tomar um rumo imprevisto.

As Damas de Branco criaram uma expectativa semelhante. Durante anos elas marcharam em protesto e foram à missa todos os domingos buscando a libertação dos seus parentes, prisioneiros políticos detidos a partir de 2003. De repente os esforços delas ganharam um novo ímpeto.

Por um lado, as autoridades não são mais capazes de impedir as passeatas; por outro lado, elas não desejam que os protestos ocorram livremente.

Elas optaram, com a desonestidade crítica dos cubanos castrenses, por um esquema engenhoso: uma multidão semi-oficial e favorável ao governo assedia as Damas de Branco, que a seguir são escoltadas por unidades policiais que estão lá ostensivamente para protegê-las da multidão que grita impropérios.

Fotografias da confusão – as Damas de Branco, os assediadores, os guardas e os espectadores – circularam pelo mundo nos noticiários e na Internet. Nós não sabemos se essas imagens, juntamente com as notícias do martírio de Zapata e do desafio de Farinas, foram divulgadas na própria Cuba.

Até recentemente, tais notícias não teriam existido. Uma ponto forte do autoritarismo cubano tem sido a sua habilidade em isolar qualquer oposição e de manter a população cubana em um estado de ignorância. Ninguém jamais ouviu nada, a não ser a versão truncada na Rádio Bemba – o canal das fofocas.

Agora, em parte devido à brecha aberta por Raul Castro ao permitir o uso de telefones celulares, os contatos pela Internet e por telefone de Miami, e um pequeno aumento das visitas de parentes dos Estados Unidos, graças a Obama, ficou mais difícil saber ao certo até que ponto o povo cubano está ciente dos fatos. Pode ser que ele agora saiba muito mais do que costumava saber.

O que todos sabem ao certo é que Fidel não está mais controlando as questões diárias.

E eis aqui o terceiro fator. O Comandante jamais teria permitido que a questão Zapata saísse de controle: ou ele teria libertado Zapata antes que este desse início à greve de fome, ou o teria assassinado, ou concedido uma medalha, mas jamais teria permitido que uma situação como esta o deixasse encurralado, conforme fez o seu irmão Raul.

E o mesmo teria ocorrido em relação a Farinas, ou às Damas de Branco, e especialmente ao impacto potencial de uma crise econômica e de um movimento inicial de protesto ocorrendo simultaneamente.

Desta vez, Fidel não apareceria em um Jipe no Malecon em Havana, conforme fez em agosto de 1994, em meio a um êxodo maciço dos refugiados que partiram de barco, para confrontar uma multidão vociferante de manifestantes e acalmá-los com a mágica das suas palavras e a segurança da sua presença.

Raul Castro não é capaz de realizar tal façanha. Ele carece dos instintos políticos que permitiram ao seu irmão, durante meio século, farejar os potenciais adversários antes mesmo que passasse pela cabeça destes a ideia de fazer oposição a Fidel.

Os campos estão secos. Existe apenas uma pequena centelha. Os bombeiros estão exaustos. E a última esperança para a Revolução Cubana, localizada em Caracas, poderá desaparecer a qualquer momento.

Esta combinação de fatores dá a impressão de se constituir em um momento sem precedentes na história do castrismo. Isso pode ser apenas mais uma fogueira de curta duração, ou o início do fim.

Tradutor: UOL

Jorge Castañeda

Jorge Castañeda foi chanceler do México e é autor de uma das mais extensivas biografias já publicadas sobre Che Guevara.

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