A imigração dos EUA falha com todo mundo

Jorge Ramos

Jorge Ramos

  • John Moore/AFP

    Manifestantes do Arizona (EUA) acendem vela durante protesto contra a lei de repressão à imigração aprovada no Estado

    Manifestantes do Arizona (EUA) acendem vela durante protesto contra a lei de repressão à imigração aprovada no Estado

O sistema de imigração dos EUA está falhando não só com os imigrantes sem documentos, mas com todos. Para entender as consequências de longo alcance desse problema, vamos analisar os casos de uma menina de 7 anos e o de quatro estudantes em idade universitária. Cada uma de suas histórias é uma tragédia, e não estão sozinhos: para 4 milhões como eles não há uma solução à vista.

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Daisy Cuevas, uma estudante de segundo grau na escola elementar New Hampshire Estates participou de uma sessão televisionada com Michelle Obama no mês passado: "Minha mãe disse que Barack Obama está levando todos os que não têm papéis", ela disse à primeira-dama. "Mas minha mãe não tem papéis." Seus pais são imigrantes do Peru, sem documentos.

Cuevas estava certa: levando em conta as repatriações voluntárias, o governo Obama deportou mais imigrantes sem documentos em seu primeiro ano (387.790) do que George W. Bush em seus últimos 12 meses na Casa Branca (369.221), segundo números do Departamento de Segurança Interna.

Cerca de 4 milhões de crianças nos EUA têm pelo menos um progenitor sem documentos, segundo o Centro Hispânico Pew. E se seus pais forem deportados os contribuintes americanos pagarão as consequências.

Algo deve ser feito - e rápido. Michelle Obama não teve uma solução para Daisy, e seu marido também não tem.

A cada ano, cerca de 60 mil estudantes sem documentos enfrentam um obstáculo a mais, no que talvez seja a maior crueldade do sistema educacional americano: conseguem fazer seus estudos colegiais (high school), mas não podem se inscrever em uma carreira profissional.

Muitos deles não podem pagar as matrículas de uma universidade privada, e as instituições públicas não os reconhecem como residentes legais, com direito a matricular-se nelas.

Esse é o caso de quatro jovens que conheci em Miami, todos eles trazidos por seus pais de forma ilegal para os EUA quando eram muito pequenos. Ao longo de quatro meses, caminharam cerca de 2.400 quilômetros, da Flórida até a Casa Branca, para exigir o Dream Act (Lei do Sonho), uma proposta imigratória que daria a eles, e a muitos outros aspirantes a estudos universitários, um estatuto legal. Sua caminhada me fez lembrar as famosas palavras de Winston Churchill: "Se você estiver atravessando o inferno, continue andando".

O presidente Obama não os recebeu. Mas eles se encontraram com duas de suas assessoras. Não puderam entrar na Casa Branca, me explicaram, porque não tinham identificação oficial.

"Nós começamos a caminhar para perder o medo de ser sem-papéis", disse Carlos Roa, de 22 anos. Ele nasceu em Caracas e sua família o trouxe para os EUA quando tinha 2 anos.

Felipe Matos, 24 anos e nascido no Brasil, disse que pôde frequentar o Miami Dade College, uma instituição comunitária, mas não se matricular em uma universidade de quatro anos. Talvez a maior ironia é que ele quer ser professor. "Não sou muito diferente de meus amigos que são cidadãos americanos", ele disse. "Gostamos das mesmas coisas na TV, crescemos juntos. Mas só porque não tenho um papel eu sou supostamente diferente."

Gaby Pacheco, 25 anos, viveu nos EUA nos últimos 18 e disse que se sente mais americana que equatoriana. "Não podemos esperar que deportem mais estudantes que têm talento e querem contribuir", ela me disse.

Juan Rodríguez foi trazido da Colômbia quando tinha só 6 anos. Sua família pediu asilo político, mas lhe foi negado. Com o tempo, sua madrasta o ajudou a conseguir um visto de residência permanente. É o único da família que conseguiu um estatuto legal nos EUA, mas continua lutando pela causa. "Sem reforma migratória a vida dos imigrantes neste país se torna insuportável."

Tudo parece indicar que não haverá reforma imigratória no futuro próximo - simplesmente não há vontade política suficiente. E enviar 1.200 membros da Guarda Nacional para a fronteira, como fez o presidente Obama, nada resolve. Resta ver se o Senado terá os 60 votos necessários para considerar a proposta do Dream Act. Mas Carlos, Felipe, Gaby e Juan não perdem a esperança de que logo haverá um verdadeiro debate sobre o assunto.

O mais triste de tudo é que com tão poucos líderes políticos a apoiá-los uma menina de 7 anos e quatro estudantes em idade universitária agora levam sobre seus ombros o sonho de milhões de imigrantes sem documentos.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Jorge Ramos

O jornalista Jorge Ramos é um dos mais conceituados analistas da questão hispânica nos Estados Unidos.

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