A guerra fria entre Colômbia e Venezuela

Jorge Castañeda

Jorge Castañeda

  • EFE

    O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, anuncia o rompimento das relações diplomáticas com a Colômbia, em transmissão ao vivo, ao lado de Diego Maradona

    O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, anuncia o rompimento das relações diplomáticas com a Colômbia, em transmissão ao vivo, ao lado de Diego Maradona

Em 22 de julho, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, teve um dia agitado: ele rompeu as relações diplomáticas com a Colômbia, acusou os Estados Unidos de tramarem sua derrubada e enviou tropas para sua fronteira.

Chávez estourou após o presidente de saída da Colômbia, Álvaro Uribe, ter realizado uma versão diluída de um “momento Adlai Stevenson”. (Stevenson, o embaixador americano na ONU em 1962, famosamente exibiu evidências durante a Crise dos Mísseis Cubanos de que a União Soviética tinha posicionado mísseis nucleares em Cuba.)

Em 22 de julho, em uma reunião da Organização dos Estados Americanos em Washington, o embaixador de Uribe na OEA, Luis Alfonso Hoyos, exibiu evidência de apoio da Venezuela ao grupo rebelde Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, ou Farc, mostrando campos de treinamento, refúgios, armas e hospitais em território venezuelano.

As acusações colombianas – e subsequentes negações da Venezuela– não são novas. Mas esta minicrise tem origem e pode ter sérias consequências na Guerra Fria entre os dois países.

Por pelo menos três motivos, Uribe decidiu ir a público com inteligência que há muito tinha em mãos.

Primeiro, ele não ficou contente com algumas das nomeações para ministros pelo futuro presidente colombiano, Juan Manuel Santos, especialmente Vargas Lleras, o novo ministro do Interior, um rival de Uribe.

Segundo, Uribe não queria compartilhar as atenções com Chávez na posse de Santos, em 7 de agosto, à qual Chávez prometeu estar presente. Em 15 de julho, entretanto, Chávez cancelou, como Uribe esperava, apenas horas após o ministro da Defesa de Uribe, Gabriel Silva, ter apresentado uma prévia das novas acusações contra a Venezuela.

Terceiro, Uribe pode ter desejado forçar Santos a adotar uma política dura em relação a Chávez. Presumivelmente, Santos não poderia dar as costas a tamanho acúmulo de inteligência a respeito da Venezuela, assim que se tornasse pública.

Agora que Santos assumiu a presidência, ele pode reparar as relações com Chávez. Ele pode até mesmo buscar restabelecer o comércio com a Venezuela (que Chávez cancelou no ano passado). A Colômbia normalmente exporta vários bilhões de dólares por ano em bens e serviços para a Venezuela.

Mas a nova abertura não resolverá as tensões que têm se acumulado entre os países vizinhos desde que Chávez chegou ao poder em 1999.

O maior impasse é que Chávez apoia as Farc, o maior grupo rebelde da Colômbia, canalizando apoio diplomático, armas e provavelmente fundos para os guerrilheiros.

Por uma década, a Colômbia olhou relutantemente para o outro lado, mas o país está chegando a um ponto de ruptura.

Uribe enfraqueceu, mas não destruiu os guerrilheiros. Caso eles se rearmem e, pior, obtenham mísseis terra-ar para ameaçar o exército colombiano, grande parte do progresso da última década poderia ser perdido. Qualquer esperança de Santos negociar uma rendição das Farc poderia ser arruinada.

É irreal acreditar que Chávez se resignará a ter um vizinho antipático, mas pacífico; ele não consegue deixar de interferir na política colombiana. Na verdade, à medida que Chávez se envolve em mais problemas domesticamente – uma economia em deterioração, aumento da violência e uma crescente oposição – ele tentará cada vez mais conquistar apoio criando ameaças externas.

Para a Colômbia, este vizinho ruim significa problemas intermináveis. Se Santos conseguir restaurar o comércio, isso ajudaria a Colômbia, mas também fortaleceria Chávez na Venezuela, que atualmente é forçado a comprar da Argentina, Brasil e outros lugares a preços mais altos e com prazos de entrega mais longos.

Se Santos conseguir um entendimento com Chávez, ele sabe que não durará. O homem-forte encontrará outras formas de ajudar as Farc, e a cooperação militar da Colômbia com Washington permanecerá intragável para Caracas.

Se o presidente mantiver o curso de seu antecessor, insistindo para que uma comissão internacional investigue os santuários para guerrilheiros na Venezuela, talvez levando o assunto ao Conselho de Segurança da ONU (outro momento Stevenson), Chávez poderia ser tentado a uma escalada – correndo o risco de uma guerra.

A curto prazo, a melhor opção é a gestão de crise. Uma abordagem diplomática convoluta provavelmente não funcionará. As únicas pessoas com alguma influência real sobre Chávez são os cubanos, particularmente Fidel Castro.

Agora que Fidel se reergueu dos mortos e pode temer a queda de Chávez caso cometa travessuras demais, Castro poderia ser convencido por países como Brasil e México, talvez com a Espanha e alguns outros, a persuadir Chávez a recuar em relação à Colômbia.

Apenas Castro poderia obter esse resultado, e só o faria se os latino-americanos e europeus lhe dessem algo em troca. Mas o que seria? É uma pergunta interessante para María Angela Holguín, a nova ministra das Relações Exteriores de Santos, e para os colegas dela na região.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Jorge Castañeda

Jorge Castañeda foi chanceler do México e é autor de uma das mais extensivas biografias já publicadas sobre Che Guevara.

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