Candidato Santos pode corrigir rumo da Colômbia

Jorge Castañeda

Jorge Castañeda

  • Eitan Abramovich/AFP - 30.maio.2010

    Juan Manuel Santos é candidato à presidência da Colômbia e pode ser eleito neste domingo

    Juan Manuel Santos é candidato à presidência da Colômbia e pode ser eleito neste domingo

As eleições são frequentes hoje na América Latina - e essa é uma das mais notáveis conquistas da região nos últimos anos.

Às vezes, porém, comentaristas e até eleitores exageram o significado de uma eleição. Essa comoção se aplicou à Colômbia em 30 de maio e poderá ressurgir no segundo turno decisivo, em 20 de junho.

No primeiro turno, as pessoas falavam sobre a qualidade dos candidatos e de seus debates - e a novidade da eleição em dois turnos.

Uma multidão de artigos de jornal e revista notou como as redes sociais - basicamente Facebook e Twitter - afetavam as campanhas e como os eleitores pareciam dispostos a experimentar algo novo.

Um pouco de tudo isso aconteceu, mas só um pouco. Não houve páreo apertado: apesar de todas as previsões de empate técnico feitas pelas pesquisas, Juan Manuel Santos, herdeiro do presidente de saída, Álvaro Uribe, derrotou seu adversário mais próximo por mais de 25 pontos percentuais e perdeu a vitória no primeiro turno por menos de 5 pontos.

Os tradicionais partidos Liberal e Conservador, com profundas raízes na história colombiana, praticamente desapareceram. Mas esse recuo já tinha começado a ocorrer com a vitória de Uribe em 2002 como independente, e foi ampliada por sua reeleição em 2006.

Embora não dispute na chapa de nenhum dos antigos partidos, Santos é tão do sistema - alguns diriam oligarca - quanto se poderia encontrar na Colômbia.

O azarão na corrida era o independente candidato do Partido Verde, Antanas Mockus. Apesar de sua notável ascensão nas pesquisas e do entusiasmo que despertou entre a juventude, a classe média urbana de Bogotá (de onde já foi eleito prefeito duas vezes) e em outras grandes cidades, sua campanha esfriou no final.

Seus seguidores mandaram "twits" e torpedos mas não foram votar; a participação eleitoral foi quase a mesma de sempre (cerca de 50%).

Mockus foi um candidato inovador e inclassificável, com uma posição original sobre muitas questões. Mas sua ambivalência sobre as relações com o vizinho da Colômbia, o presidente Hugo Chávez, da Venezuela, se traduziu em uma percepção de que Mockus foi morno sobre o combate à guerrilha Farc - tema em que Santos baseou sua campanha.

German Vargas Lleras, candidato do partido Mudança Radical, apresentou um programa detalhado, original e extenso - com 257 páginas. Santos sempre foi considerado um peso-pesado da política. Mas muitos dos grandes desafios da Colômbia foram apenas superficialmente abordados na campanha.

Os debates para o segundo turno poderão oferecer um avanço nesse sentido, já que apenas dois candidatos disputam. Por enquanto esta eleição ensinou ao mundo mais sobre a Colômbia do que a Colômbia aprendeu sobre si mesma e seu lugar no mundo.

Quais são as lições para a Colômbia? Uribe continua imensamente popular, apesar dos escândalos sobre corrupção, direitos humanos e a agência de inteligência DAS. Ele trouxe uma paz relativa ao país que esteve em guerra durante décadas, e a um preço que a maioria dos colombianos considera aceitável.

O crime em geral diminuiu. A guerrilha Farc foi fatalmente enfraquecida (embora ainda não destruída). A produção e as exportações de cocaína declinaram - mas em todo caso o tráfico de drogas é visto como um problema americano e europeu, e não colombiano.

E a economia se saiu bem nos últimos oito anos, apesar de uma queda previsível em 2009. Uribe fechou o círculo: ele entregou o suficiente dos bens que os colombianos desejavam e conseguiu prometer com credibilidade que o que ele não conseguiu entregar está a caminho.

A popularidade de Uribe veio a ser transferível para o candidato de sua escolha - desde que ele fizesse a escolha certa. E Uribe fez.

Santos não teve carisma, pode ter tido excesso de confiança e cometido erros aqui e ali durante as primeiras semanas da campanha, mas ele tem credenciais impecáveis como ex-ministro do Comércio, Finanças e Defesa; como jornalista honesto quando exerceu esse papel; e como um conservador que se abriu para setores progressistas no país e no exterior.

Uribe poderia defender a tese tacitamente - e Santos vigorosamente - de que este é o momento para corrigir o rumo.

O rumo significava tentar acabar com a guerrilha, manter uma forte aliança com Washington, desmontar os grupos paramilitares e conter os minicartéis das drogas. A mensagem repercutiu. O rumo foi corrigido. A verdadeira questão agora é se Santos, com o provável mandato que receberá no final, poderá voltar ao centro e uma abordagem mais social-democrática dos problemas da Colômbia.

Encontrei-me com Santos anos atrás para ajudá-lo a lançar seu livro sobre a chamada "Terceira Via", o programa social e econômico para a Colômbia. Ele era um discípulo do teórico da Terceira Via Anthony Giddens e do defensor da Terceira Via Tony Blair.

O brilho deles diminuiu. Mas a necessidade de uma opção de centro para a Colômbia é mais evidente que nunca.

Uribe levantou o peso pesado; Santos pode descentralizar a política, enfocar mais o desenvolvimento econômico e social e tornar-se uma força para uma alternativa democrática e progressista à demagogia do presidente venezuelano Hugo Chávez e à neutralidade de outros líderes regionais. Santos tem tudo a seu favor.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Jorge Castañeda

Jorge Castañeda foi chanceler do México e é autor de uma das mais extensivas biografias já publicadas sobre Che Guevara.

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